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Dante Senra


Uso de cortisona faz mal à saúde? Às vezes, os benefícios superam os riscos

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

19/10/2019 04h00

Esse estigma de que a cortisona é prejudicial à saúde tem seus fundamentos alicerçados ao mau uso dessa substância. Neste caso, refiro-me à má indicação, tempo de uso acima do necessário e dose inadequada.

Esses medicamentos são frequentemente utilizados como parte do tratamento de doenças de origem inflamatórias, alérgicas, oncológicas e imunológicas (lúpus, por exemplo). Eles também são utilizados após um transplante de órgãos, ajudando a evitar rejeições do órgão transplantado pelo próprio organismo. Se usados corretamente e sob orientação médica, são muito menos prejudiciais que anti-inflamatórios não hormonais, por exemplo.

O chamado corticoide é um derivado sintético de um hormônio natural chamado cortisol, produzido em nossas glândulas suprarrenais. Assim, os corticoides, chamados também de corticosteroides, e anti-inflamatórios esteroidais ou hormonais, podem ser usados na forma de medicamentos que incluem a cortisona ou cortisol, hidrocortisona e a prednisona, entre outros.

Outro grupo de corticoides, os mineralocorticoides, possuem grande influência no equilíbrio de água e sódio do nosso corpo, pois atua diretamente nos rins, colaborando com o bom funcionamento desses órgãos.

Então, esses medicamentos são vistos pela medicina como potentes aliados. Mas seu uso requer cuidados e a indicação e orientação posológica médica é fundamental.

O lado ruim

Para aqueles que utilizam esses medicamentos por longos períodos, os efeitos colaterais estão invariavelmente presentes (e não são poucos). Entre eles, considere o cansaço, aumento dos níveis de açúcar no sangue (também em curto prazo), diminuição das defesas corporais, agitação, insônia e dor de cabeça.

Mas é o sobrepeso o que mais incomoda os pacientes. O uso prolongado de corticoide causa retenção de líquido em nosso organismo, devido à alteração na eliminação de sódio, o que leva ao inchaço. Além disso, rubor facial e aumento da pressão arterial são efeitos indesejáveis relativamente frequentes.

Infelizmente, tais efeitos não param por aí. Seu uso prolongado também pode produzir a degradação de algumas proteínas no organismo, levando à perda de massa muscular e comprometendo a distribuição da gordura corporal (ficando mais concentrada no rosto, abdômen e no dorso).

No uso crônico ainda, o surgimento de catarata não é incomum, bem como a descalcificação óssea, levando à osteoporose, sobretudo em mulheres pós-menopausa.

É importante ressaltar que os corticoides interferem com o funcionamento da pílula anticoncepcional. Por esse motivo, as mulheres devem ficar alertas e conversar com o ginecologista, caso faça uso dessa substância.

Se está gravida ou pretende engravidar (ou amamentando) e faz uso prolongado ou crônico desse medicamento, também é necessário conversar com o médico, pois o corticoide pode causar danos ao feto em desenvolvimento.

Como se não bastasse, problemas relacionados ao humor e comportamento, como irritação e até psicose, podem ocorrer. Também não é incomum encontrar a pele fina e com hematomas em quem toma essa medicação.

O que fazer, então?

Os efeitos colaterais dos corticoides podem ser desagradáveis e muitas vezes prejudiciais à saúde. Porém, em alguns casos de inflamações e doenças graves, seus benefícios superam em muito seus riscos. Assim, o uso frequente de corticoides deve ser uma decisão conjunta entre você e seu médico, para fazer o que for melhor para a sua saúde como um todo.

É fundamental que o médico acompanhe os pacientes que fazem uso prolongado dessa medicação, visto que há ações que podem ser tomadas para amenizar os efeitos nada desejados. Lembre-se que para a retirada desse medicamento há um protocolo a ser seguido.

Seu uso requer cuidados e a indicação médica é fundamental, assim como seguir as orientações da dose à risca. Não há dúvida que seu médico sabe ponderar os riscos e benefícios dessa medicação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Dante Senra