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Dante Senra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

CPI = ciência por intuição. Não queremos uma verdade inventada

Senador Renan Calheiros trocou seu nome pelo número de mortos por covid na bancada da CPI - Reprodução/TV Senado
Senador Renan Calheiros trocou seu nome pelo número de mortos por covid na bancada da CPI Imagem: Reprodução/TV Senado
Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

16/05/2021 04h00

Momento difícil. A realidade travestida de ficção onde o mundo atual se tornou mais ameaçador do que a vida na série de televisão dramática "The Walking Dead" ou no filme pós-apocalíptico estrelado por Will Smith "Eu sou a lenda", quando a população de Nova York foi dizimada por um vírus criado pelo próprio homem (ou por sua relação predatória com a natureza, que parece ser nosso caso).

E assim vamos vivendo, procurando o oxigênio nosso de cada dia para tentar sobreviver, implorando pelo retorno à vida que reclamávamos sem parar.

Como se não bastassem mais de 425 mil mortos pelo vírus, vamos assistindo jairzinhos (letra minúscula propositadamente) e Jacarezinhos.

O que houve com a nossa sociedade?

Perdemos nossa capacidade de indignação? Discursos de ódio entre brasileiros, racismo, violência banalizada e generalizada, exclusão social, agressões ao meio ambiente, pobreza extrema e cobiça nos envenenando a alma.

Pensamos muito e sentimos pouco. Vivemos a globalização da indiferença, como disse o papa Francisco.
Para vencer o mal externo é preciso primeiro vencer o mal que existe dentro de nós.

Chaplin, em o último discurso do filme "O Grande Ditador", disse: "Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina que produz abundância tem-nos deixado em penúria".

Aí ligamos a televisão e vemos contagem de mortos por minuto, falta de oxigênio, falta de vacinas, falta de vagas de UTI, kits para intubação e insumos hospitalares. Indignados, criamos a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito).

A distopia desse mundo novo é tamanha que criamos uma CPI para analisar o enfrentamento da pandemia (já que até agora apanhamos de 7 a 1) e vemos mais discursos de ódio.

Me parece estranho que políticos tenham prescrito medicamentos e agora políticos dizem que esses medicamentos não têm eficácia.

Nada contra a comissão, desde que ela tenha objetivos claros e resultados no sentido de ajudar nossa sociedade. Ela não pode ser um palco de vaidades ou um palanque eleitoreiro. Nela, até agora, ciência tem sido a palavra de ordem.

Entretanto, a única relação entre política e ciência está no fato em que ambas precisam ser estudadas, uma vez que a ciência também estuda a forma como se dá a política, chamada ciência política. Mas não está sendo usada neste sentido.

A palavra ciência deriva do latim scientia e significa "conhecimento" e, portanto, a ciência não é uma questão de opinião. Ela não é o que "achamos" ou o que nos é conveniente.

Um princípio importante nela é o ceticismo, que é a noção de que tudo deve ser questionado e analisado sistematicamente, e afirmações nunca devem ser aceitas sem debate.

A ciência foge do improviso em seu pragmatismo e, assim, é feita de experimentos de laboratório, observações, estudos duplo-cego, randomizados e com rigor metodológico buscando conhecer a verdade, mas sempre de forma ética porque o desenvolvimento tecnológico e científico jamais pode transgredir os direitos humanos.

Sua função no mundo contemporâneo é auxiliar a manutenção da vida humana, bem como o desenvolvimento de sua qualidade, e não servir a propósitos políticos partidários em um país já ferido demais e polarizado.

Como disse o filósofo prussiano Immanuel Kant: "Ciência é conhecimento organizado. Sabedoria é vida organizada".

Nesse momento de crise temos gente demais falando em ciência, muitas vezes sem nenhum conhecimento ou legitimidade. Não queremos uma verdade inventada.

Tenham medo de quem fala em nome da ciência porque já foi dito que nela não existe um erro tão grosseiro que, amanhã ou depois, sob alguma perspectiva, não pareça profético.

O debate de ideias de forma respeitosa deve ser a essência de nosso parlamento, assim como o respeito ao contraditório o fundamento e força motriz da democracia, porque como disse Henri Poincaré, matemático, físico e filósofo da ciência francesa: "Assim como casas são feitas de pedras, a ciência é feita de fatos. Mas uma pilha de pedras não é uma casa e uma coleção de fatos não é, necessariamente, ciência".

Onde está o nosso velho normal? Não tenho lá muito apreço por ele, mas parecia menos aterrorizador do que os dias atuais.

Para o desapontamento de quem espera que voltemos logo ao que chamávamos de "normal", isso não vai acontecer. Não sem antes passarmos pelo chamado estresse pós-traumático. A psicanálise tem reforçado que essa situação ocorre não tanto pela intensidade ou duração da dor ou agressão, mas porque ela não foi aceita como algo que possa fazer sentido.

E esta, vida sem amor e respeito, não importa quantas outras coisas tenhamos, é uma vida vazia e sem sentido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL