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Dante Senra


Busca pela espiritualidade pode ajudar a prevenir doenças cardíacas

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

25/01/2020 04h00

Há muitos anos, os fatores de risco para doenças cardiológicas são bem conhecidos e, obviamente, evitá-los é uma recomendação da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Assim, sua principal mensagem sempre foi que manter um estilo de vida saudável seria decisivo para contê-las. Apesar disso, essas doenças preponderam, aumentam e são as que mais produzem mortes no mundo moderno.

Talvez por isso, ou por evidências mesmo, que em sua nova Diretriz de Prevenção dessas doenças a Sociedade Brasileira de Cardiologia destaca a importância da espiritualidade e do meio ambiente na prevenção de doenças cardíacas.

Segundo estudos, pessoas com espiritualidade, nas suas diversas formas, se associam com melhor qualidade de vida, menos adoecimento e maior sobrevida.

Para alguns, a espiritualidade define-se pela busca por um significado existencial utilizando a transcendência com seu viés religioso em uma conexão com um poder divino que supera as leis físicas conhecidas. Para outros pode ser o desenvolvimento da resiliência ao aceitar plenamente o que a vida lhes impõe exercitando sentimentos edificantes como o perdão e a gratidão, os conduzindo na direção do aperfeiçoamento ético e moral.

A religiosidade pode ser o caminho para a espiritualidade, o idioma pelo qual ela se expressa, ou bastar-se em si como geradora de fé que nos fortalece igualmente. William Osler (1849 - 1919), médico canadense professor da Johns Hopkins Escola de Medicina, um dos ícones da medicina, dizia: "a fé despeja uma inesgotável torrente de energia".

Com qualquer definição, o fato é que a espiritualidade/religiosidade, no âmago de nossas inquietações e amarguras, nos fortalece. Sim, fortalece nosso sistema imunológico, reduzindo o surgimento ou a mortalidade por câncer e todas as evidências e estudos apontam no sentido de redução da mortalidade cardiovascular.

Em estudo publicado em 2016 na conceituada revista Jama Intern Medicine, evidenciou-se uma redução de mortalidade cardiovascular em mulheres que frequentavam serviços religiosos mais de uma vez por semana em mais de 27%. Também tiveram incidência de tumores malignos 21% menor em relação àquelas que nunca tiveram tais práticas.

Nada disso entretanto é visto como novidade. Está relação já é estabelecida de longa data.

Um estudo publicado em 2006 no Journal of Biobehavior Medicine, The Third National Health and Nutrition Examination Survey. que avaliou 14.475 adultos, a frequência religiosa semanal foi associada a uma prevalência menor de hipertensão em comparação com os que não frequentavam serviços religiosos (pessoas que frequentavam a igreja uma vez ou mais por semana possuíam pressão arterial sistólica 3,03 mmHg menor que aqueles que não a frequentavam).

E assim, muitos outros estudos.

Os mecanismos pelos quais ocorre essa relação ainda devem ser elucidados. Até agora, a explicação mais aceita é de que as pessoas resilientes/espiritualizadas têm maior compreensão de suas vidas e, portanto, desenvolvem menos estresse, ansiedade e depressão. Ainda, pessoas que se dedicam a uma atividade religiosa teriam mais dificuldade de desenvolver hábitos nocivos como o tabagismo e o álcool. Vivem melhor ao cultivar práticas como relaxamento, meditação, perdão e gratidão.

Ou seja, a busca da paz interior traz outra postura de vida.

Não me parece que o ponto na diretriz tenha sido o de avaliar a espiritualidade (até porque pode parecer julgamento, o que está longe de ser atribuição médica) mas enfatizá-la, visto que não restam dúvidas sobre seu benefício no que diz respeito à saúde. Assim, é possível integrar crenças e valores ao plano de metas para prevenção.

É preciso habilidade e treinamento por parte dos cardiologistas. Por outro lado, a consulta do cardiologista já pressupõe maior afinidade e esses assuntos que afligem a alma e a maneira de abordá-los costuma já vir à tona nesse relacionamento, ficando mais simples de se conhecer o pensamento de cada um.

Segundo psicólogos, a resiliência pode ser treinada e a religiosidade cultivada. Sabendo do benefício, estimulá-los fica como mais uma obrigação na consulta médica.

Com esse endosso da Sociedade de Cardiologia, talvez os médicos deem o real valor a esse ativo chamado espiritualidade, já que a medicina em sua ignorância ou arrogância subestimou este recurso por anos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Dante Senra