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Cristiane Segatto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Esquecimento, falta de foco, cansaço? Não subestime a síndrome pós-covid

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Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do UOL

24/03/2021 04h01

Dos 12 milhões de infectados pelo Sars-CoV-2 no Brasil, mais de 10 milhões estão recuperados, segundo o Ministério da Saúde. Será? É cedo para afirmar que os sobreviventes estejam livres das consequências imediatas ou futuras da covid-19. Muitos dos "recuperados" de hoje podem ser os sequelados de amanhã.

A experiência cotidiana de médicos no Brasil e no Exterior e os estudos com pacientes em diferentes países demonstram que os sintomas persistentes e as sequelas da doença demandarão reabilitação e outros cuidados por muito tempo. É o que a Organização Mundial da Saúde (OMS) chama de covid longa, covid prolongada ou long covid. Abordei esse assunto e as necessidades impostas pela doença nesta coluna e nesta outra.

A síndrome pós-covid não pode ser subestimada. "Os pacientes precisam saber que aquilo que estão sentindo pode ser consequência da infecção. Eles não estão sozinhos", afirma a pesquisadora Ani Nalbandian, da Columbia University.

"Em Nova York, temos visto pacientes que passam semanas ou meses à procura de médicos bem informados", diz Nalbandian. "Os médicos devem estar atentos, legitimar as preocupações do paciente e documentar minuciosamente os sintomas", diz ela.

Em um estudo publicado na revista Nature Medicine nesta semana, Nalbandian e colegas apontam os principais danos provocados pela doença, com base nas observações de um painel de médicos e nas evidências relatadas na literatura científica.

Não é apenas confusão mental

Muita gente que teve covid-19 tem reclamado de problemas como confusão mental, esquecimento, falta de foco ou de clareza de pensamento. Algo chamado de "brain fog". A variedade de incômodos e limitações provocados pela infecção vai muito além e pode ser bem mais grave.

Segundo o estudo, dores no peito foram relatadas por 20% dos sobreviventes, dois meses depois da infecção. A doença pode revelar casos de diabetes. Uma parcela dos pacientes sofre de arritmias, insuficiência cardíaca, embolia pulmonar, AVC e complicações como coágulos sanguíneos.

Múltiplos órgãos podem ser afetados simultaneamente. "Se você vai ao cardiologista, a atenção dele estará focada no coração", afirma Nalbandian. "É preciso pensar na pessoa como um todo porque a covid pode afetar vários órgãos, principalmente naqueles que foram hospitalizados".

Todos são vulneráveis

Qualquer pessoa infectada pelo vírus pode apresentar sintomas tardios. "Vimos pacientes jovens, sem doença prévia, que desenvolveram disfunção autonômica (alterações no sistema nervoso autônomo) e batimentos cardíacos acelerados após a covid-19. Não são apenas os mais vulneráveis que têm problemas", diz Elaine Y. Wan, uma das autoras do estudo.

A pesquisadora Ani Nalbandian complementa: "Existe realmente uma síndrome pós-covid e nem sempre ela está relacionada à gravidade da infecção aguda".

No trabalho publicado na Nature Medicine, elas citam os dados de um estudo que acompanhou 1.250 pacientes tratados em 38 hospitais do estado de Michigan, nos Estados Unidos. Durante o período da pesquisa, 6% dos pacientes morreram e 15% precisaram ser internados novamente.

Dos 488 participantes que completaram a fase de entrevistas por telefone, 32% afirmaram ter sintomas persistentes (18% tiveram sintomas novos ou relataram o agravamento dos problemas). Cansaço ao caminhar ou subir escadas (22%) foi o sintoma mais frequente. Foram citados também tosse (15%) e perda persistente de apetite e olfato(13%).

Achados semelhantes foram reportados em estudos europeus. Segundo uma pesquisa realizada na Itália, os sintomas persistentes foram relatados em 87% dos 143 pacientes que receberam alta hospitalar. Fadiga (53%), falta de ar (43%), dores nas articulações (27%) e no peito (21%) foram as mais comuns.

Mais da metade dos pacientes disseram conviver com três ou mais desses sintomas. Outros estudos semelhantes realizados na China revelam fadiga, fraqueza muscular, além de transtornos do sono, ansiedade, depressão etc. Alguns exemplos dos danos observados na síndrome pós-covid:

Pulmão

* Falta de ar, redução da capacidade de exercício e hipóxia são sintomas e sinais persistentes

* Capacidade de difusão reduzida, fisiologia pulmonar restritiva, opacidades em vidro fosco e alterações fibróticas na imagem

Coração

* Palpitações, falta de ar e dor no peito

* Aumento da demanda cardiometabólica, fibrose miocárdica ou cicatrizes (detectáveis por ressonância magnética cardíaca), arritmias, taquicardia e disfunção autonômica

Cérebro

* Fadiga, mialgia, dor de cabeça, desautonomia, confusão mental (brain fog)

* Ansiedade, depressão, distúrbios do sono, estresse pós-traumático foram relatados em até 40% dos sobreviventes da covid-19

Hormônios

* Diabetes, tireoidite subaguda e desmineralização óssea

Intestino

* Eliminação fecal viral prolongada, alterações do microbioma intestinal

Cabelos

* Queda de cabelo é relatada por aproximadamente 20% dos sobreviventes

"A covid-19 afeta uma ampla variedade de órgãos. Isso alterou a minha prática clínica", diz a pesquisadora Wan. "Não importa o que o paciente venha buscar. Agora pergunto se ele já teve infecção por covid-19. Isso muda a gama possível de diagnósticos", afirma.

O cuidado dos pacientes com covid-19 não deve se encerrar quando eles saem do hospital. A alta pode ser só o começo.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL