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Obesidade pode causar apneia do sono e levar a insuficiência cardíaca

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Edmo Atique Gabriel

Professor livre-docente na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), conselheiro de Comissão Nacional de Residência Médica do MEC (Ministério da Educação), especialista em cirurgia cardiovascular, com aprimoramento em centros como Harvard Medical School e Cleveland Clinic, e pós graduado em nutrologia médica pela ABRAN (Associação Brasileira de Nutrologia)

Colunista do UOL

26/01/2020 04h00

As pessoas tornam-se obesas em virtude de inúmeros fatores, alguns genéticos e outros adquiridos. Certamente não é exagero afirmar que a obesidade jamais foi cerne de tantas pesquisas, especulações e conclusões como nas últimas duas décadas. E isto pode ser atribuído a correlação entre a obesidade e a elevação de mortalidade cardiovascular.

Quando se pensa em obesidade e mortalidade cardiovascular, imediatamente a maior preocupação é direcionada para o infarto do coração e o acidente vascular cerebral. Estas duas entidades clínicas indubitavelmente podem ser fatais, limitantes em alguns casos e causadoras de sequelas para o resto da vida. Contudo, pode-se destacar, neste trajeto quase linear entre a obesidade e a mortalidade cardiovascular, a existência de uma síndrome, não menos importante na promoção de eventos cardiovasculares deletérios: a síndrome da apneia obstrutiva do sono.

Em geral, a síndrome da apneia obstrutiva do sono está relacionada a alguns aspectos anatômicos da cavidade nasal, cursando com passagem do ar mais restrita pelo nariz e induzindo o indivíduo a respirar pela boca e ainda assim com certa dificuldade.

Nos obesos, a dificuldade respiratória é proporcional ao grau de obesidade e está relacionada não somente com aspectos anatômicos, mas também com significativa limitação funcional para executar os movimentos respiratórios com a devida normalidade e eficiência.

Com o passar dos meses e dos anos, os indivíduos obesos desenvolvem a síndrome da apneia obstrutiva do sono, a qual impacta, cumulativamente, na necessidade de trabalho redobrado do coração. Os diversos sobressaltos que apneia produz durante o sono são responsáveis por causar picos de hipertensão arterial e consequentes picos de sobrecarga cardíaca.

Caso nenhuma medida preventiva ou terapêutica for adotada para mudar o curso natural desta síndrome, os indivíduos poderão apresentar insuficiência cardíaca, quadro de disfunção global do coração.

Diante desta sequência trágica de eventos: obesidade - apneia - insuficiência cardíaca, as medidas preventivas seriam mais eficazes do que simplesmente tratar as complicações. Tratar complicações implica em necessidade de cirurgias e uso contínuo de muitos medicamentos e de acessórios para auxiliar a respiração durante o sono. Antes destas etapas terapêuticas, seria prudente esgotar todas as possíveis medidas preventivas.

Considerando que a obesidade é o aspecto subjacente deste ciclo de eventos que termina com a insuficiência cardíaca, todos os esforços deveriam estar direcionados para a prevenção e tratamento da própria obesidade. Primeiramente deve-se buscar auxílio de médico especialista ou até de uma equipe de médicos e profissionais de saúde que contribuam nesta luta contra a obesidade.

Rever o estilo de vida é o passo inicial e principal. Muitas vezes, a perda de peso fundamenta-se em modificar a rotina de trabalho, inserir mais horas de atividade esportiva, mais horas de atividades de lazer e cultura, mudar o padrão da alimentação e adotar medidas de combate ao estresse. Atividade física orientada e executada regularmente é extremamente eficaz na fase inicial e sobretudo na fase de manutenção do peso, propiciando maior conforto respiratório durante o sono.

Para aqueles indivíduos obesos, com apneia obstrutiva e sinais incipientes da insuficiência cardíaca, o uso de alguns medicamentos, sob orientação médica, é mandatório para tentar controlar a progressão do peso tal como promover a redução do mesmo.

Como alternativa terapêutica, também muito eficiente, destaca-se a cirurgia bariátrica, que contempla uma gama de técnicas que visam reduzir a superfície absortiva do tubo digestivo.

A tríade obesidade - apneia - insuficiência cardíaca representa a evolução desfavorável de um conjunto de hábitos de vida impróprios, eventualmente associados a fatores genéticos. Para modificar o curso natural deste ciclo extremamente limitante, é imprescindível que haja conscientização, iniciativa e execução.

Além disso, recorrer aos médicos e profissionais de saúde é tarefa obrigatória para definição das melhores estratégias preventivas e terapêuticas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Edmo Atique Gabriel