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Dante Senra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não é "mimimi": coronavírus adoece o corpo inteiro e todos podem ser vítima

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do VivaBem

07/03/2021 04h00

Do modo mais triste possível, a pandemia trouxe para a sociedade a familiaridade com inúmeros termos e expressões técnicas que não faziam parte do vocabulário habitual. Alguns ouvimos com certa frequência, como achatar a curva, média móvel, EPIs (equipamentos de proteção individual), paciente zero, lockdown e a própria definição de pandemia.

Também se tornaram populares diversas doenças como a encefalites, tromboses e miocardites. Sim, esse malfadado vírus que mudou a rotina do planeta pode produzir todos esses problemas e outros, pois é capaz de atingir praticamente todos os órgãos.

Habitualmente, os vírus têm tropismos estabelecidos por determinados órgãos. Deste modo existem os vírus da hepatite, vírus que causam infecções no cérebro, pulmões, tireoide e até no coração, produzindo as agora notórias miocardites.

No início da pandemia, achava-se que a infecção produzida pelo coronavírus afetava apenas os pulmões, mas com seu avanço ficou claro que esse vírus causa inflamação sistêmica em diversos órgãos —incluindo o coração.

Não se tinha notícia de um vírus com tamanho potencial destruidor e com avidez por todos os órgãos.

Mas o coração? Órgão envolto pelo manto sagrado da proteção no imaginário popular não inflama. Dizem que não existe nem câncer desse órgão. Infelizmente são mitos. Tanto existe câncer de coração quanto ele também pode ser alvo da agressão do coronavirus. E é com elevada frequência.

Segundo artigo publicado no Journal of Thoracic Imaging, cerca de 40% dos pacientes com covid-19 ou já recuperados da doença têm miocardite —uma inflamação no músculo cardíaco. Essa infecção pode ser assintomática ou se manifestar com arritmias e/ou falência desse órgão produzindo a chamada insuficiência cardíaca e essas alterações podem ser transitórias ou perdurarem por toda a vida. Em qualquer das situações, precisam de diagnóstico e tratamento pois podem por si produzirem aumento da mortalidade.

A covid-19 está associada à alta carga inflamatória que pode induzir inflamação vascular afetando também as artérias do coração e precipitar o infarto agudo desse órgão.

Ao contrário do que se possa imaginar, o acometimento do coração por infecções não é novidade. Outros vírus tais como adenovírus, enterovirus, coksackie e até o vírus do HIV podem afetá-lo. Também doenças imunológicas como esclerodermia e lúpus eritematoso, bem como toxinas como etanol ou cocaína podem ser causas de miocardites.

O objetivo aqui é alertar para a necessidade de acompanhamento pós-covid de outras doenças, inclusive cardiológicas. Fraqueza e cansaço são sintomas bastante comuns no pós-covid, mas também pode ser sinais de acometimento do coração.

Estamos em um momento muito difícil. Nossa redenção está no cuidado pessoal e nas vacinas.

Como se vê, não se trata de "mimimi" nem tem a ver com coragem. O coronavírus produz doença de fato e todos nós podemos ser vítimas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL