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Dante Senra

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Dá para controlar muito bem a pressão arterial: basta querer!

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Imagem: iStock
Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

02/05/2021 04h00

Está semana celebramos o Dia Nacional de Preveção e Combate à Hipertensão Arterial. Em tempos de coronavírus, tudo mais parece perder importância, mas falar de hipertensão arterial é falar de uma das principais comorbidades responsáveis pela má evolução da infecção pela covid.

Segundo estudo publicado pela revista americana The Lancet, a quantidade de pessoas que sofrem de hipertensão no mundo duplicou nos últimos 40 anos, chegando à assustadora cifra de 1 bilhão, ou seja, um sétimo da população do planeta.

No Brasil, mais de 38 milhões de pessoas com 18 anos ou mais sofrem de hipertensão arterial. Entre os idosos, atinge 60%.

Mesmo dentre as pessoas que têm conhecimento da doença, 50% fazem uso de medicação, e, dessas, apenas 45% têm a pressão controlada. Estima-se que atualmente 4% das crianças e adolescentes já sejam portadoras de hipertensão arterial.

Assim, a doença se tornou responsável, direta ou indiretamente, por metade das mortes por doenças cardiovasculares, aproximadamente 200 mil todos os anos no Brasil. A hipertensão causa anualmente a morte de 9,4 milhões de pessoas no mundo, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde).

A hipertensão arterial está presente em 80% dos atestados de óbito de pacientes que morreram de AVC (acidente vascular cerebral) e em 50% dos de ataque cardíaco. Demais, não é? Sobretudo se consideramos que essa é uma doença evitável.

Evitável porque ainda que a causa não possa ser removida, a medicação é atualmente muito eficaz, com posologia cômoda (na maioria das vezes apenas uma vez ao dia), com pouco ou nenhum (maioria das vezes) efeito colateral (se houver basta que seu médico realize a troca, uma vez que o arsenal terapêutico atualmente é bastante vasto) e a grande maioria disponíveis na rede pública. Também atualmente existem maneiras bem eficientes de controle e de avaliação da eficiência da medicação instituída.

Quais são as causas?

O tipo mais comum de hipertensão arterial é a chamada hipertensão primária ou essencial e responde por mais de 90% dos casos. É assim chamada porque surge sem causa conhecida ou que possa ser esclarecida. Uma perda de elasticidade das artérias, tornando-as mais rígidas, está muitas vezes presente, mas não se tem clareza do porquê isso ocorre.

Fatores de risco para esta hipertensão são identificados, mas não podem sozinhos ser responsabilizados pela doença.

Dentre eles:

  • Sabidamente pessoas com pelo menos um parente de primeiro grau hipertenso tem o dobro de chances de desenvolver pressão alta, embora vícios de avaliação possam estar presentes (porque as pessoas podem ter não só em comum a mesma herança genética, mas também o mesmo ambiente/estilo de vida e a mesma alimentação).
  • A incidência da doença em afrodescendentes também é marcadamente maior, embora esta avaliação também possa sofrer interferência sócio-ambiental.

O papel do sal

Vale a pena falar um pouco de um hábito que tem bastante peso na gênese da hipertensão: o uso excessivo de sal.

Mesmo vital para nossas vidas e inspiração para poesia romântica de Khalil Gibran ao dizer: "Deve existir algo estranhamente sagrado no sal: está em nossas lágrimas e no mar", os números mostram que o brasileiro consome mais que o dobro (quase 12 gramas) da quantidade de sal recomendada pela OMS, que é de 5 gramas de sal por dia, ou uma colher de chá.

Segundo estudo publicado na revista Nutrire em 2014, somente os países asiáticos têm consumo de sódio maior que o Brasil.

Entretanto, reduzir a quantidade de sódio na dieta não é tarefa simples, visto que a maior parte da sua ingestão advém de produtos industrializados o que torna a adição intencional desaconselhada.

Vale a pena também gastar algumas linhas para tentar esclarecer uma questão tão comum no consultório.
Muitos adotam como prática a substituição do sal refinado de cozinha por outros tipos de sal. Esta atitude não tem efeito pratico, já que todos têm quantidades muito aproximadas de sódio.

Para se ter ideia, 1 grama de sal refinado contém 381 mg de sódio. Do sal marinho, 1 grama contém 385 mg.
Já o sal grosso, 399 mg de sódio na mesma quantidade de sal e no sal rosa do Himalaia 368 mg de sódio em 1 grama (pouco melhor, mas sem efeito prático na mudança).

A chamada flor de sal (é um sal marinho, considerado o mais puro sal encontrado em forma de cristais, formados na superfície da água e recolhidos de forma artesanal, que secam ao sol, resultando nesses cristais mais crocantes) contém aproximadamente 10% a mais de sódio (450 mg por 1g de sal) que o sal comum, por isso não é indicado aos hipertensos.

Uma boa conduta é a troca pelo chamado sal dietético ou light. Ele tem 50% menos de sódio por porção, se comparado com o sal de cozinha comum.

É feito com metade de cloreto de sódio e metade de cloreto de potássio. Pode não ter exatamente o mesmo gosto, mas os benefícios são evidentes. Não é aconselhável seu uso por pessoas com problemas renais.

Fatores de risco

Outros fatores que estão nitidamente associados a gênese da hipertensão arterial são a obesidade (indivíduos com IMC maior que 30 apresentam de 5 a 6 vezes mais chances de apresentarem níveis de pressão elevada); a ingestão diária de 2 taças de vinho ou o equivalente em álcool aumenta em 2 vezes o risco de hipertensão e o tabagismo, por ação vasoconstritora da nicotina, também pode aumentar a pressão.

Como foi dito, em uma minoria absoluta dos casos (em torno de 5 a 10%) a hipertensão arterial pode ser secundária, ou seja, ter uma causa claramente definida.

Estão entre elas os problemas renais: falência renal crônica, glomerulonefrites, doença renal policística, obstruções das artérias renais, excessos de cortisona —chamada síndrome de Cushing— e alguns tumores das glândulas suprarrenais.

Em outras doenças, como a apneia obstrutiva do sono, 50% dos que têm evoluem com hipertensão. Neste caso, seus níveis costumam ser mais elevados no período da manhã, ao contrário do que ocorre em outras causas de hipertensão.

Como saber se está com a pressão alta?

A única maneira de fazer diagnóstico é medindo a pressão. Hoje dispomos da facilidade para o diagnóstico de um exame chamado MAPA (Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial) que afere a pressão aleatoriamente por 24 horas (medida a cada 20 minutos) e serve tanto para o diagnóstico como para a avaliação da efetividade do tratamento.

Considerando que na maioria dos casos a hipertensão evolui sem produzir sintomas, de uma maneira simplista quem tem alguém na família com o problema deve medir a pressão a cada seis meses e, quem não tem, a cada ano. Obviamente deve-se considerar a presença de cada um dos fatores de risco antes de estabelecer essa periodicidade.

Depois da informação que os medicamentos são acessíveis, com posologia cômoda e apresentam poucos ou nenhum efeito colateral, já podemos afirmar que somente apresenta níveis descontrolados de pressão arterial quem deseja.

Então vamos lá, meça sua pressão periodicamente pois como dizia John Kennedy: "Coragem é manter a classe sob pressão".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL