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Cristiane Segatto

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

"Queda de renda adoece; usar bem o dinheiro da saúde nunca foi tão crucial"

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Imagem: iStock
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do VivaBem

28/04/2021 04h00

Crise econômica, desemprego, queda de renda. A sequência de eventos trágicos que empobrecem o Brasil rouba saúde do país e dos indivíduos de maneira perversa. A inadimplência, uma dor moral difícil de curar, está longe de ser a única sofrida pelos brasileiros em uma pandemia de tantas perdas materiais e emocionais.

Em entrevista à coluna, o médico Evandro Tinoco Mesquita, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenador da Universidade do Coração da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), ressalta a interdependência entre as condições sociais e econômicas, os agravantes psicoemocionais e as doenças cardiovasculares.

Na quarta onda da pandemia, os problemas de saúde mental e as dificuldades econômicas levam a um crescente adoecimento. "Essa onda ainda não é tão perceptível porque estamos brigando com o repique da covid-19, mas ela já está aí", diz ele. Fazer bom uso do dinheiro destinado à saúde na esfera pública e privada nunca foi tão importante.

Qual é o efeito da crise econômica, da queda de renda e do desemprego sobre a saúde cardiovascular?

Evandro Tinoco - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Evandro Tinoco Mesquita é professor da UFF e coordenador da Universidade do Coração da SBC
Imagem: Arquivo pessoal

Os determinantes sociais e econômicos da saúde cardiovascular são reconhecidos há muito tempo, mas só recentemente passaram a receber um olhar das grandes sociedades médicas. Surgiram pesquisas e ferramentas para mensurar e observar o impacto deles. Entender essa relação passou a ser ainda mais importante na pandemia. Emergiu o conceito de sindemia.

Qual é a melhor definição de sindemia?

Juntas, a vulnerabilidade econômica, as morbidades e as condições crônicas que as pessoas apresentam passam a ter um efeito de aceleração. A interação entre duas ou mais doenças causa danos maiores do que a simples soma dessas duas doenças. A renda interfere no acesso à saúde e, no caso do setor privado, na perda de acesso à saúde.

Além das dificuldades de acesso, quais os outros impactos da perda de renda sobre a saúde?

Não há dúvida de que os aspectos financeiros interferem. Sem renda, as pessoas comem mal. Consomem alimentos com baixo teor nutricional e alto nível de gordura e açúcares. Ao mesmo tempo, o sedentarismo foi exacerbado pelo isolamento social e a ansiedade, o medo e a depressão cresceram muito na pandemia. Todos esses são elementos que levam ao adoecimento e, em especial, à doença cardiovascular. A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) editou um documento para alertar as pessoas sobre a importância da manutenção do cuidado durante a pandemia. O controle do diabetes e o combate à obesidade e ao sedentarismo são fundamentais.

Não há dúvida de que o desemprego prejudica a saúde. Por outro lado, qual é o peso do excesso de trabalho?

Falamos muito sobre a queda de renda como causa de doença cardiovascular e cardiometabólica, mas é preciso atentar para o fato de que o excesso de trabalho também é uma causa importante de adoecimento. Na pandemia, isso ficou muito claro. As pessoas estão trabalhando mais - seja em home office ou fora dele. O estresse do trabalho e o burnout são detratores da saúde cardiovascular e cardiometabólica.

A quarta onda da pandemia já começou?

Ela está em curso. Ainda estamos brigando com o repique da covid-19. A quarta onda é aquela em que os problemas de saúde mental (ansiedade, depressão etc) e as dificuldades econômicas e financeiras levam a um crescente adoecimento. Essa onda ainda não é tão evidente, mas está aí. Basta observar o número de pessoas que tem buscado ajuda psiquiátrica e suporte psicoemocional. A pandemia trouxe muitas perdas. Cada família tem uma história de perda. Isso provoca cicatrizes psicoemocionais. Entre os sobreviventes da covid-19, ocorre a síndrome do estresse pós-traumático. Algo que aprendemos na medicina de guerra. As situações de stress contínuo e traumático promovem alterações vasculares e nas vias neurais. Isso tudo vai se somando.

A crise econômica contribui para o adoecimento, mas já é possível afirmar que ela aumentou a mortalidade cardiovascular durante a pandemia?

Os estudos da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), a partir de dados dos cartórios, mostram que houve um aumento expressivo de mortes em casa durante a pandemia. São óbitos que podem estar associados à doença cardiovascular porque ela é uma causa importante de morte súbita. Quando tudo isso passar vamos precisar ter um olhar mais atento para entender o que aconteceu. O Brasil vinha em uma trajetória de queda das doenças cardiovasculares. Nós, cardiologistas, estávamos envolvidos na redução de óbitos até 2030. Surgiu a tragédia da covid-19 e interrompeu essa tendência positiva. Agora vamos ter que acelerar para conseguir promover uma queda de 25% nas mortes até 2025. Essa é a orientação da World Heart Federation para todas as sociedades médicas. Neste momento é preciso chamar a atenção para a interdependência entre a doença cardiovascular, os determinantes sociais e econômicos e os agravantes psicoemocionais.

No contexto de crise econômica, qual é o grande desafio?

O reflexo da queda de renda é observado de várias formas. No setor suplementar, muita perdeu seus planos de saúde ou fez um downgrade. Os pacientes mudam de médico por não ter renda ou não poder fazer tudo o que gostariam de estar fazendo. O grande desafio é ter uma visão de combate ao desperdício na saúde. Movimentos como o Chosing Wisely ajudam a conscientizar o paciente sobre os custos envolvidos na atenção à saúde. Ele precisa saber se um determinado exame ou tratamento terá impacto naquilo que chamamos de desfecho em saúde (os resultados de cada intervenção em termos de melhoria de saúde para o indivíduo ou a população). Acho que o consumidor vai passar a ter uma visão de uso mais racional dos recursos.

Essa visão amadureceu na pandemia?

Os pacientes, os familiares e os profissionais de saúde passaram a perceber com mais clareza o impacto econômico das nossas ações. Cada minuto em frente à TV, à internet, aos jornais, às revistas contribui para isso. A imprensa tem mostrado o que é o recurso em saúde bem gerido e mal gerido. O recurso necessário para comprar oxigênio e leito de terapia intensiva, respirador etc. Acho que houve um avanço na educação em toda a sociedade brasileira. Na pós-pandemia, o uso racional dos recursos terá que ser cada vez mais discutido. Queda de renda adoece. Usar bem o dinheiro da saúde nunca foi tão crucial.

A educação das pessoas a esse respeito precisa melhorar?

Sim. Haverá a necessidade de educar as pessoas que usam tanto o setor público quanto o privado. É preciso ter esse conhecimento de preservação de sua saúde e dos recursos destinados a ela. Chamamos isso de letramento ou literacia em saúde. Outros países têm isso bem desenvolvido. Sempre cito aos meus alunos o plano de literacia em saúde do governo português, que é um sistema público como o nosso. É importante entender as consequências das escolhas e da alocação de recursos. Um país continental como o nosso precisa usar cada recurso em saúde com muita responsabilidade.

As pessoas devem ser informadas, inclusive no SUS, sobre o custo de cada procedimento, material e medicamento usados em seu tratamento?

Não tenho dúvida. Dar essa informação ajuda a mudar hábitos de consumo. Apresentar as evidências científicas, indicar qual tipo de tratamento realmente funciona, explicar o que é um tratamento fútil e apontar os custos no setor público e privado é uma maneira de gerar educação. O profissional de saúde aprende e o cidadão passa a conhecer as consequências de cada escolha. É importante saber quanto custa uma vacina e qual é o preço e os impactos de não vacinar. É preciso conhecer os impactos econômicos das nossas escolhas sobre saúde. Ela não tem preço, mas tem custo.

Qual é a sua avaliação sobre o atual momento da pandemia no Brasil?

Ainda não saímos de 2020. O mundo está atrasado. São raros os países que já completaram sua vacinação. O ano de 2020 vai acabar quando nós tivermos a totalidade da população brasileira vacinada. Provavelmente entre agosto e setembro, estaremos completando o ano de 2020. Só aí vamos começar o de 2021. Será um ano muito curto. Aí vamos entrar no ano de 2022. Espero que em 2022, nos 200 anos da nossa independência, a gente possa começar diferente. Com uma agenda estabelecendo um novo normal, uma nova dinâmica na educação, na saúde, no trabalho. E com uma atenção maior ao planejamento.

Planejamento também para melhorar o nosso sistema de saúde?

É preciso reforçar nosso sistema de saúde. O SUS é uma grande conquista. Como pessoas e como profissionais de saúde, temos aprendido a tolerar a incerteza. É preciso enxergar que a ciência é uma iluminação. Ela ilumina nossas escolhas. Quanto mais intensa a iluminação científica de uma nação, mais saudáveis e seguras são as escolhas que ela faz. Em um país como o nosso, a educação em saúde da população e também dos profissionais é fundamental.

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