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Quais sintomas cardiovasculares preocupam independentemente do coronavírus?

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Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), conselheiro de Comissão Nacional de Residência Médica do MEC (Ministério da Educação), especialista em cirurgia cardiovascular, com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic, e pós graduado em nutrologia médica pela ABRAN (Associação Brasileira de Nutrologia)

Colunista do UOL

17/05/2020 04h00

Temos dois fatos a considerar e ambos não deveriam ser taxados como conflitantes, mas sim complementares e eventualmente concomitantes. Vivemos o período crítico da pandemia do coronavírus e, ao mesmo tempo, sabemos que as doenças cardiovasculares continuam a existir normalmente.

No entanto, o medo e a insegurança podem nos fazer hesitar em procurar auxílio médico, na vigência de algumas manifestações cardiovasculares. Pode ser uma atitude de prudência, em primeira análise. A consequência desta atitude, por outro lado, pode ser um infarto do coração, um derrame cerebral ou mesmo uma arritmia cardíaca.

Dessa forma, torna-se fundamental estabelecer um nexo entre os sintomas cardiovasculares e os possíveis significados dos mesmos, visando não subestimar ou subdiagnosticar algo que possa ser realmente muito sério.

Outrossim, não perder a noção de que estamos no ápice de uma pandemia que encerra diversos aspectos próprios, mas que seguimos a vida estando sujeitos a outros agravos, dentre eles os cardiovasculares, é uma atitude de bom senso e equilíbrio.

Pensando num quadro suspeito de infarto do coração, devemos estar atentos a dor no peito do lado esquerdo, de forte intensidade, duração prolongada, associada com sensação de "formigamento" do braço esquerdo, sudorese fria e náuseas. Nesta situação, precisamos considerar obrigatoriamente a ida ao hospital.

Nosso músculo cardíaco, conhecido como miocárdio, tem sua viabilidade dependente do tempo, ou seja, a partir do início dos sintomas citados acima, o período de sobrevida do miocárdio gira em torno de 3-6 horas.

Em situações de perda da força nos membros superiores e inferiores, alterações do alinhamento natural da boca e mudanças do estado de consciência podem refletir um quadro de derrame cerebral. Nosso cérebro, em grau substancialmente maior que nosso coração, tem sua viabilidade dependente do fator temporal. A partir do início dos sintomas citados, o diagnóstico e tratamento deveriam ser implementados dentro das três horas subsequentes.

Diante da ocorrência destes sintomas neurológicos, é primordial buscar auxílio médico, independente dos riscos de contaminação pelo coronavírus. Trata- se de um contexto de dimensionamento de prioridades.

As palpitações cardíacas são multifatoriais, podendo estar relacionadas a questões comportamentais, hábitos de vida, desequilíbrio hormonal , estresse no trabalho e questões sentimentais. Na maioria dos casos, as palpitações causam leve desconforto, o qual pode ser minimizado por meio de orientações alimentares, ansiolíticos e alguns medicamentos mais específicos.

Considerar a ida ao hospital deveria acontecer se todas estas medidas preventivas e terapêuticas falharem e os sintomas decorrentes das palpitações —tonturas, turvação visual, dor no peito e falta de ar— efetivamente se agravarem.

Muitas pessoas são portadoras de insuficiência cardíaca, o chamado "coração cansado", e esta condição pode apresentar descompensação, produzindo sintomas extremamente limitantes. Nestes casos, a pessoa pode apresentar sinais de congestão dos pulmões (água no pulmão), dificultando sobremaneira a respiração natural .

Não tem como ficar em casa numa situação como esta, pois a pessoa não consegue respirar adequadamente e pode até ter parada cardíaca.

Seria muito bom imaginar que as doenças cardiovasculares deixaram de existir e de acontecer na vigência de um agravo avassalador como a virose por coronavírus. Seria irresponsável, por outro lado, subestimar determinados sintomas cardiovasculares e deixar de buscar auxílio médico imediato, devido a preocupação de contaminação pela covid-19.

O segredo é conhecer os sintomas cardiovasculares e seus possíveis significados e, a partir daí, estabelecer conscientemente as prioridades. A virose por covid-19 pode matar, tal como o infarto do coração, o derrame cerebral, algumas arritmias cardíacas e a insuficiência cardíaca descompensada.

Diante da dúvida, não hesite em procurar auxílio médico. Isto não é exagero, mas uma atitude de prudência.

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