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Por que o coração é mais frágil após os 60 anos?

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Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), conselheiro de Comissão Nacional de Residência Médica do MEC (Ministério da Educação), especialista em cirurgia cardiovascular, com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic, e pós graduado em nutrologia médica pela ABRAN (Associação Brasileira de Nutrologia)

Colunista do UOL

19/04/2020 04h00

O coração humano pode apresentar alterações de estrutura, forma e função após a sexta década de vida. Os fatores genéticos ou o histórico familiar, num primeiro momento, podem justificar esta evolução estrutural. No entanto, os fatores comportamentais e os hábitos de vida são também determinantes neste processo. Dentre os hábitos de vida mais importantes, podemos citar o tabagismo, a obesidade e o uso inadvertido de hormônios.

Do ponto de vista da estrutura do músculo cardíaco (miocárdio), são observadas mudanças segmentares, ou seja, algumas porções do miocárdio começam a perder sua capacidade plena de contratilidade. Isto implica na ocorrência mais acentuada de áreas de isquemia miocárdica, ou baixo fluxo sanguíneo miocárdico, culminando com força cardíaca global preservada, mas com graus variáveis de déficit.

As valvas cardíacas, tais como mitral, aórtica, tricúspide e pulmonar, apresentam modificações estruturais relevantes como calcificação, enrijecimento e perda da força elástica. Estas ocorrências estruturais das valvas cardíacas são predisponentes para maior refluxo e sobrecarga progressiva do coração. Em decorrência deste refluxo valvar, o coração começa a crescer e perder sua forma original.

Do ponto de vista da forma, o coração humano tem um formato elíptico em condições normais. Após os 60 anos, em decorrência da maior ocorrência de áreas de isquemia e também do refluxo das valvas cardíacas, o coração pode apresentar uma configuração mais circunferencial, tornando-se mais ovalado, arredondado.

Nesta fase, usualmente a capacidade de contração do coração também diminui, uma vez que as fibras miocárdicas trabalham de forma efetiva quando o coração ainda apresenta sua configuração elíptica original.

Do ponto de vista da função cardíaca, são observadas alterações marcantes após os 60 anos, sobretudo como resultado de hábitos de vida não saudáveis. No coração humano, existem as artérias coronárias, responsáveis pela irrigação e nutrição do músculo cardíaco. Para que haja irrigação adequada do músculo cardíaco, estas artérias coronárias executam movimentos de abertura e fechamento, em compasso com as fases do ciclo de contração e relaxamento do miocárdio.

Após os 60 anos, em pessoas tabagistas e que consomem gorduras e açúcares de forma exagerada, as artérias coronárias não conseguem desempenhar este citado papel de forma efetiva, comprometendo a nutrição do músculo cardíaco. De forma análoga, as valvas cardíacas, responsáveis pelo controle do fluxo sanguíneo que chega e que sai do coração, perdem sua elasticidade natural nos indivíduos com hábitos de vida inapropriados.

Este descontrole do fluxo sanguíneo culmina com a falência progressiva do coração, a tão propalada insuficiência cardíaca. O uso inadvertido de hormônios, tanto por parte de homens como mulheres, hábito que muitas vezes se inicia na juventude, pode ser determinante em provocar alterações funcionais nas artérias coronárias e valvas cardíacas, podendo também contribuir para o desenvolvimento da insuficiência cardíaca.

As pessoas que atingem a sexta década de vida necessitam de um acompanhamento cardiológico rigoroso e periódico. Devem se privar de hábitos como tabagismo e alimentação gordurosa. Além disso, estas pessoas deveriam conhecer algumas particularidades que o coração e suas estruturas apresentam, do ponto de vista da estrutura, forma e função.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.