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Dante Senra

País pobre ou país de pobres? Brasil tem espécie de desrespeito estrutural

Carlos Madeiro/UOL
Imagem: Carlos Madeiro/UOL
Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

24/01/2021 04h00

Nosso país ocupa hoje a nona posição entre as maiores economias do mundo com um PIB de US$ 1,8 trilhão. Devido a desvalorização cambial, fruto do momento político conturbado, incertezas no nosso futuro fiscal e uma taxa de crescimento muito baixa nos últimos anos, a pandemia nos deu um tiro de misericórdia e inevitavelmente passaremos a ocupar o 12º posto neste ranking.

Continuamos um país rico.

O Brasil é líder na produção e exportação de commodities: somos o 2º maior produtor de soja do mundo e 2º em minério de ferro. O volume produzido de petróleo pelo Brasil consolida o país no posto de maior produtor da América Latina, liderança assumida em 2016, em meio ao declínio das operações na Venezuela e no México e nos coloca em 10º lugar no mundo.

Primeiro produtor de açúcar, café, laranja, e segundo de carne e milho, dentre outros. Nossa indústria se destaca na área calçadista, têxtil, química, mecânica, metalúrgica, automobilística e produção de energia elétrica.

Temos condições geográficas e climáticas favoráveis, bacias hídricas abundantes, minérios, ventos favoráveis para desenvolvimento de energia eólica e sem catástrofes naturais.

Mas um país rico com PIB que alcança patamares significativos precisa repercutir também sobre a renda per capita, o que não acontece no nosso país, e isso nos faz um país de pobres porque a renda dos brasileiros é baixa e somos profundamente desiguais.

Países desenvolvidos são nações cuja população tem elevado desenvolvimento econômico e social.

Recentemente nosso país perdeu cinco posições segundo o último IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da ONU, que mede a prosperidade, e ficou em 84º entre 189 países. Para o cálculo desse índice leva-se em conta três dimensões básicas do desenvolvimento humano: renda, educação e saúde.

Na América do Sul, o Brasil é o 4º país com mais alto IDH. Chile, Argentina e Uruguai aparecem na nossa frente.

No entanto, quando o valor do IDH do Brasil leva em conta a desigualdade, ele apresenta uma perda de 24,5%. A parcela dos 10% mais ricos do Brasil concentra cerca de 42% da renda total do país.

O Brasil e a Índia empatam na concentração de renda dos 10% mais ricos, segundo o relatório de desenvolvimento humano do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) de 2019.

Desrespeito estrutural

A pandemia obviamente, nos fará retroceder nesse ranking ainda mais. Como assim? Não atingiu o mundo inteiro? Sim, mas embora tenha imposto sofrimento a todo o planeta, seu enfrentamento foi de maneira bastante desigual.

O mundo inteiro conhece infelizmente o termo contemporâneo "racismo estrutural".

Temos no Brasil entretanto uma outra modalidade do que está estruturalmente mau acabado e podemos chamá-lo de "desrespeito estrutural". Não fora por isso, poderíamos, apesar dos parcos recursos, ter passado por esse difícil momento de maneira menos dolorosa.

Esta modalidade de desrespeito ganhou ainda mais força e energia na pandemia, quando as oportunidades de acesso a tratamento e aos direitos dos cidadãos foram assustadoramente arrancados sob nossos olhos seletivos.

Mas a agressão tornou-se tamanha que os mesmos olhos se tornaram envergonhados.

Refiro-me obviamente ao que aconteceu em Manaus, onde assistimos o retrato acabado de omissões dos governos. Refiro-me ao nosso acesso as vacinas, ao fim do auxílio emergencial, as orientações que recebemos de comportamento e ao aumento do desemprego e da falta de oportunidades.

Enfim, ao nosso histórico durante esta crise, cuja história pode ser contada por diversos enfoques como oito governadores de estado investigados por desvio de verba pública, por exemplo, mas que termina em mais de 200 mil óbitos (por enquanto).

Apenas para focar no estado do Amazonas, palco do mais triste e inusitado acontecimento, lembremos que o governo desse estado gastou R$ 2,9 milhões com dispensa de licitação em uma loja de vinhos para compra de ventiladores pulmonares. Esses aparelhos ainda foram considerados inadequados para pacientes graves da covid-19 pelo Conselho Regional de Medicina.

Nestes muitos anos de formado soube de pacientes que morreram por falta de vagas em hospitais, falta de acesso a tratamentos sofisticados, embora básicos e vitais, como cirurgias, rádio e quimioterapias. Mas o desgoverno está se esmerando nessa técnica de matar. Falta de oxigênio.

Avisados previamente, nada fizeram, visto que eles próprios e seus familiares têm vagas asseguradas nos melhores hospitais de São Paulo.

Vivi, infelizmente, para ver necessidade de decisões judiciais para acertadamente transferir para outros estados pacientes que morriam agônicos porque não lhes foi dado o direito de respirar.

Aliás, assistimos várias decisões judiciais nesta pandemia reordenando a saúde e a dignidade dos brasileiros. Mas o Judiciário tem limites. Ele não pode determinar políticas públicas. Isto quem faz, ou deveria, são os governos.

Assim, tristemente percebemos que o desrespeito que tem caracterizado essa relação governo-cidadão brasileiro não necessariamente está vinculado a desigualdades econômicas, mas com a "lei de Gerson" que marcou nossa sociedade com os desvios de caráter.