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Dante Senra


Você pode ter o colesterol que você (ou seu médico) desejar

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

31/08/2019 04h00Atualizada em 31/08/2019 16h32

O colesterol é um tipo de gordura que antes de ser vilão é considerado fundamental para o bom funcionamento do organismo. Isto porque é um elemento estrutural das membranas celulares em nosso corpo e além disso, é fundamental para que ele produza alguns hormônios, tais como vitamina D, testosterona, estrógeno, cortisol e ácidos biliares que ajudam na digestão das gorduras.

Então, ele só passa a ser maléfico se encontra-se acima dos valores determinados pelo médico para cada indivíduo. Como assim? Quer dizer que cada pessoa tem um valor considerado adequado?

Exatamente, e esse valor é determinado pelos chamados fatores de risco que adquirimos durante a vida (sedentarismo, obesidade, tabagismo, hipertensão arterial, diabetes, colesterol e triglicerídeos) ou nascemos com eles (nossa bagagem genética) para termos Infarto ou AVC (Acidente Vascular Cerebral) que são doenças vasculares ateroscleróticas.

O acumulo desses fatores herdados ou adquiridos (estes, guardam estreita relação com o estilo de vida), nos classifica em diferentes grupos de risco (baixo, intermediário, alto e muito alto risco) cardiovascular.

Para cada um dos grupos mencionados, existem valores alvo do colesterol LDL (chamado de ruim) bem definidos. É fundamental o rigoroso controle desse tipo de colesterol pois, em excesso ele se acumula nas paredes das artérias podendo levar a formação de placas de aterosclerose que dificultam o fluxo sanguíneo para os órgãos, produzindo as chamadas isquemias ou infartos.

Como controlar?

O tratamento adequado não só do colesterol alto, mas dos triglicérides, é muito importante. A cada 40 mg/dL de colesterol LDL reduzido, a mortalidade por infarto se reduz em 20%. Portanto, quanto mais alto o colesterol, mais importante é o tratamento.

Óbvio que a adoção de uma vida saudável (como a realização de uma alimentação balanceada, a prática regular de exercício físico, perda de peso e a redução do uso do cigarro e álcool), contribuem para o aumento do colesterol HDL, diminuição do colesterol LDL e triglicérides e assim, é parte fundamental do tratamento.

Além da redução das gorduras saturadas e gorduras trans (gordura vegetal hidrogenada), a introdução de alguns alimentos como as fibras solúveis (como a betaglucana da aveia e a pectina presente em algumas frutas ou sementes de linhaça) contribuem para a redução da absorção do colesterol. Os fitoesteróis, que estão presentes em alimentos, como frutas, legumes e óleos vegetais, também inibem a produção de colesterol no fígado. Também os chamados ômega 3, 6 e 9, encontrados em diversos alimentos como peixes, azeite, abacate, frutos secos e sementes de linhaça podem contribuir para a redução do colesterol LDL e aumento do colesterol HDL.

Entretanto, muitas vezes isso pode não ser suficiente para atingir-se a meta desejada, sobretudo quando se trata do colesterol LDL muito elevado. Então, nestes casos, ou quando a adesão a alimentação balanceada é pequena, torna-se necessário lançar mão de medicamentos.

Geralmente, os medicamentos de primeira linha são as estatinas. Sua ação se baseia na inibição de uma enzima hepática que controla a produção de colesterol. Apesar de extremamente eficazes, as pesquisas colocam em xeque o uso indiscriminado do remédio pela possibilidade de efeitos adversos. De acordo com um estudo publicado em julho de 2017 na revista científica Annals of Internal Medicine, entre 10 a 20% das pessoas que tomam estatinas relatam sofrer um efeito colateral, principalmente distúrbios musculares. Nos Estados Unidos, estima-se que até 10% dos americanos que fazem uso de estatinas apresentam efeitos secundários de ordem muscular, equivalente a 3 e 4 milhões de pessoas.

Para esses pacientes, existem sim alternativas como medicamentos que impedem a reabsorção intestinal do colesterol, dentre outros. Assim, cabe ao seu médico avaliar os prós e os contras e resolver quais pacientes devem tomar o remédio e qual tipo.
Para pacientes portadores de triglicérides elevados a redução dos carboidratos da dieta pode ser uma medida eficaz para boa parte deles.

Controlar as condições que podem aumentar os níveis de triglicerídeos, tais como obesidade, diabetes e hipotireoidismo, também faz parte desse tratamento. Mas se os níveis de triglicerídeos altos persistem, apesar das mudanças de dieta, também pode ser necessário uso de medicação.

Assim como para o tratamento do colesterol, também existe um arsenal medicamentoso amplo para tratamento dos triglicérides elevados.

Esta afirmação justifica o titulo desta coluna, visto que dado o grau elevado de complicações cardiovasculares associados a esses distúrbios metabólicos e a possibilidade de muitas mudanças de medicamentos em caso de não adequação, não é mais aceitável a convivência pacifica com os níveis fora de controle.

Atente-se aos valores

Recentemente, os cardiologistas brasileiros resolveram rever seus valores de referência, dado o inequívoco benefício na redução de eventos por doença aterosclerótica cardiovascular com valores mais baixos.

O novo valor se refere principalmente ao colesterol LDL. Assim, na nova Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção de Aterosclerose, os pacientes com risco cardíaco muito alto devem ter o índice abaixo de 50 miligramas por decilitro de sangue —antes, para estes pacientes o desejado era de 70 mg/dL.

Como avaliar?

A visão imposta pela relação entre os fatores de risco e os índices almejados torna os valores de referência dos exames frágeis, na ausência de uma avaliação mais consistente feita pelo médico. Muitas vezes, pacientes erroneamente dispensam a consulta médica quando seus resultados estão supostamente dentro dos limites de referência dos laboratórios.

Outra avaliação distorcida feita por muitas pessoas é referente ao HDL. Ele é tido como o bom colesterol, pois retira as placas das artérias e o transporta até o fígado para ser excretado. Isto é um fato. Entretanto, mesmo em valores mais elevados, ele terá pouca valia se o colesterol ruim (LDL-C) também for elevado, visto que temos muito menos HDL do que LDL.

Portanto, uma segunda opção se pudéssemos escolher, seriam os dois (LDL e HDL) baixos. O colesterol HDL, mesmo alto, não elimina completamente o colesterol LDL.

E o colesterol total?

Como podemos perceber, falamos muito pouco sobre o colesterol total.

Ele nada mais é do que a soma dos níveis sanguíneos de HDL, LDL, VLDL Como existem vários tipos de colesterol, com funções distintas a avaliação conjunta deles hoje se torna inadequada e pouco eficiente.

E os triglicérides?

Os triglicerídeos são outro tipo de gordura que tem como principal função fornecer energia para nosso corpo. Quando não são utilizados para esse fim, passam a ser armazenados no tecido adiposo, como gordura.

Ao contrario do colesterol, a principal fonte de triglicerídeos é a alimentação (quase 70%) e embora possam estar presente em alimentos gordurosos —de origem animal, como carnes, leite integral e queijos amarelos — advém em sua maioria dos carboidratos em excesso, principalmente os simples como açúcar, refrigerantes, massas branca, arroz branco, batata e alimentos com farinha branca, como pães. É importante lembrar que frutas e bebidas alcoólicas também são ricas em carboidratos e as pessoas com triglicérides elevados devem consumi-los com moderação.

Como sua maior fonte são os carboidratos, também fica claro que a adequação da alimentação quase sempre conduz seus valores para a normalidade o que é mais difícil de acontecer com o colesterol que com maior frequência precisa de controle medicamentoso.

Não se pode deixar de mencionar que existe também a hipertrigliceridemia familiar que é causada por um defeito genético. Esse distúrbio ocorre em cerca de 1 em cada 500 indivíduos nos Estados Unidos.

Errata: o texto foi atualizado
A gordura trans é a gordura vegetal hidrogenada e não hidrolisada, como havia sido informado no texto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL