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Dante Senra


4 fatores da vida cotidiana que estão nos adoecendo

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Imagem: Getty Images
Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

01/06/2019 04h00

Óbvio que a vida é finita e dizem por ai que dessa vida ninguém saiu vivo.

Mas, a despeito de todo avanço da medicina com exames diagnósticos e cirurgias sofisticados, vacinas e saneamento básico, responsáveis por um inegável e bem-vindo aumento na longevidade conquistado nos últimos anos, poderíamos ir muito mais longe e com qualidade melhor. Isso se nós fizéssemos escolhas de vida mais conscientes.

Assim, claramente esta conquista da longevidade não vem sendo fruto do estilo de vida agressivo que temos adotado, na maioria das vezes por falta de opções. Trabalho em demasia, descanso pouco, pouca atividade física, alimentos com agrotóxicos, fumo e estresse continuo são fatores incorporados na nossa rotina e sem duvida agressores potentes da nossa saúde física e mental.

Óbvio que existem doenças genéticas, autoimunes, degenerativas e até infecciosas, cujo nosso estilo de vida teria pouca ou nenhuma influência em desencadear. Mas mesmo nestas condições, já há no meio científico quem acredite que também podem ter pelo menos seu curso modificado pelos nossos hábitos. Conheça-os a seguir:

1. Estresse continuado

Não é possível negar os efeitos deletérios do estresse na nossa saúde. Nessa situação são liberados dois hormônios: a adrenalina e o cortisol. Eles tem como efeitos fisiológicos, aumento da frequência cardíaca, pressão arterial e da glicose no sangue para reagirmos a situações de perigo. O ponto está que muitas pessoas não conseguem ou demoram dias para desligar a "reação de estresse" e ficam expostas aos efeitos desses hormônios por muito tempo, as vezes por dias.

Quando finalmente conseguem, logo vem outra situação de nervoso e ansiedade extrema e ai, começa tudo de novo.
Esses efeitos indesejáveis da longa exposição a esses hormônios podem incluir o aumento de peso, aumento da pressão arterial, arritmias cardíacas, perda de massa óssea e muscular, alterações de humor, depressão, cansaço extremo, insônia, perdas de memória, dificuldade de concentração e aprendizagem, diminuição da libido, menstruação irregular, entre outros.

Como se isso fosse pouco, uma equipe da Universidade de Carnegie Mellon, em Pittsburgh, identificou que o estresse altera a capacidade do hormônio cortisol de regular a resposta inflamatória. Isso acontece porque o estresse prolongado diminui a sensibilidade do tecido ao hormônio. Ou seja, as células do sistema imunológico se tornam insensíveis ao efeito regulador do cortisol. A inflamação fora de controle é apontada como responsável pelo surgimento e o desenvolvimento de muitas doenças.

2. Sobrepeso

O sobrepeso e a obesidade são evitáveis, mas não é algo tão fácil. Algumas pessoas, talvez a maioria, lutam durante toda a vida. O Ministério da Saúde publicou recentemente que nos últimos 10 anos a prevalência da obesidade no Brasil aumentou em 60%, passando de 11,8% em 2006 para 18,9% em 2016. O excesso de peso também subiu de 42,6% para 53,8% no período. Ou seja, a cada cinco brasileiros, um está obeso e mais da metade da população está acima do peso.

A mesma pesquisa também demonstrou que apenas um entre três adultos consome frutas e hortaliças em cinco dias da semana. Esse quadro mostra a transição alimentar no Brasil, que antes era a desnutrição e agora está entre os países que apresentam altas prevalências de obesidade.

O sobrepeso ou a obesidade estão longe de serem problemas exclusivamente estéticos.

Ainda, de acordo com os dados do Ministério, das seis doenças que mais matam no País --por ordem, acidente vascular cerebral (AVC), infarto do miocárdio, infecções, diabetes, violência e hipertensão --, quatro estão relacionadas à obesidade. A obesidade também está ligada a diversos tipos de câncer, doenças cardiovasculares, problemas ortopédicos e varizes de membros inferiores.

Por outro lado, o emagrecimento, além de reduzir os níveis pressóricos e a glicose no sangue, ocorre um aumento da capacidade para realizar exercícios físicos e melhora nossos níveis de gorduras no sangue entre outros benefícios.

Portanto, a prevenção e o combate à obesidade constituem armas poderosas contra inúmeras doenças que podem piorar e encurtar nossa vida.

3. Tabagismo

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) "o tabaco mata mais de 7 milhões de pessoas todos os anos, das quais quase 900 mil são não fumantes que morrem por inalar fumaça emitida por fumantes". Há trabalhos mostrando que respirar a fumaça alheia aumenta em duas vezes o risco para o câncer e 30% das doenças cardiovasculares. Ou seja, conviver com fumante é um fator de risco para sua saúde comprovadamente. Já o fumante ativo tem sua incidência aumentada em 80% de doenças cardiovasculares.

No Brasil, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), 428 pessoas morrem por dia por causa do tabagismo. Conforme dados do Inca, 12,6% de todas as mortes registradas no país são atribuíveis ao tabaco. Ao todo, 156.216 mortes poderiam ser evitadas todos os anos caso o uso do tabaco fosse eliminado.

Os números mostram ainda que, no ano passado, 73.500 pessoas foram diagnosticadas com câncer provocado pelo tabagismo, de acordo com a Agência Brasil.

Importante salientar que após um ano de cessação do tabagismo o risco de complicações cardiovasculares (infarto do miocárdio e AVC) reduz pela metade, se comparado aqueles que continuam fumando.

4. Sedentarismo

Mas, infelizmente, parece que apesar de fundamentais para saúde, não fumar, evitar na medida do possível o estresse (apesar do celular) e não engordar são medidas que não satisfazem plenamente as solicitações médicas para que tenhamos uma boa saúde. É preciso ainda não ser sedentário, um hábito que afeta de 50% a 80% da população mundial.

No Brasil, segundo trabalho publicado na Revista Panamericana de Saúde Publica apenas 10,8% dos homens e 5,2% das mulheres realizam atividade física três ou mais vezes por semana por pelo menos 30 minutos. A OMS recomenda 150 minutos semanais de atividade física leve ou moderada (cerca de 20 minutos por dia ou 30 minutos 5 vezes por semana) ou, pelo menos, 75 minutos de exercício de maior intensidade por semana (cerca de 10 minutos por dia)

Indiscutivelmente a atividade física está associada a benefícios positivos para a saúde como o controle de vários dos chamados fatores de risco para o coração como o sobrepeso, a hipertensão arterial e diabetes, além de promover o aumento da massa muscular, melhorar o equilíbrio e a marcha, sobretudo no idosos.

Existem ainda fortes evidências de que a atividade física regular proporciona um sistema imunológico mais forte, alem de melhorar nosso perfil lipídico (diminui o colesterol ruim o, LDL e triglicerídeos. e eleva o colesterol bom, o HDL), aumentando assim nossa expectativa de vida ativa.

Lógico que uma vida saudável e longeva não se conquista com atitudes isoladas. Ela é a somatória do estilo de vida que engloba a forma como as pessoas vivem, as escolhas que fazem, das suas tendências genéticas, do seu desenvolvimento emocional e das suas relações sociais e praticas sociáveis. O objetivo aqui é propor reflexões sobre nossas rotinas.

Algumas empresas já perceberam isso e realizam possibilidades de melhorias na qualidade de vida de seus funcionários. Assim, como diz o professor Robert Karch (Universidade de Maryland), "Nem todas as empresas precisam investir na qualidade de vida e promoção de saúde. Só aquelas que querem sobreviver e ser competitivas no século XXI".

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Dante Senra