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Dante Senra


Esteatose hepática: por que a gordura no fígado preocupa?

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

03/08/2019 04h00

Vista no passado com pouca importância pela maioria das pessoas e até pelos médicos, a esteatose hepática, também conhecida como "gordura no fígado", hoje é considerada um sério problema de saúde. A sociedade Brasileira de Hepatologia estima que cerca de 20% da população apresente essa doença.

Está incidência aumenta muito na população de obesos (pode chegar a 80%) e pode acometer 55% dos diabéticos. Assim, é considerada a doença mais frequente do fígado na atualidade.

Esta visão de pouca preocupação se modificou pelo conhecimento atual de que se não tratada, a infiltração de gordura pode evoluir, a médio e longo prazo, para uma inflamação chamada de hepatite gordurosa e posteriormente para cirrose hepática e até para câncer no fígado.

Esse acúmulo de gordura no interior das células do fígado é um mecanismo natural, utilizado para estocar energia, mas quando este índice chega a 5% ou mais o quadro deve ser avaliado com cuidado e merece uma abordagem terapêutica.

Na última década, o "fígado gorduroso" tem sido alvo de grande interesse e investigação científica. Coincidindo com a epidemia de obesidade e o aumento da disponibilidade do ultrassom, o diagnóstico tem se tornado muito frequente e como disse, tendia a ser subestimado.

Quem costuma ter esteatose hepática?

Apesar da obesidade ser a maior causa, pessoas magras também podem ter um aumento de gordura no fígado. Nestes casos o sedentarismo, o consumo excessivo de álcool, colesterol e triglicerídeos elevados sem tratamento ou o diabetes costumam ser os causadores.

A incidência nas mulheres é maior tendo em vista que o hormônio estrógeno, produzido naturalmente pelo corpo feminino, propicia o acúmulo dessa gordura.

Os indivíduos hipertensos, pessoas que apresentaram ganho ou até perda de peso muito rápida (pós cirurgias bariátricas, por exemplo) também são mais suscetíveis a desenvolver a esteatose.

Também o uso crônico de certos medicamentos como cortisona, reposição hormonal com estrógenos e drogas antirretrovirais podem produzir esse quadro.

Afrodescendentes têm menor chances de desenvolver o quadro, mas os orientais parecem ser mais propensos.

Como se manifesta e como se faz esse diagnóstico?

A grande maioria dos pacientes não apresentam sintomas ou sinais nas fases iniciais.

Nos estágios intermediários da doença, entretanto, as pessoas podem se queixar de dores no abdômen, cansaço e fraqueza, barriga inchada e perda de apetite. Os sintomas mais exuberantes aparecem apenas quando o fígado já mostra sinais de alteração de suas funções. Nesta situação o paciente pode apresentar hemorragias, acúmulo de líquidos na barriga, tremores e confusão mental.

A doença é inicialmente encontrada porque o paciente realizou uma ultrassonografia de abdômen como parte de seus exames clínicos de rotina, ou porque na sua avaliação bioquímica (exames de sangue de rotina), encontrou-se as provas que medem a função do fígado alteradas. O diagnóstico da esteatose é incidental na maioria das vezes.

Obvio que como o ideal é ter o diagnóstico precoce da doença, um clínico/gastroenterologista experiente irá direcionar esses exames para os pacientes que apresentes fatores predisponentes (obesidade, diabetes, alcoolismo, etc.).

A partir dai, a tomografia e a ressonância magnética podem ser úteis para avaliar possíveis alterações nesse órgão, mas há casos em que para a confirmação do diagnóstico é necessário a biopsia.

Ainda existe um método semelhante a ultrassonografia que mede a elasticidade do tecido hepático e a quantidade de gordura nele acumulada, chamado elastografia transitória.

Como tratar a esteatose hepática?

Por não existir um tratamento específico para essa doença, o ideal é que se identifique as fases iniciais desse depósito de gordura no fígado para que medidas corretivas no estilo de vida sejam adotadas.

Aliás, este é o objetivo desta coluna. Dar a devida importância para este distúrbio, já que a tendência é desvalorizá-lo ou ignorá-lo no momento em que os sintomas não são sentidos.

Na grande maioria dos casos há regressão ou pelo menos estabilização do quadro quando se interrompe ou se controla os fatores causadores, como excesso de peso, álcool ou diabetes descontrolado. Mas lembre-se, dietas radicais, que provocam emagrecimento muito rápido, podem piorar o quadro.

Alguns trabalhos têm sugerido benefícios do ômega 3 nos casos de esteatose, mas não de suas complicações.

Nas fases mais avançadas da doença já com esteato-hepatite (fígado inflamado) e sinais de fibrose hepática, a vitamina E tem sido indicada com bons resultados.

Se não for tratada, entretanto, como já foi mencionado, o tecido do fígado pode ser substituído por fibrose, ou seja, evoluir para a cirrose, e pode ser necessário um transplante de fígado. Além disso, a cirrose é um fator de risco comum para o câncer de fígado.

Então, embora pareça "chover no molhado", a mudança de hábitos ainda é a melhor maneira de se abordar esse quadro. Dadas as complicações e a frequência desse distúrbio, se você se encaixa nesse perfil de risco, peça a seu médico para que ele solicite um ultrassom de seu abdômen, porque você tem motivos e argumentos bastante consistentes para tratá-lo.

Dante Senra