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Dante Senra

Os tão falados testes para diagnóstico de coronavírus podem até atrapalhar

Eduardo Valente/Framephoto/Estadão Conteúdo
Imagem: Eduardo Valente/Framephoto/Estadão Conteúdo
Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

16/05/2020 04h00

No dia 26 de fevereiro, o Brasil teve seu primeiro caso de covid-19 confirmado por meio de um teste que identifica a presença do vírus no organismo. Este teste é chamado de RT-PCR e é realizado através da coleta e análise de uma amostra de secreção respiratória (chamado swab) e deve ser utilizado para pacientes com sintomas ou em indivíduos com quem eles tiveram contato.

A sensibilidade deste exame é variável conforme o dia da coleta em relação ao início da infecção, apresentando pico de sensibilidade no 4º dia. Após o 10º dia do início dos sintomas, a quantidade de RNA, ou seja do vírus na oro e naso faringe, tende a diminuir. Ou seja, o teste RT-PCR identifica o vírus no período em que está presente e ativo no organismo. Se realizado no tempo correto, este teste é considerado padrão ouro para o diagnóstico. Se fora desse período, entretanto, a possibilidade de não ser eficiente é alta, ou seja, será um falso negativo.

Após este período, os testes indicados são de outra natureza. São os chamados testes sorológicos. Estes exames verificam a resposta imunológica do corpo em relação ao vírus e são realizados a partir da amostra de sangue do paciente. Neles portanto, são pesquisados a presença de anticorpos de três naturezas, ou seja são as chamadas imunoglobulinas IgA, IgM e IgG em pessoas que foram expostas ao Sars-CoV-2.

É preciso lembrar que esses anticorpos só aparecem após pelo menos sete dias do início dos sintomas, e com maior sensibilidade após o 10º. Portanto, um exame feito antes desse período deve resultar no chamado falso negativo e, no caso de infecção, sobretudo nos portadores assintomáticos, transformá-los em contaminantes potenciais, pois irão ignorar as medidas de isolamento ainda mais criteriosas recomendadas aos contaminados. Se o resultado for positivo, a margem de erro é bem menor, mas pode ocorrer até por reação cruzada com vacinas que recentemente tomamos, por exemplo contra o H1N1.

Vale lembrar ainda, para piorar, que estes testes chamados rápidos, aprovados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), tem sensibilidade baixa, em torno de 65 a 75%, ou seja, capacidade de acertar se é positivo e especificidade em torno de 90% que é a capacidade de acertar se é negativo.

Assim, resultados negativos não excluem a infecção por Sars-CoV-2 e resultados positivos não podem ser usados como evidência absoluta da doença. O resultado deve ser interpretado com auxílio dos dados clínicos e outros exames laboratoriais.

Tudo isso gera uma insegurança para determinar se o paciente em questão precisa ou não manter o isolamento social.

Bem, mas estes testes podem ao menos determinar se já tive contato com a doença e se meu anticorpo IgG for positivo terei imunidade e poderei sair de isolamento, não é?

A imunidade conferida pela infecção ainda é questionável, embora provável, conforme observação feita pela OMS (Organização Mundial de Saúde). Não se sabe o nível de imunoglobulina G necessário para conferir imunidade e nem o tempo que ela permanece.

Aliás, se permitem um aparte, parece que esse legado negativo da pandemia já está configurado. A meu ver, é a perda de confiabilidade e do protagonismo dessa organização como guardiã da saúde da humanidade, já que fez afirmações que se provaram mais que equivocadas, mas desastrosas com enorme impacto, tais como a de não haver transmissibilidade da doença entre humanos e de não haver necessidade do fechamento de fronteiras e suspensão de voos internacionais.

Como vimos, pouco ainda se sabe sobre esse vírus, e pior é que exames feitos sem orientação médica podem produzir muita confusão e serem perigosos. Por isso, cuidado, testes rápidos vendidos em farmácia são de baixa credibilidade e podem gerar um comportamento de risco.

É isso, amigos, de repente o mundo ficou mais louco, aumentando nossa insegurança com previsões que não se confirmam, drogas testadas com se fossemos laboratórios e testes que não respondem com eficiência. Tudo vai passar como sempre, mas neste momento como diz o poeta: "Minha única certeza são as dúvidas que tenho".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL