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Cristiane Segatto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Quatro passos para construir uma cidade que prioriza a saúde pública

Distrito em Denver, no Colorado, criou ruas abertas, com mesas ao ar livre, para evitar aglomerações em restaurantes durante o verão americano - David Rojas/Colorado State University
Distrito em Denver, no Colorado, criou ruas abertas, com mesas ao ar livre, para evitar aglomerações em restaurantes durante o verão americano Imagem: David Rojas/Colorado State University
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do UOL

21/04/2021 04h00

Dinheiro e vontade política são fundamentais no enfrentamento da pandemia, mas não bastam. É preciso contar com inteligência. Só ela permite um olhar abrangente sobre fatores historicamente negligenciados que não só favorecem a transmissão do Sars-CoV-2 como também prejudicam a saúde da população em qualquer tempo.

Hoje vamos focar em apenas um desses fatores: a relação entre saúde e condições urbanas. Em metrópoles como São Paulo, a gente se acostuma a viver em meio ao caos a ponto de achar que não há solução. Essa é a apatia paralisante que nos mata um pouco a cada dia.

Trens e ônibus lotados, aglomerações antes e durante a pandemia, desprezo pelos pedestres e ciclistas, péssimas condições de moradia e saneamento nos bairros periféricos. Tudo isso e outros determinantes sociais de saúde sabotam as possibilidades de viver mais e melhor.

Vários desses aspectos vêm à tona em um artigo publicado na revista científica Current Environmental Health Reports pelo epidemiologista David Rojas, da Universidade do Colorado, em Denver, nos Estados Unidos. No texto, ele sugere medidas de urbanismo tático que podem ajudar no enfrentamento da pandemia.

Melhorias urbanas e de saúde

Em primeiro lugar, vamos ao conceito: o urbanismo tático é uma intervenção temporária e de baixo custo que pode ser adotada rapidamente em cidades de qualquer tamanho. Muitas das intervenções propostas para reduzir o risco de transmissão da covid-19 podem se tornar permanentes para promover melhorias urbanas e na saúde pública.

"As decisões que tomamos são ditadas pelas opções que temos", diz Rojas. "Como os pedestres podem manter a distância de outras pessoas se algumas calçadas são estreitas? Ou evitar tocar em superfícies se é preciso pressionar botões nos semáforos para atravessar as ruas?"

A covid-19 deixou ainda mais evidente a necessidade de repensar o planejamento das cidades e a infraestrutura de transporte. É possível adotar estratégias para mitigar o risco de transmissão do vírus e, ao mesmo tempo, reduzir o impacto de iniquidades que roubam saúde há muito tempo.

Efeitos da pandemia

A diminuição do tráfego motorizado durante a pandemia reduziu os acidentes e melhorou a qualidade do ar em diferentes países, segundo dados da Agência Europeia do Ambiente (AEA).

Por outro lado, as necessárias medidas de isolamento social para conter a propagação do vírus prejudicaram outros aspectos da saúde: a inatividade aumentou, assim como a solidão, os problemas de saúde mental, a instabilidade financeira, o risco de violência doméstica etc.

Rojas argumenta que os impactos negativos sobre a saúde física e mental poderiam ter sido amenizados se, em alguns momentos da pandemia, as pessoas tivessem mais acesso a espaços públicos abertos e locais de prática segura de atividade física.

"Enquanto a vacina não estiver amplamente disponível e não houver tratamento eficaz, o urbanismo tático deveria ser considerado como uma ferramenta de apoio às estratégias de mitigação da pandemia. As intervenções devem priorizar as comunidades vulneráveis e de baixa renda e os trabalhadores essenciais", escreve o autor.

Por uma cidade que prioriza a saúde pública

Preparei uma seleção das recomendações de Rojas. Muitas parecem distantes da nossa realidade, mas conhecê-las vale como reflexão sobre a cidade que queremos:

1) Recomendações gerais
* Desencorajar o uso de transporte e espaço públicos por pessoas com covid-19 ou suspeita de infecção
* Promover o distanciamento físico de 2 metros e evitar aglomerações
* Incentivar a atividade física

* Expandir os espaços públicos abertos
* Projetar as intervenções urbanas dando prioridade aos grupos vulneráveis e trabalhadores essenciais
* Informar, promover e fazer cumprir as normas de segurança no trânsito

* Criar informação clara e acessível sobre distanciamento físico e mudanças urbanísticas táticas (áreas, usos e horários)
* Oferecer opções de transporte ativo e coletivo para acessar os postos de teste, vacinação e outros serviços de saúde

* Fornecer e adaptar abrigos e serviços para pessoas em situação de rua que sejam adequados ao distanciamento físico

2) Calçadas e ciclovias, parques e outros espaços públicos
* Impor distanciamento físico, evitar aglomerações e adotar horários exclusivos para populações vulneráveis (por exemplo, idosos e imunocomprometidos)
* Manter grandes espaços públicos abertos, como parques e praças, onde a distância física pode ser respeitada
* Promover o deslocamento a pé e de bicicleta

* Expandir a largura, o comprimento e a conectividade das calçadas e ciclovias no entorno de parques, trilhas e espaços públicos
* Criar ciclovias protegidas, incentivar o uso de capacete e expandir os estacionamentos de bicicleta
* Adotar horários específicos para pedestres e ciclistas de populações vulneráveis (por exemplo, idosos e imunocomprometidos)

3) Comércio essencial, semáforos e sinalização
* Evitar aglomerações; impor distância física
* Designar as lojas de bicicleta como serviço essencial
* Expandir calçadas para acomodar as filas de pessoas; as mesas de restaurantes e os mercados ao ar livre
* Oferecer serviços de entrega por meios não motorizados; estabelecer vagas dedicadas à carga e descarga
* Alterar a programação dos semáforos com botoeira para que os tempos sejam fixos, com prioridade a pedestres e ciclistas

* Incluir recomendações (ficar em casa, manter distanciamento físico etc) em telas e sinais de trânsito
* Reduzir os limites de velocidade máxima

4) Transporte público e mobilidade compartilhada
* Adotar protocolos rigorosos de limpeza e fomentar a ventilação em veículos e estações
* Permitir embarque de ônibus pela porta traseira para não expor o motorista
* Suspender a cobrança de tarifas por cobradores ou permitir o passe livre
* Distribuir máscaras, óculos de proteção, luvas e desinfetante para motoristas e passageiros
* Limitar a interação entre passageiro e motorista
* Impor distanciamento físico (a cada duas fileiras de assentos, fechar uma)
* Reduzir a ocupação máxima e aumentar o serviço em rotas de aglomeração
* Instalar barreiras físicas (divisórias etc)
* Estabelecer horários de uso exclusivo para populações vulneráveis
* Adotar serviços de apoio a trabalhadores essenciais
* Expandir o estacionamento de bicicletas junto às estações e terminais de transporte coletivo
* Integrar a micromobilidade compartilhada (bicicletas e patinetes) ao transporte público e ciclovias

Quase tudo inviável para uma metrópole brasileira como São Paulo? Continuará a ser até alguém decidir bancar as boas brigas e fazer acontecer. Quem fizer representará milhões de alguéns espremidos, desolados e em busca de ar.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL