PUBLICIDADE

Topo

Dante Senra

Tuberculose: por que no século 21 ainda convivemos com ela?

Istock
Imagem: Istock
Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

28/12/2019 04h00

"A tuberculose é a sombra da miséria. Se existe uma doença que é sintoma da pobreza, é essa". Com está definição de José Felix Oletta, ex-ministro da saúde da Venezuela, fica mais fácil explicar o porquê essa doença ainda está viva.

Não somente está viva, mas é a doença infecciosa que mais mata no mundo. Para surpresa de muitos, mais que a Aids.

Todos os anos, 10 milhões de pessoas adquirem tuberculose no mundo fazendo 3 milhões de vítimas fatais. No Brasil, são assustadores 70 mil novos casos ao ano com cerca de quatro mil mortes anuais. A Aids matou cerca de 770 mil pessoas em 2018, conforme dados da Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids).

A tuberculose é uma doença urbana e, apesar de bacteriana, é ligada a condições de vida ruins e hábitos não saudáveis como tabagismo, vida noturna, falta de higiene, alcoolismo e má alimentação. Estas condições deixam o indivíduo mais vulnerável à doença já que afetam o sistema imunológico.

A pobreza e a má distribuição de renda são tidas como determinantes para o contágio e a disseminação da doença (isto explica seu predomínio em países subdesenvolvidos). Assim, alguns grupos populacionais (como portadores de HIV pelo déficit de imunidade, pessoas em situação de rua, indígenas em situações precárias e os privados de liberdade) estão mais expostos à doença.

Locais com pouca circulação de ar e grande concentração de habitantes, como nas favelas e cortiços, também favorecem o contágio e a disseminação da tuberculose.

Moradores de rua chegam a ter 56 vezes mais chance de contrair a tuberculose por combinar diferentes vulnerabilidades, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde).

Nas prisões, a incidência de tuberculose ativa é cerca de 20 vezes superior à da população geral, segundo o Ministério da Saúde. Rastreamentos de massa realizados no sistema carcerário das regiões Sul e Sudeste, onde as características são semelhantes às da maioria das prisões do país, mostraram que 5 a 10% dos detentos apresentam a doença.

Quanto à população indígena no Brasil, um levantamento realizado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), no Rio de Janeiro, mostra que o número de casos de tuberculose é cerca de 20 vezes mais alto entre os índios suruís, de Rondônia, do que no restante da população brasileira: 815 casos a cada 100 mil pessoas, ante aproximadamente 40 em 100 mil no restante da população.

"No Brasil, o único grupo que se assemelha aos índios em termos de incidência de tuberculose é a população presidiária", afirmam sanitaristas da fundação.

O mais triste é que poucas melhorias na condição social já são decisivas para uma queda nos números.

Um estudo publicado na revista The Lancet em fevereiro de 2019 mostrou que o Bolsa Família teve um impacto positivo para os pacientes com tuberculose, com uma taxa de cura 7,6% maior no grupo beneficiário e que a proporção de pacientes que abandonaram o tratamento foi menor que 7% nesse grupo. "O Bolsa Família mostrou efeito positivo para a cura e negativo para o abandono do tratamento", escreveram os autores.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento Social, mais de 80% das famílias indígenas no Brasil recebem benefícios do Programa Bolsa Família e quase 40% se encontram em situação de extrema pobreza, deixando clara a situação de vulnerabilidade dessa população.

Se ainda há dúvida de que a doença guarda estreita relação com as condições sociais e econômicas da população, observemos a situação da Venezuela, onde a doença, que até pouco tempo parecia estar sob controle, voltou de forma agressiva. É difícil obter-se dados epidemiológicos confiáveis nesse país, mas em Caracas, o número de pacientes novos com esse diagnóstico aumentou mais de 40%, só no último ano.

Como estamos hoje? O que dificulta a erradicação?

De acordo com o Global Tuberculose Report, órgão da OMS (Organização Mundial da Saúde), no mundo 53 milhões de vidas foram poupadas desde o ano 2000 e houve também uma redução da taxa de mortalidade pela doença em 37%.

No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, nos últimos 17 anos o país experimentou uma queda de 38,7% na taxa de incidência da doença e 33,6% na taxa de mortalidade por tuberculose.

A redução da incidência no mundo, entretanto, é ainda muito aquém do que se esperava para a erradicação.

A manutenção dos níveis da pobreza mundial, a urbanização caótica e a emergência da Aids dificultaram o controle da doença no Brasil e no mundo.

Estima-se que 10% dos novos casos de tuberculose acontecem entre pessoas que vivem com HIV.

O Brasil é o 15º colocado no ranking, encabeçado por China e Índia, dos 22 países que respondem por 80% dos casos de tuberculose do mundo. Ao analisarmos esses países que concentram a doença, existe em comum a pobreza e o baixo nível educacional, como é o caso da Índia, Indonésia, Filipinas, Paquistão, Nigéria, África do Sul e, infelizmente, o Brasil.

Além desses países, a tuberculose vem ressurgindo com força em nações consideradas de primeiro mundo com a epidemia de HIV.

A OMS estima que 1/3 das pessoas com HIV positivo têm, ou já tiveram, tuberculose.

Estima-se que um terço da população mundial, ou seja, mais de 2 bilhões de pessoas, esteja infectado pelo Mycobacterium tuberculosis, ou bacilo de Koch, que é o agente causador da tuberculose e que apenas uma parte, cerca de 10%, adoeça por isso.

Outro dificultador para o controle/erradicação, segundo a OMS, é que 3 milhões de doentes não foram diagnosticados no mundo, ou se foram, não estão sendo tratados ou não foram notificados. Isso significa que muitos irão morrer sem sequer saber que estão doentes, sendo que a maioria vai infectar outras pessoas. Sabe-se que em um ano um indivíduo infectado pode contaminar, em média, de 10 a 15 pessoas.

Mas e o tratamento?

A doença existe desde o início da humanidade, já que em ossos humanos do período neolítico foi encontrada a bactéria. Assim, a raça humana padece desse mal há séculos. Estima-se, entretanto, que ela atingiu o seu auge (número de pessoas contaminadas/doentes) entre o final do século 18 e início do século 19, período em que era chamada de doença romântica, dos boêmios e artistas de vida noturna.

Um grande passo na luta contra ela ocorreu em 1882, quando o médico alemão Robert Koch descobriu o bacilo causador da tuberculose, o Mycobacterium tuberculosis, ou bacilo de Koch, o que lhe valeu o prêmio Nobel de Medicina em 1905.

A descoberta da medicação específica, entretanto, só ocorre a partir da década de 1940, o que obviamente promoveu uma queda acentuada de mortalidade da doença.

Então, a cura da tuberculose é sim uma realidade. Entretanto, a associação de vários medicamentos (ainda pior nos pacientes soropositivos), o longo período de tratamento e as condições socioeconômicas são os grandes empecilhos para o desaparecimento da tuberculose.

O progresso para erradicação e controle da tuberculose na maioria dos países está paralisado. Não por culpa da ciência, que descobriu sua causa e seu tratamento, mas por falta de políticas públicas, transformando os já sofridos contaminados pelas doenças infecciosas nas principais vítimas desse descaso.

Errata: o texto foi atualizado
A Aids mata aproximadamente 770 mil pessoas por ano e não 2,6 milhões de pessoas, como estava no texto. A informação foi corrigida.
Diferentemente do informado no título da coluna e na home-page, estamos no século 21 e não no século 20.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL