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Dante Senra


Síndrome do pânico é uma das causas de dor no peito; saiba mais

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Dante Senra

Doutor em Emergências Clinicas pela FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e médico especialista em cardiologia, clínica médica e terapia intensiva. Também é autor do livro Terapia Intensiva Fundamentos e Prática, ganhador do Prêmio Jabuti.

Colunista do UOL

11/05/2019 04h00

Quem nunca super dimensionou seus problemas a noite, perdeu o sono e pela manha eles perderam a importância? Obvio que o tamanho que se dá a eles e o modo de confrontá-los é uma característica de personalidade e portanto variável de cada pessoa.

O problema é quando com ou sem agressão emocional recente (normalmente sem), isso se traduz em sintomas físicos e/ou emocionais, causando um sofrimento psíquico e angústia tão intensos que mesmo depois o medo de voltar a ter essa sensação prevalece sempre.

O chamado transtorno do pânico é um tipo de transtorno de ansiedade no qual ocorrem crises inesperadas e recorrentes de desespero e medo intenso de que algo ruim aconteça, mesmo que não haja sinal algum de perigo iminente.

As pessoas acometidas por este mal seguem um padrão longo de visitas às emergências e consultórios médicos antes do diagnóstico, à procura de uma causa orgânica para seus sintomas. Como predominam sintomas como o suor frio, as palpitações, as dores no peito e sensação de morte eminente que são muito relacionados com um ataque cardíaco, o cardiologista é o médico mais procurado. Estes sintomas geralmente alcançam seu ponto máximo em até 10 minutos e desaparecem em seguida e, por essa razão, o médico pouco consegue detectar nos serviços de emergência.

Além do indescritível sofrimento físico, há também um prejuízo funcional e financeiro vivenciado pelos pacientes com transtorno do pânico, pois convivem com grandes taxas de absenteísmo e menor produtividade no trabalho, maiores taxas de utilização dos serviços de saúde, testes laboratoriais e muitas vezes a de ideação de suicídio margeia suas mentes, embora essa relação não esteja estabelecida.

Tantos exames e laudos médicos comprovando a normalidade das funções orgânicas e fisiológicas, entretanto, estão longe de abrandar tamanha aflição e as crises continuam recorrentes e fora de controle. Se não houver tratamento podem perdurar por anos.

Como se não bastasse tamanho desconforto, que já impõe um sofrimento titânico, ainda é preciso lidar com o preconceito dos familiares e amigos incapazes de compreender tantos sintomas, por tanto tempo e sem justificativa orgânica que os suporte.

Mas, porque isso?

Há de se pensar: "são tantos nossos problemas reais nessa vida e ainda nossa mente criando novos". Mas a culpa não é totalmente dela. Vários estudos têm associado experiências traumáticas na infância (de novo a infância difícil), bem como a qualidade da relação com os pais, ao desenvolvimento do transtorno do pânico na idade adulta.

Eventos estressantes na vida adulta também estão relacionados ao desenvolvimento de transtornos de ansiedade e ao transtorno do pânico. Assim, cerca de 80% dos pacientes relataram estressores de vida nos 12 meses que precederam o início do quadro. Também a transição de papéis com aumento de responsabilidade e carga de trabalho (mudanças radicais ocorridas na vida) tem um peso considerável como causa e por isso é mais frequente na idade entre 20 e 30 anos. Ainda 40% dos pacientes relatam perdas no ano que antecedeu o início do transtorno do pânico.

Dentro dos transtornos de ansiedade e especificamente em relação ao transtorno do pânico, espera-se ainda que genes tenham algum papel mais ligado à sua determinação.

Estima-se que 25% da população apresente ao menos um ataque de pânico isolado ao longo da vida. Sua prevalência no entanto, é menos comum, já que, apenas 5% de todos nos vamos apresentar este transtorno. Apenas?

Como se fosse pouco...

É sabido que os distúrbios psiquiátricos detestam a solidão e portanto costumam vir associados a outras doenças. O transtorno do pânico não é exceção. Em 80% das vezes está acompanhado de uma situação chamada agorafobia. Trata-se de um transtorno onde o indivíduo sente medo e evita lugares ou situações que possam causar pânico. Uma pessoa agorafóbica também pode evitar situações onde se sinta preso, desamparado ou envergonhado.

Grande parte das pessoas com pânico tem ao menos um transtorno de humor e pouco mais de 10% dos pacientes caminham para quadros de abuso ou dependência de álcool. Por isso o diagnóstico e o tratamento precoce são fundamentais, mas muitas vezes são subestimados até pelos médicos.

Ao contrário de outros distúrbios de natureza psiquiátrica, as pessoas com síndrome do pânico tornam-se mais receptivas ao tratamento quando compreendem que seu quadro clínico envolve disfunções de natureza social e profissional e esse tratamento consegue geralmente controlar os sintomas.

A boa notícia é que superada essa fase difícil do diagnóstico, não é mais necessário ser o hospedeiro deste monstro que pode devorar você, visto que nos dias atuais quer a psicoterapia, psicofármacos ou os dois são muito eficazes e se não eliminam efetivamente esse transtorno, seguramente podem controlá-lo para que você possa ter sua vida de volta. Obviamente que a psicoterapia deve ser a primeira abordagem, no entanto, se a crise for muito intensa ou de tempo prolongado, o uso de psicofármacos pode ser aconselhado.

Mas, com ajuda profissional, sem preconceito é preciso enfrentar o problema porque como disse Charles Chaplin "Não devemos ter medo dos confrontos. Até os planetas se chocam e do caos nascem as estrelas".

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