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Dante Senra


Síndrome metabólica: por que é preciso olhar o sobrepeso com atenção

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

12/10/2019 04h00

Foi-se o tempo que estar alguns quilos acima do peso era apenas um problema estético. Na verdade, quem faz essa observação desconhece que o excesso de peso, concentrado principalmente na região abdominal, é das principais causas da chamada resistência à insulina (lembrando que precisar de mais insulina também leva ao acúmulo de gordura no abdome).

A insulina é um hormônio cuja principal função é a de facilitar a entrada da glicose nas células para que seja aproveitada como fonte de energia. A resistência à insulina, entretanto, é um termo empregado para definir a situação em que esse hormônio não tem sua atividade plena, ou seja, a glicose não é capaz de entrar nas células dos tecidos e se acumula no sangue (obrigando o pâncreas produz mais desse hormônio).

Mas a resistência a insulina oriunda do aumento da gordura abdominal (em homens cintura com mais de 102 cm e nas mulheres maior que 88 cm) é apenas um dos componentes de uma doença conhecida como síndrome metabólica. Os outros distúrbios que a caracterizam são a hipertensão, níveis elevados de triglicerídeos, valores diminuídos de colesterol de alta densidade (HDL-c) e hiperglicemia (glicose elevada - 110mg/dl ou superior).

Segundo critérios internacionais, circunferência abdominal elevada, adicionado de, pelo menos, dois desses distúrbios, compõe a doença.

A chamada síndrome metabólica é definida como um sério problema de saúde, do qual seu portador não se da conta (acredita que se tratam de distúrbios isolados) porque quase nunca tem sintomas, e ao não tratar adequadamente aumenta muito o risco para o desenvolvimento de diabetes, doenças cardiovasculares e AVC (acidente vascular cerebral). O risco aumenta obviamente, se o individuo tem uma vida sedentária ou se possui histórico familiar de diabetes.

Esta situação é frequente?

Sua prevalência já atinge cerca de um quarto da população adulta mundial e é responsável por aumentar em duas vezes o risco de morte e em até cinco vezes o risco para desenvolvimento de diabetes.

Como ressalta a Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica, a associação dessa Síndrome com a doença cardiovascular, aumenta a mortalidade cardiovascular em cerca de 2,5 vezes.

A maioria dos pacientes com síndrome apresentam sobrepeso ou obesidade. Estudos demonstram que 62% dos indivíduos tem aumento da gordura abdominal. Uma combinação de genética e estilo de vida determina se uma pessoa está em risco de desenvolver a síndrome.

Crianças e adolescentes podem ter o problema?

Sim, ela é possível e até frequente nesta faixa etária, dadas as mudanças bruscas na sociedade contemporânea como hábitos alimentares e a chegada da tecnologia entre outros fatores.

A obesidade e a síndrome metabólica estão aumentando na população pediátrica assustadoramente nas ultimas décadas. Nos Estados Unidos, nos últimos 30 anos, observou-se em crianças de 6 a 11 anos um aumento da obesidade de 67% nos meninos e de 42% nas meninas.

Assim, observa-se hoje entre adolescentes americanos, a prevalência da síndrome metabólica é de 4,8%, com variações dependendo de idade, sexo, etnia, extrato social e presença de obesidade. Nos Estados Unidos, a obesidade afeta entre 20 e 27% das crianças e adolescentes.

No Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) o excesso de peso atinge 33,5% das crianças de cinco a nove anos, sendo que 16,6% do total de meninos já são obesos e entre as meninas, a obesidade apareceu em 11,8%.
A região Sudeste se destaca, com 40,3% dos meninos e 38% das meninas com sobrepeso nessa faixa etária.

A prevalência de síndrome metabólica entre adolescentes no Brasil varia entre 17 e 28 % para obesos e entre 4 e 6,1% para adolescentes com sobrepeso.

Vale lembra que segundo o Ministério da Saúde, a criança obesa tem 80% de chance de se tornar um adulto obeso e ai, aquela máxima de "quando ele crescer ele emagrece", não se aplica, porque ele cresce com hábitos ruins.

Como lembram os médicos da Unidade de Endocrinologia Pediátrica do ICr-HC-FMUSP (Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), "a definição da síndrome metabólica na infância e na adolescência é problemática, já que pressão arterial, perfil lipídico e valores antropométricos variam com a idade".

Segundo a Federação Internacional de Diabetes, abaixo de 10 anos, o diagnóstico de síndrome metabólica não deve ser feito, porém a criança deve ser orientada quanto à necessidade de perda de peso e mudança de estilo de vida.

Se nada mudar, é possível que em 5 anos teremos mais crianças obesas do que com peso adequado no mundo, e assim, teremos uma geração com perspectiva de vida menor e com mais doenças que a dos pais.

Como vimos, o sobrepeso e a obesidade são os principais fatores de risco para o desenvolvimento da Síndrome, tanto em crianças como nos adultos e assim, no empenho para combate-los esta o seu tratamento. Tarefa difícil, mas possível em parceria com nutricionistas, psicólogos e médicos. Mais possível em nosso país para alguns poucos, que tem acesso a essa força tarefa multidisciplinar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Dante Senra