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Cristiane Segatto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Até bicho faz distanciamento social para escapar de doenças. Onde erramos?

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Imagem: iStock
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do VivaBem

10/03/2021 04h00

Quando uma doença ameaça o grupo, os animais sabem o que fazer. O distanciamento social é uma reação intuitiva observada em várias espécies —abelhas, formigas, morcegos, lagostas do Caribe e tantas outras.

Não estaríamos vendo o Brasil se transformar na mais eficiente e desprezível empilhadeira de mortos por covid-19 se déssemos alguma atenção à ciência e às lições da natureza.

Em vez de respeitar o que merece respeito, grande parte dos brasileiros decidiu seguir asnos em pele de gente e seus desvarios replicados por robôs. Teriam feito melhor negócio se tivessem confiado em equídeos genuínos. Eles sabem o que é trabalho e não empurram cloroquina goela abaixo de ninguém.

Não só os asnos, como outros bichos sabem que o distanciamento social garante proteção quando uma doença ameaça a coletividade. Em uma revisão publicada na revista Science, pesquisadores americanos destacam algumas espécies que adotam essa tática para preservar a saúde e a sobrevivência e o que podemos aprender com elas.

"Olhar para os animais não humanos pode nos dizer algo sobre o que temos que fazer como indivíduos e como sociedade", diz Dana Hawley, uma das autoras do trabalho e professora de ciências biológicas da Faculdade de Ciências da Virginia Tech, nos Estados Unidos.

"Ficar em casa e limitar as interações com outras pessoas são uma resposta comportamental intuitiva quando nos sentimos doentes —algo que observamos em muitos tipos de animais na natureza", afirma a professora.

"Muitas vezes os humanos suprimem esse instinto, com grande custo para nós mesmos e nossas comunidades, devido às pressões para continuar trabalhando ou frequentar as aulas mesmo estando doente", diz Hawley.

Os pesquisadores diferenciam dois tipos de distanciamento social: o ativo e o passivo. Esse último é aquele em que o bicho ou mesmo o humano se sente letárgico, sem conseguir reunir energia para sair da toca.

Ou sem vontade de pular de cama para encontrar os amigos. Esse mal-estar geral faz com que o indivíduo fique longe dos outros.

Um bom exemplo de distanciamento social ativo no mundo animal é o das formigas. Algumas espécies abandonam seus grupos quando estão se sentindo mal. O auto-sacrifício do indivíduo infectado é visto como um ato de proteção do resto da colônia. Só assim ela poderá passar adiante os genes que manterão a longevidade do grupo.

Sem dó, sem piedade

No caso das abelhas, os saudáveis agem ativamente para excluir os doentes. Abelhas são insetos sociais. Trabalham em grupo e com um objetivo claro: proteger a colmeia e sua rainha. Quando a infecção de um indivíduo é detectada, as abelhas saudáveis o lançam agressivamente para fora da colmeia. Sem dó, sem piedade.

Deixar o grupo para continuar saudável também é uma estratégia de distanciamento social. Algumas lagostas do Caribe fazem isso, mas não sem custo. Para reduzir o risco de contrair ou transmitir o vírus, elas abandonam a toca quando percebem que a compartilham com um infectado.

É uma decisão arriscada. Além de perder a proteção social do grupo, quem sai se expõe a predadores famintos em oceano aberto. Entre enfrentar as incertezas do mar ou ser vítima do próprio imobilismo diante do avanço de um vírus letal, as lagostas preferem a ação. Caem fora antes que seja tarde.

Com os humanos, não é diferente. Muitas vezes preferimos mudar de lugar quando um agente infeccioso ronda o ambiente. É o que acontece quando alguém tosse sem parar ao nosso lado no avião ou em uma sala de espera. Não nos damos conta, mas esse é um comportamento evolutivamente enraizado.

Diante da tragédia brasileira (colapso dos hospitais, livre circulação de variantes do Sars-CoV-2 e desgoverno letal), o distanciamento social precisa ser mais ativo, consciente e explícito do que nunca.

É fundamental manter distância de seres truculentos, desmiolados, insensíveis que promovem aglomerações ou insistem em sair de casa sem máscara ou em usá-la como adereço carnavalesco: no queixo, chacoalhando na mão ou no estilo "me engana que eu gosto": com a boca escondida e o nariz de fora.

O Brasil errou em tudo (ou quase tudo) no enfrentamento da pandemia. Que a natureza e uma corrente de inteligência, sensatez e solidariedade nos protejam neste março sangrento. Dos asnos em pele de gente só se pode esperar o pior.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL