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Dante Senra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Aproveite a pandemia e coloque a caridade, rara virtude, em prática

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL
Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

18/04/2021 04h00

"A transferência é inevitável. Todo ser humano causa impacto no outro". Esta é uma frase do filme "Patch Adams - O Amor é Contagioso".

É passada a hora de nos perguntarmos qual impacto estamos causando na vida dos outros nesta pandemia. É tempo de servir. Se não agora, quando?

É tempo de parar de reclamar. É tempo de parar de somente agradecer com orações que você é um privilegiado por ter saúde, emprego mantido, família, moradia, home office.

O número de brasileiros que não tem nem home, nem office aumenta assustadoramente. Agradecer é importante, mas não basta.

Do alto de nossa arrogância nos achamos merecedores do privilégio e nos distanciamos de quem mais precisa. Como diz o jornalista André Trigueiro: é um grave erro colocar o sofrimento e a carência na relação de causa e efeito e dizer que está pagando pelo que fez. Chama sabiamente de manipulação de verdades espirituais.

Pobreza exponencial

Os dados do Cadastro Único, disponíveis até setembro de 2020, mostravam que havia 149.654 famílias que se declararam em situação de rua no país. Esse número não é exato, sabemos, uma vez que só considera as pessoas que preencheram os dados para tentar inclusão em programas sociais do governo. Estima-se que este número beire os 300 mil.

"A invisibilidade social da população em situação de rua é reproduzida na incapacidade do Estado de contá-los, de pensar em suas necessidades", diz Marco Natalino, do Ipea.

Assim, não há política mínima sócio-assistencial a não ser espaços tutelados que nem são para todos. Esperar que o estado lhes ofereça ressocialização, renda mínima ou emprego parece ser esperar demais.

E aí, aumentamos a distância de dentro de nossos carros, algumas vezes blindados, criando um apartheid ainda maior em nossa sociedade, como se já não estivessem isolados o bastante.

Quando o vírus nos visitou supostamente em março do ano passado, 24,7% da população brasileira, ou seja, 51,742 milhões de brasileiros já viviam abaixo da linha de pobreza definida pelo Banco Mundial como indivíduos com renda de US$ 5,50 por dia (R$ 31).

Um estudo realizado por pesquisadores da Inglaterra e Austrália junto com o Instituto Mundial das Nações Unidas para a Pesquisa Econômica do Desenvolvimento (UNU-WIDER) dá conta de que mais 14,4 milhões de brasileiros passarão a viver pós-pandemia na linha de pobreza, ou seja, com menos de US$ 5,50 por dia. No mundo, a mesma pesquisa demonstra o surgimento de 527,2 milhões de novos pobres.

Em 2019, antes da pandemia, uma pesquisa da FGV (Fundação Getulio Vargas) mostrava que 10,97% dos brasileiros viviam em extrema pobreza, ou seja, ganhando menos de US$ 1,90 por dia (R$ 322 por mês), que é o critério internacional utilizado pelo Banco Mundial.

Com o pagamento do auxílio emergencial, esse número caiu para 4,52%. Em fevereiro deste ano, com o fim do benefício, este número passou para 12,83% de brasileiros (cerca de 27 milhões de pessoas).

A pesquisa da UNU-WIDER sugere que, no mundo, o número de pessoas vivendo na pobreza extrema passará dos 727,3 milhões atualmente para 1,1 bilhão (um sétimo da população do planeta).

Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, a taxa de pobreza extrema atingiu 12,5% e a de pobreza, 33,7% da população da região, aprofundando os problemas estruturais da América Latina, com altos níveis de informalidade, desproteção social, baixo nível de produtividade e piorando indicadores de saúde e educação, como refere a secretária-executiva deste órgão, Alicia Bárcena.

A questão que se impõe visto que não há horizonte para a resolução da pandemia e mesmo quando o término chegar, as sequelas sociais se estenderão por anos é... O que podemos oferecer a quem mais foi acometido? Sim, porque todos fomos atingidos, mas de maneira desigual e todos temos algo a oferecer.

Estamos sendo convidados pela pandemia a perceber nossa fragilidade existencial e a responder com ações de empatia e solidariedade.

Mais do que agradecer, pergunte-se o que pode fazer para ajudar. Filiar-se a ONGs e dar dinheiro é importante sim, mas lembrar que caridade não é apenas doar o excedente, isto é obrigação. Caridade maior ainda é doar nosso bem mais escasso: o nosso tempo.

Quem tem fome compartilha sua pouca refeição porque sabe o que é ter fome.

Estávamos antes da pandemia obesos de indiferença e anoréxicos de sentimentos.

Há uma bela música de Laura Pausini que diz: "Viva agora! Se atrevas a viver por inteiro. Viva agora! Tente dar ao próximo algo de ti. Até quando pensar que não há nada mais a oferecer".

Que oportunidade a Providência está nos dando de rever nossos valores. E aí, sim, temos um forte motivo para agradecer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL