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Dante Senra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O vírus muda, mas a sociedade não

Bruna Rocha/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Imagem: Bruna Rocha/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

21/03/2021 04h00

Nosso futuro ficou urgente. Todos querem que esses tempos logo passem e tudo volte ao normal.

Mas fico pensando como sairemos disso? Que sociedade nossos filhos irão herdar?

Errei em várias previsões nessa pandemia. Errei quanto ao número de mortos e quanto à duração da pandemia, entre outras coisas.

O que alivia meu sofrimento quanto às previsões é que nem o mais pessimista poderia supor que após um ano ainda estaríamos nesta situação. Deveria ter me lembrado da frase atribuída ao ex-ministro Malan: "No Brasil, até o passado é incerto".

Uma das previsões erradas, entretanto, continua me causando enorme desconforto. Defendi desde o início destes tempos duros que sairíamos melhores deste momento, afinal de contas, é para isso que serve o sofrimento.

Sairíamos seres humanos melhores e teríamos uma sociedade melhor, mais justa e com menos desigualdades. Havíamos perdido a capacidade de nos indignar com o sofrimento alheio.

Passamos a achar normal, já que é comum em nosso país, pessoas que sobrevivem em condições inumanas.
De acordo com o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), o número de pessoas em situação de rua no Brasil cresceu 140% entre 2012 e março de 2020, chegando a quase 222 mil pessoas (56,2% na região Sudeste). Estudos preliminares indicam que esse número poderá dobrar no pós-pandemia.

Antes da pandemia, de tão comum, passamos a achar normal a existência de favelas, falta de saneamento básico, educação precária, saúde apenas para a classe média alta, transporte precário, doenças infecciosas etc... E vamos convivendo com tudo isso. Nossa tolerância com o horror parece não ter limites.

Convivemos e aceitamos no estado mais rico da federação a cracolândia, que representa o resumo da degradação humana e falta de cuidado. E vamos padecendo de falta de afeto. Afeto no sentido de nos afetarmos com isso. E o que mais escuto é o clamor pelo retorno do velho normal.

Um normal com desigualdades escancaradas, intolerância a diversidade, agressão ao meio ambiente, discurso de ódio entre os brasileiros. Não tenho afeto por ele. Gostaria de um outro normal.

Como crente em Deus penso que Ele está no controle de tudo isso. Talvez essa pandemia seja a opção mais amorosa que encontrou para promover uma mudança.

Essa é uma teoria agostiniana que propôs que o mal não poderia existir dentro de Deus, nem ser criado por Deus, e é, ao contrário, um subproduto da criatividade dele. Em sua teoria, Santo Aureliano Agostinho rejeitou a noção de que o mal existe em si mesmo, propondo, em vez disso, que é uma privação do bem e uma corrupção da natureza.

O filosofo alemão Leibniz, em sua obra "Ensaio de Teodiceia", estabelece uma relação entre a bondade de Deus com o problema da existência do mal em que tenta explicar como um Deus misericordioso provoca ou tolera tamanha dor e sofrimento.

Obviamente pode ser uma tola tentativa de tentar encontrar uma razão para isso tudo, mas parece que se o objetivo foi de purificação de sentimentos vai ficar para um outro momento.

Tínhamos a oportunidade de criar uma outra sociedade e resgatar a essência do que é fundamental, que são as relações humanas respeitosas e fraternas, afinal, desumanidade não pode ser destino.

É fato que para desenvolver solidariedade é preciso criar musculatura, e não a desenvolveremos de uma hora para outra, mas depois de um ano desta luta insana, parece que nossa sociedade ficou mais insensível. Para vivermos em uma sociedade mais justa e menos desigual, não importa se você se importa se a maioria simplesmente não se importa.

Assistimos à falta de empatia, de solidariedade e até de oxigênio. Crianças morrendo sufocadas e adultos morrendo por falta de vagas em hospitais. Houve até quem disso se aproveitasse vendendo falsos torpedos de oxigênio.

Entendo perfeitamente que nosso país é composto por grande parte de pessoas que saem de manhã para ganhar o almoço e a tarde para ter o jantar. Mas aglomerações em festas, pancadões e cassinos neste momento são falta de respeito.

Infelizmente vi mais pessoas mudarem saindo das UTIs do que de igrejas. Mas não há UTIs para todos.
A resiliência é a reação após tragédias, perdas e agressões da vida. Fomos projetados para nos recuperar. Então, não tenham dúvidas que sairemos disso.

Pensei, entretanto, termos feito um pacto universal de que o mundo seria melhor depois disso, mas ao contrário do que muitos tolos, inclusive eu, falaram, não vamos sair disso para Pasárgada, Canaã ou Valhalla.

A solidariedade, ao contrário do que pregam, não tem uma dimensão religiosa, mas uma dimensão humana.

Precisamos acordar dessas imperfeições, pois como dizia Nelson Rodrigues: "É fácil amar a humanidade. Difícil é amar o próximo".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL