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Dante Senra


UTI humanizada: o que está mudando no atendimento da terapia intensiva

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

29/06/2019 04h00

Carl G. Jung, foi um psiquiatra e psicoterapeuta suíço que fundou a psicologia analítica. É dele a frase "Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana". Esse pensamento deveria nortear as relações humanas, sobretudo de quem se propõe a cuidar.

O aprimoramento dessas relações sempre foi questão central em qualquer área de inter-relações pessoais. Unir comportamento ético, conhecimento técnico e compaixão parece ser o objetivo quando se fala em humanização.

Nas UTI (unidades de terapia intensiva), setores tão importantes dos hospitais, esse tema toma enorme relevância, visto que os pacientes se encontram em maior situação de fragilidade, uma vez que ali estão por se acreditar que sua saúde careça de maiores cuidados.

Já agredidos pela situação, os pacientes se sentem desamparados, se não puderem contar com a proximidade dos profissionais de saúde e de seus familiares, com esclarecimentos sinceros e honestos sobre sua situação.

Esta percepção de fragilidade e abandono tinha seus fundamentos alicerçados em um passado não muito remoto de um comportamento de grande parte dos profissionais de saúde que, ligados no automático, tinham suas ações baseadas na realização de tarefas e ignoravam os aspectos emocionais dos pacientes, violando seus direitos e sua dignidade.

A fragilidade emocional instalada pela doença e medo da morte era agravada por um ambiente sem janelas. Na visão sob a ótica distorcida da arrogância, salvam-se vidas, então tudo está justificado. Não à toa, essas unidades foram e ainda são consideradas por grande parte da sociedade como locais de morte e sofrimento.

Outro dificultador nessa relação dentro da terapia intensiva por mais estranho que possa parecer foi o incremento da tecnologia. Com esse assustador, embora necessário aparato tecnológico eram priorizadas variáveis biológicas, esquecendo-se de aspectos psicológicos, religiosas e sociais. Óbvio que os pacientes precisam de aparelhos, tubos, monitores, mas também necessitam de uma medicina de atenção e carinho.

O sentimento ao entrar nestas unidades era como se houvesse na entrada, a mesma inscrição que Dante e Virgílio, no livro a Divina Comédia, encontraram na porta do inferno: "lasciate ogni speranza, voi ch'entrate", ou seja, deixe suas esperanças do lado de fora, você que entra no inferno.

O que muda?

A terapia intensiva é um local de vida. Os pacientes que estão irremediavelmente morrendo devem permanecer com seus familiares. Essa percepção precisa ser trabalhada na sociedade, já que mudaram, ou pelo menos estão em processo de mudança.
Tamanha é a relevância do tema, que em 2003 o Ministério da Saúde obrigou-se a criar um programa com o objetivo de fortalecer o vínculo entre médicos e pacientes. O PNH (Programa Nacional de Humanização) tenta mudar o conceito baseada apenas no voluntarismo, assistencialismo e paternalismo, e que tem com base na figura ideal do "bom humano".

Para os formuladores do PNH, humanização não pode se restringir a "ações humanitárias" e não é realizada por seres humanos imbuídos de uma "bondade supra-humana" na feitura de "serviços ideais".

Foi preciso uma retomada deste ambiente, não somente alterando-se a estrutura física e comunicação com o exterior através de janelas, relógios, televisores, mas resolvendo o dilema do binômio segurança e privacidade.

Percebeu-se a necessidade e importância de um treinamento constante da equipe. Mas treinar humanidade? Treinar seres humanos para serem humanos? Isso mesmo. Estranho, mas humanizar é uma habilidade e requer treinamento constante. É preciso recuperar a preocupação com a necessidade, ou seja, em última análise é preciso colocar-se no lugar.

Treinar todos os dias entrar no quarto e dizer: "Meu nome é ..., minha função aqui é..., e vou cuidar de você nas próximas horas e se precisar de mim eu estarei aqui". Isso é desligar o automatismo onde as ações são baseadas exclusivamente na realização de tarefas. Infelizmente humanizar não pode ser um conjunto de normas preestabelecidas e aplicadas indiscriminadamente.

Portanto, não é possível criar um discurso padrão, fingir um sorriso ou um comportamento. É preciso atitude, desenvolver vínculos solidários, uma postura, um sentimento. É compreender os medos, as incertezas e angústias. É ainda valorizar todos os elementos implicados na assistência, ou em última análise é desenvolver o respeito afetivo ao outro.

Estar internado em uma UTI nos remete inexoravelmente ao pensamento de morte, justificando o medo e a insegurança nessas unidades.

É necessário lembrar aos profissionais de saúde que estas unidades serão moradas temporárias ou finais para quase todos nós? Falta esta percepção? Falta-nos mais reflexões sobre o tema?

Essas perguntas, respondidas ou não devem, permear nosso ambiente de trabalho e nossa mente, com o intuito de melhorar nosso posicionamento, valores e atitudes, quer pela motivação principal que é o respeito e a compaixão pelo próximo, quer porque o cuidado humanizado sempre encontrou e encontrará respaldo na sociedade, visto que é justo.

Importância dos familiares no processo

Injustificadamente, a luta pela sobrevivência nos tornou mais céticos e perigosamente velozes em nossas abordagens com pacientes e familiares. Assim esquecemos no dia a dia que médicos ou não, enfermeiros ou não, somos todos iguais e vamos adoecer nessa jornada e morrer necessitando de ajuda médica ou simplesmente fraterna e humana, se é que não se trata da mesma coisa.

Entender a dimensão do ser humano não apenas como um ser biológico, mas como um ser psicossocial que tem emoções, sentimentos e pudores é parte fundamental desse processo. Só aí se passa a valorizar e dar importância ao uso de próteses e órteses (o que na maioria das vezes é possível, ao invés de criar uma regra única), ao sono do paciente (que invariavelmente é desrespeitado) e principalmente à presença da família. Entender que apesar de adoecer junto com o paciente, a família é parte fundamental na sua recuperação.

Reuniões frequentes com familiares --em vez de boletins genéricos que nada informam e mais estresse e angústia trazem -- são fundamentais. Além de acalmá-los, a informação correta e compartilhada nos torna aliados poderosos contra o único inimigo que se apresenta, que é a enfermidade. Esse contato, entretanto, não deve ser formal, burocrático e despersonalizado.

Embora o encontro com familiares nunca seja neutro, pois sempre carregamos conosco valores, atitudes, preconceitos, enfim, nosso sistema de significados culturais, ele é sempre bem-vindo. Isso porque além de terem o direito à correta informação, compartilhar sentimentos e emoções é parte fundamental do processo do tratamento.

Obviamente não se tem a pretensão aqui de estabelecer um modelo de comportamento para os profissionais de saúde em terapia intensiva, mas o que se propõe são reflexões não do ponto de vista acadêmico, mas humanitário.

Fato indiscutível é que as relações humanas estão doentes, a medicina está combalida, não por falta de amor ou tempo, pois estes são sintomas e não causas e, por mais analgésicos que se tome, não encontra alivio de seus magníficos dons e acabará se autodestruindo se não for objeto de uma revisão postural.

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