Topo

Coluna

Dante Senra


Hipertensão pode ser prevenida e tratada com hábitos saudáveis

Crédito: iStock
Imagem: Crédito: iStock
Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

23/11/2019 04h00

Um bilhão de pessoas. Está é a quantidade de indivíduos no mundo segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde) acometidas por hipertensão arterial. Este diagnóstico é responsável por aproximadamente 9,4 milhões de mortes por ano.

Considerada a maior contribuinte para a mortalidade e como o maior fator de risco para doenças cardiológicas, neurológicas e renais, a pressão alta ainda vem aumentando sua incidência. Uma publicação na importante revista médica Circulation em 2016, da conta de que houve um aumento de 5,2% nos últimos 10 anos, sobretudo nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento.

É difícil é entender por que tantas mortes e níveis tão baixos de controle. Minha dúvida baseia-se no fato de que ainda que a população venha aumentando de peso, leve uma vida cada vez com mais exigências em que não se encontre tempo para atividade física e tenha uma alimentação inadequada, é uma patologia que requer um fácil diagnóstico e a medicação já é plenamente disponível gratuitamente na rede pública.

Há 35 anos, quando me formei, os remédios para este problema eram poucos, caros, com posologia difícil (tomava-se várias vezes ao dia) e com muitos efeitos colaterais. Isto já não ocorre. Hoje há um vasto arsenal terapêutico com pouco ou nenhum efeito adverso (e se ocorrer, existem diversas opções).

Ser sorteado pela loteria genética não é uma escolha. Mas não ter autocuidado é sim uma péssima alternativa.

De acordo com o Ministério da Saúde, a pressão alta afeta um em cada quatro brasileiros adultos. Mas para piorar, um estudo brasileiro revelou que, em indivíduos adultos com diagnóstico de hipertensão arterial, somente 40,5% estavam em tratamento e apenas 10,4% tinham pressão arterial controlada (< 140/90 mmHg).

Ainda, para aqueles que têm recursos, o cuidado ganhou em qualidade. É possível a realização do MAPA (monitorização ambulatorial da pressão arterial), que é um dispositivo que avalia por 24h a pressão arterial. Ou seja, a avaliação pode ser feita no momento de maior exigência física ou emocional durante o seu dia e assim, ajustar além da dose o melhor horário para se fazer uso da medicação.

Mesmo assim, dados do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, mostraram que, em 2017, o Brasil registrou 141.878 mortes devido à hipertensão ou a causas relacionadas a ela, o que significa 16 mortes por hora.

Acredita-se que 37% dessas mortes são precoces, ou seja, em pessoas com menos de 70 anos de idade e assim, poderiam ter sido evitadas.

Os novos dados do Vigitel (Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) em 2018, mostram que 24,7% da população que vive nas capitais brasileiras afirmaram ter diagnóstico de hipertensão.

Observou-se também que a parcela da sociedade mais afetada é a de idosos: 60,9% dos entrevistados acima de 65 anos afirmaram ser hipertensos bem como 49,5% na faixa etária entre 45 a 54 anos.

A incidência da hipertensão aumenta linearmente com a idade. Assim, a grosso modo, se diz que aumenta 10% a cada década após os 50 anos. Ou seja, aos 50 anos, 50% da população é hipertensa, aos 60 anos, 60%, e aos 70 anos, 70% da população tem pressão arterial elevada.

O que se sabe sobre a hipertensão

A hipertensão arterial, com seu início silencioso (talvez por isso a adesão ao tratamento seja tão pequena), apresenta grande impacto para saúde da população.

Entre todos fatores de risco para mortalidade, hipertensão arterial explica 40% das mortes por acidente vascular cerebral e 25% daquelas por doença coronariana (artérias do coração). Quanto a doença renal, a hipertensão arterial pode ser considerada como causa ou consequência da perda da função desse órgão.

O hipertenso sem controle pode ter redução de vida de até 16 anos. Mas, a qualidade de vida fica reduzida nos últimos 20 anos devido a sequelas das complicações.

A idade avançada, obesidade e o baixo nível educacional mostraram-se associados a menores taxas de controle.

A classificação para a doença considera hipertensão arterial com pressão arterial sistólica (máxima) maior do que 140 mmHg e PA diastólica (mínima) menor do que 90 mmHg.

Existe ainda uma nova classificação proposta pela Sociedade Americana de Cardiologia, que considera a hipertensão a partir de valores acima de 130/80 mmHg e, portanto, já sugerindo tratamento nesse valor. Os benefícios do tratamento medicamentoso de pacientes com valores entre 13/8 e 14/9 são demonstrados para aqueles pacientes que tem risco alto de complicações cardiovasculares (portadores de colesterol alto e diabéticos por exemplo). Mas, não estão claros para a grande maioria das pessoas sem estes fatores.

Embora não se encontre a causa na grande maioria das vezes (quase 90%), seu tratamento costuma ser bastante efetivo e não há razões para não o fazer. Como disse, ainda que apresente efeito colateral com a medicação, seu médico hoje dispõe de um vasto arsenal terapêutico e trocará sua medicação.

Problema não é somente no Brasil

Um estudo realizado em 2018 pela Sociedade Europeia de Cardiologia, com oitenta e nove países do MMM (May Measurement Month), que é um projeto desenvolvido pela International Society of Hypertension avaliou 1.504.963 indivíduos, onde cada participante media a pressão arterial e completava um questionário sobre estilo de vida e fatores ambientais.

Os resultados mostraram que 502.079 (33,4%) indivíduos apresentavam hipertensão, sendo que somente 298.940 (59,5%) estavam cientes de seu diagnóstico e 277.794 (55,3%) estavam em tratamento com medicação.

Os resultados do estudo mostraram que um número significativo de pessoas desconhecia sua condição e que parte delas apenas, faziam tratamento efetivo.

Reparem que até o momento nesta coluna não mencionei (ou o fiz pouco) os fatores comportamentais, já que o foco aqui é ressaltar que apesar deles (embora ignorá-los seja pouco inteligente) você pode ter sua pressão arterial mais controlada. Mas, é obvio que não se trata de apologia a uma vida desregrada e se infelizmente assim for, a medicação para o controle da pressão, seguramente será em maior quantidade.

Se optarmos pelo caminho certo, entretanto, aí vão eles:

Hábitos e hipertensão arterial

Todos estudos demonstram que a hipertensão está fortemente relacionada ao excesso de peso e a distribuição da gordura corporal avaliada pela medida da circunferência abdominal (que deve ser menor do que 80 cm para mulheres e menor do que 94 cm para homens), mostrando uma relação direta com estes fatores.

O grupo de fumantes e ex-fumantes também mostrou uma maior prevalência de hipertensão, o que indica que o tabagismo pode elevar a pressão arterial e causar outras doenças cardiovasculares. Há também uma evidente relação da hipertensão arterial com a tolerância à glicose diminuída ou diabetes mellitus bem como uma prevalência aumentada nos indivíduos com os níveis de colesterol elevados.

Outra relação importante é o da hipertensão arterial com o consumo de álcool. Segundo o CISA (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool), organização não governamental criada em 2004, a prevalência de hipertensão arterial em quem consome 3 doses de álcool ao dia equivale ao dobro da observada em abstêmios e consumidores leves (segundo a OMS quem consome 10 a 12 g de álcool ao dia, o que equivale a uma lata de cerveja, ou uma taça de vinho de 100 ml ou ainda, uma dose de 30 ml de destilado), sendo possível observar redução da pressão arterial após uma semana de abstinência.

Ainda segundo o CISA, "a pressão arterial tende a se elevar dentro de dias a semanas (não há efeito agudo do álcool na pressão arterial dentro de minutos a horas)". Além disso, há evidências de que álcool pode reduzir o efeito de medicamentos para o tratamento da hipertensão, e que a redução deste consumo pode exercer papel semelhante ou maior na hipertensão que a perda de peso, atividade física e redução na ingestão de sal.

Não é possível falar de hábitos sem mencionar o consumo do sal. Até 2013 a orientação para o consumo era de cinco gramas de sal por dia o que equivale a 2 gramas de sódio (o cloreto de sódio é o conhecido sal de cozinha e ele possui 40% de sódio em cada grama). Após essa data a nova orientação reduziu essa quantidade ainda mais (para 3 a 4 g). A média de consumo dos brasileiros é de 12 gramas de sal diariamente. Este consumo tem forte responsabilidade sobre o assustador número de hipertensos no Brasil.

Populações que conseguiram reduzir seu consumo demonstraram importante controle dos níveis de pressão. Exemplo claro entre nós está na tribo de índios Yanomami, que por terem baixíssimo consumo de sal, não se observam hipertensos.

O sedentarismo por sua vez piora todos os fatores de risco como a obesidade e o diabetes que, somados ou isolados como já vimos, aumentam os níveis de pressão arterial. Entretanto, sabe-se hoje que o sedentarismo per si, aumenta a chance de se desenvolver hipertensão arterial. Esse estilo de vida, aumenta em 30 a 40% a possibilidade de desenvolver a doença em relação à população ativa.
Dados recentes divulgados pelo IBGE (instituto Brasileiro de Geografia e estatística) dão conta que 46% da população brasileira é sedentária.

Acredita-se que os maus hábitos e o excesso de peso, além da genética, sejam os responsáveis pelo aumento da incidência de hipertensão arterial em crianças e adolescentes (até 18 anos) de modo que entre 5 a 10 % delas já apresentam esse diagnóstico.

Números e complicações demais amigos, mas foram necessários para ressaltar a importância de se abordar esse assunto e trazer o foco para uma doença com enorme impacto social e facilmente controlada nos dias atuais, até na população que infelizmente permanece indisciplinada.

Podcasts do UOL
Ouça o podcast Maratona, em que especialistas e corredores falam sobre corrida. Os podcasts do UOL estão disponíveis em uol.com.br/podcasts, no Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts e outras plataformas de áudio.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Dante Senra