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Dante Senra


Medicalização da vida: remédios são cada vez mais usados sem necessidade

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

25/05/2019 04h00

Mundo estranho esse de hoje. Foi-se o tempo que água com açúcar acalmava os nervos, ou tomávamos um chá de erva-cidreira ou camomila para dormir mais relaxado. Alguém logo aparece com um lexotan, um comprimido de melatonina ou de dormonid.

Atualmente, temos tomado medicamentos que não precisamos para tratar doenças que não temos. A esse processo damos o nome de medicalização. Profissionais de saúde, com uso de medicamentos, transformam situações normais da existência humana em objetos de abordagem.

Assim, toma-se Viagra para melhorar a potencia em indivíduos não impotentes, anabolizantes e suplementos em busca do corpo imaginário, vitaminas sem exames, psicotrópicos para lidar com os problemas habituais da vida, interrompe-se ciclos menstruais sem indicação médica e isto sem contar os antidepressivos sem diagnóstico, muitas vezes para supostamente ajudar a lidar com luto, como se isso fosse possível. Se você chorar na frente de um médico, tem grande chance de sair da consulta com uma destas receitas.

Nesse caso da depressão, muitas pessoas que usam esses medicamentos não precisam deles. E, por outro lado, muitas pessoas severamente doentes não recebem o tratamento adequado. Ainda os medicamentos para reduzir o apetite (ditos para emagrecer), insônia e "anti-idade" estão entre os mais prescritos também.

Assim, a medicina atual parece se propor a resolver todos os conflitos naturais da existência humana, tirando o sentir de cena. Isto porque, em nome da qualidade de vida, o conhecimento médico invadiu os processos naturais e promete ser o elixir para sua recusa da dor de existir. Compõe esse cenário a procura por um caminho mais fácil para nossa trajetória aliada a falta de robustez dos diagnósticos.

A preocupação se justifica porque situações como a tristeza, sobrepeso, insônia e até a dificuldade de aprendizado passaram a ser avaliados sob a métrica da subjetividade e são facilmente transformadas em doenças sendo rapidamente medicadas, ignorando-se eventuais efeitos colaterais destes medicamentos, dentre eles arritmias cardíacas, agitação e até a dependência.

Por falar em aprendizado, é fato que existam crianças com transtorno de déficit de atenção, hiperatividade (TDAH) e dislexia. Mas também é inegável que diante de uma suposta dificuldade de aprendizado cada vez mais rapidamente professores levantam a possibilidade desses problemas e sem antes refletirem sobre outros aspectos relacionados à própria prática pedagógica e à sociedade e aspectos familiares, solicitam aos pais consultas com psicólogos e psiquiatras que muitas vezes passam a medicá-los. Esse comportamento é chamado de medicalização da educação.

Obvio está, que existem casos de depressão, pânico, insônia, impotência e TDAH que precisam e merecem tratamento medicamentoso. Fique claro que aqui me refiro a sentimentos e conflitos naturais da vida, tristeza justificada e aceita como o luto e ao uso indiscriminado e em larga escala de remédios. Ao trocar o carinho e a atenção por medicamentos tenta-se promover saúde e qualidade de vida ignorando-se sentimentos.

A quem isso pode interessar?

A falta de tempo, o desamor, o mundo em desconstrução, falta de valores sólidos aliados ao poder econômico e interesses das indústrias farmacêuticas compõem esse cenário.

O poder do mercado publicitário é uma realidade também indiscutível. As companhias farmacêuticas conseguiram, nos Estados Unidos de 1997, o direito de fazer propagandas focando o consumidor final. As drogas psicotrópicas estão entre as mais anunciadas, porque são caras e lucrativas para as empresas. Isso conduziu ao aumento drástico dos índices de transtorno bipolar e de déficit de atenção. O aumento desses diagnósticos aconteceu porque a indústria farmacêutica investiu pesadamente na promoção dessas doenças.

Essa indústria contrata agências de publicidade qualificadas para promover a criação de novos distúrbios médicos, disfunções e necessidades. Qualquer figura pública pode ser transformada pela mídia num expert em medicamentos, como jogadores de futebol fazendo propaganda de vitaminas, fazendo-nos acreditar em seus efeitos milagrosos e em possíveis necessidades, explorando nossa fragilidade e nossa fé na ciência e inovação. Temos que ser firmes. Não, os laboratórios farmacêuticos não podem influenciar os médicos gerando demandas nos pacientes.

Assim, como disse, os medicamentos são necessários e muito úteis nas patologias físicas e nos transtornos mentais incapacitantes e diagnosticados medicamente, mas não ajudam nos problemas do dia a dia.

Felizmente, está crescendo uma corrente crítica em relação a esse comportamento, até porque ao acrescer valor no que é apenas um desconforto da existência, diminuímos a dignidade de quem verdadeiramente esta doente e em sofrimento.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL