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Dante Senra


Memória: entenda o que pode enfraquecê-la e como cuidar melhor dela

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

08/06/2019 04h00

Talvez já estivesse louco quando Nietzsche afirmou que ter uma péssima memória poderia ser uma vantagem pois poderia divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez. Provavelmente nossa principal função cognitiva seja a memória, pois inúmeras doenças são classificadas como demências quando a perdemos.

As chamadas funções cognitivas são as habilidades do nosso cérebro que nos interagem com o meio tais como a memória, percepção, linguagem e funções executivas (raciocínio, planejamento e monitoramento de tarefas). A atenção e a habilidade de realizar movimentos complexos chamada de praxia também compõe a cognição. Abrangem estas atividades cognitivas as tomadas de decisões, a lógica, o raciocínio, as estratégias e as soluções de problemas.

A interação entre estes sistemas é fundamental para que esse processo se realize e pode-se dizer que estas funções são interdependentes.

Assim, nossa memória depende em grande parte da atenção e esta, da importância que damos ao fato a ser arquivado em nossa mente. Deste modo, não acreditar que aquela informação irá ter utilidade futura fará com que nosso cérebro a descarte. A isso chamamos de desuso da informação.

Não podemos guardar todas as informações recebidas durante nossa vida. Logo, precisamos priorizar as informações através da atenção e assim, paradoxalmente, esquecer torna-se fundamental para se ter uma boa memória.

O que é a memória?

A memória é um dos mais importantes processos funcionais do nosso cérebro, pois além de ser responsável pela nossa identidade pessoal é também responsável pelo nosso aprendizado. Ou seja, quem fomos, somos e seremos e assim, aprendermos com nossos erros e acertos. De modo simplista, chamamos de memória a capacidade que temos de adquirir, armazenar e evocar informações.

Apesar dos inúmeros avanços feitos pela ciência pouco se sabe ainda à maneira pela qual as memórias são armazenadas e a maneira como potenciais elétricos e fenômenos bioquímicos estão ligados às representações mentais que fazemos. Ainda nos parece distante podermos fundamentar tal conceito. O que se observa entretanto é que a informação (quando repetida várias vezes), de alguma maneira ainda desconhecida, produz fatores que atuam no DNA do neurônio (célula do cérebro), fazendo com que este comande a síntese de novas proteínas fundamentais para estas células. Assim, a adequada alimentação parece fundamental para o bom funcionamento da memória. Indiscutivelmente, como afirmam os médicos Mello e Rubin (Universidade Federal de Santa Maria, RS) a formação da memória depende de eventos relacionados à síntese protéica.

Desse modo, além da atenção, o estado nutricional é fundamental para o bom desempenho da memória.

Tipos de memória

Muitas são as classificações da memória mas didaticamente podem ser divididas em dois tipos, responsáveis por ações específicas em nosso cotidiano. São elas:

  • Memória de procedimentos (ou não declarativa): que engloba hábitos, como dirigir ou escovar os dentes.
  • Memória declarativa (ou explícita): que são as lembranças e pode ser dividida em memórias de curto e longo prazo.

Mas qual a importância pratica disso para nós?

Cada tipo de memória é armazenado em um local diferente em nosso cérebro. O hipocampo está mais envolvido com as memórias declarativas, ou seja, aquelas que você vai usar para relembrar fatos e informações. Esta região está envolvida também na formação de novas memórias, mas as memórias antigas podem ser armazenadas em outras áreas como o córtex frontal. No chamado corpo estriado (outra região do cérebro) fica a memória de habilidades e hábitos.

Sabendo disso, alguns neurocientistas, como o professor Leandro Piccini (que produz conteúdos sobre aprendizagem e desenvolvimento pessoal com base em pesquisas da neurociência) estimulam a envolver vários sentidos em seus estudos e técnicas de memorização. Isso possibilita um melhor armazenamento de uma informação. Assim afirma: "todas as vezes que você estuda você está trabalhando com o hipocampo, quando pratica o que aprende envolve o corpo estriado, o neocortex e o cerebelo. Quando estuda com emoção você trabalha com a amígdala (outra área do cérebro)".

Inimigos da nossa memória

Além do que já vimos como a falta de atenção, interesse e concentração, alimentação inadequada (dietas intensas e duradouras), a nossa memória tem outros potentes inimigos.

Durante uma fase do sono chamado de ondas lentas, intensos impulsos elétricos reverberam a memória do hipocampo para outra região do cérebro, chamada de córtex cerebral. Em outra fase do sono chamada REM (sigla do inglês, e significa movimento rápido dos olhos), os genes ativados acionam proteínas que permitirão a memorização de uma informação por um longo período. Ou seja, neste período do sono a memória é armazenada.

Assim, a falta de quantidade ou qualidade do sono é outro grande inimigo de nossa memória. Eleito o inimigo número 1 da vida moderna, o estresse não poderia ficar de fora desta lista.

Um estudo publicado em novembro de 2018 na revista cientifica Neurology demonstrou que altos níveis de cortisol apresentam menor volume cerebral e problemas de funcionamento cognitivo, em comparação com pessoas que tinham menores níveis desse hormônio. O cortisol é conhecido como o hormônio do estresse e seus níveis elevados estão associados a problemas para dormir e problemas de memória e concentração.

Além disso, o uso abusivo de drogas psicoativas, como o álcool, medicamentos para dor e drogas ilegais, além dos prejuízos sociais estão indiscutivelmente associadas a distúrbios de ordem cognitiva, dentre eles a memória.

Óbvio que aqui, nosso objetivo não é abordar as doenças degenerativas estruturais que podem aparecer com a idade avançada como o Parkinson e Alzheimer.

Devemos aprender durante a nossa vida a não agredir nosso cérebro para evitar ou amenizar o declínio de nossas funções cognitivas, pois como dizia Shakespeare "Lembrar é fácil para quem tem memória, esquecer é difícil para quem tem coração".

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL