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Não podemos decretar o fim da pandemia só porque estamos fartos dela

Fernanda Luz/Estadão Conteúdo
Imagem: Fernanda Luz/Estadão Conteúdo
Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

15/08/2020 04h00

Essa é a questão sem resposta ainda, dada a dimensão de nosso país e de realidades e momentos distintos.
Vinte milhões de casos, mais de 700 mil mortes no mundo. No Brasil, as mais de 100 mil mortes foram suficientes para nos colocar como protagonistas da pandemia e esgotar nossa capacidade de aceitação e conformismo.

Outro dia um paciente me disse que esperar essa doença passar é como naufragar no oceano e saber nadar, ou seja, somente prolongará a agonia. Disse a ele que temos que nadar para sobreviver para o resgate. Ele virá por muitos caminhos.

Historicamente, os finais das pandemias costumam ser confusos, com ondas maiores e menores o que leva a um aumento do desgaste e uma sensação que não haverá fim.

Mas nenhuma pandemia dura para sempre. Se extingue (como a varíola) ou muda de nome, às vezes porque mudam as características (viram endemias), localizações, número de contaminados e mortes.

Quando um determinado número de pessoas já teve a doença, o contágio fica mais difícil, e a enfermidade perde força. Esse costuma ser o final das epidemias, ou então o vírus vai se adaptando, mudando e acaba perdendo a chamada virulência ou força de malefício. Existe também a quebra da cadeia de contágio porque as pessoas costumam frequentar os mesmos locais.

Momentos diferentes em um país continental exigem estratégias diferentes, inclusive com fechamento de fronteiras interestaduais e proibição de migrações.

Um surto também pode acabar se as autoridades de saúde tomarem as medidas necessárias para impedir que haja contato entre pacientes infectados e pessoas saudáveis, evitando novos contágios. Nossos governantes se preocuparam em tratar as consequências da epidemia comprando respiradores, montando hospitais de campanha e cavando covas. Os números escancaram nossa incompetência no controle.

Outra forma é a vacinação. Uma corrida sem precedentes, algo perigosa, vem ocorrendo entre as indústrias farmacêuticas antecipando a terceira fase de pesquisa cujo objetivo é testar a eficácia e a segurança do produto, especificamente ao público-alvo a que se destina e deve acontecer em milhares de pessoas.

Assim, dado o número de vacinas com produtos distintos, os médicos serão obrigados a realizar testes laboratoriais para seguimento da eficácia. O desespero seguramente superará a insegurança da vacina.

Sem mais ilusões

Tudo e todas as maneiras são possíveis, mas a única inaceitável, que não pode acontecer, é que ela acabe somente porque as pessoas estão fartas de com ela conviver, cansadas de restrições por ela impostas e resolvam voltar ao normal ainda com o vírus em circulação.

Temos a sensação de que isto está acontecendo. Suspensões de restrições e abertura de comércio e escolas com retorno às aulas quando ainda temos um patamar de mais de 1.000 mortes por dia não parecem adequados para as autoridades de saúde pública.

À medida que cresce a catástrofe econômica, mais pessoas estão dispostas a decretar o seu fim.

Foram 164 dias no Brasil, do primeiro caso até passarmos das 100 mil mortes por causa do novo coronavírus. Longos e sofridos dias, cujas lembranças permearão nossas mentes, nossa estrutura familiar e nossa sociedade. Sofridos demais para por tudo a perder, as vésperas da vacina.

A mais provável tendência, entretanto, é que o universo una suas forças com a ciência e tudo contribua para o final da pandemia. Mas tendência não é destino, e uma contribuição do poder público no sentido de pedir prudência à população neste momento seria muito bem-vinda. Resiliência e paciência são as novas palavras de ordem.

Sabemos que não é coveiro e muito menos Messias, mas uma manifestação de solidariedade sem conformismo, e muito menos o negacionismo, é o mínimo que esperamos. Não dá para "tocar a vida" em direção da morte.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL