PUBLICIDADE

Topo

Cristiane Segatto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Como levar a vacina a quem mais precisa e aonde o coronavírus está

Pexels
Imagem: Pexels
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do UOL

24/02/2021 04h00

"Não conseguiremos vacinar a tempo"

"Não conseguiremos vacinar a tempo"

"Não conseguiremos vacinar a tempo"

Caro leitor,

A repetição da frase acima pode parecer erro de revisão, mas é proposital. Tentativa de enfatizar a gravidade do que estamos vivendo: em nenhum momento a pandemia de covid-19 assolou o Brasil como agora. É grave a crise, farto o desserviço do governo federal, imensa a imprudência de parte dos brasileiros.

A afirmação, claríssima e desesperadora, sobre a impossibilidade de vacinar a população o mais rápido possível, foi feita pelo médico Dimas Tadeu Covas, diretor do Instituto Butantan, em artigo assinado por ele e outros reconhecidos especialistas em saúde pública, publicado na Folha de S. Paulo.

O grupo salienta que "é possível que o vírus se antecipe à vacina, com suas mutações de escape". A transmissão do coronavírus cria oportunidades para o surgimento de variantes que, talvez, escapem à imunidade conferida pelas vacinas disponíveis atualmente.

Não há como interromper essa transmissão sem um rigoroso distanciamento social. Chega de usar máscara abaixo do nariz (ela não foi feita para disfarçar o mau hálito), no queixo, na mão, de mentirinha.

Chega de ignorar as normas e orientações das autoridades sanitárias. Chega de aglomerações, de crença em saídas milagrosas e de desprezo pela saúde dos outros.

Sem compromisso da população e trabalho sério de governantes e gestores, não há como frear o caos anunciado. É preciso acelerar a vacinação e fazer com que as doses cheguem, rapidamente, a quem mais precisa.

Seguir o vírus e levar a vacina aonde ele está

Em um artigo publicado na semana passada no The Journal of the American Medical Association (JAMA), pesquisadoras da Universidade da Califórnia defendem que a escolha do grupo prioritário na vacinação deve levar em conta a equidade. Ou seja: é preciso adaptar as oportunidades de acesso às raras doses para que a vacinação se torne mais justa.

É preciso levar a vacina aonde o vírus está, salientam Kirsten Bibbins-Domingo, Maya Petersen e Diane Havlir. Para isso, a proposta é priorizar os moradores de bairros e cidades com maior número de casos de covid-19 e internações.

Segundo elas, a idade não deveria ser o único critério a separar os que devem ser vacinados já e os que podem esperar um pouco mais. Embora a idade seja um critério mais fácil de ser adotado (e até mesmo de ser compreendido pela população), ele pode não ser o mais justo.

O impacto da pandemia é cruel e desproporcional nas comunidades de baixa renda. Muitas das pessoas realizam trabalhos essenciais de forma presencial e sem proteção adequada. Vivem em moradias lotadas e sem espaçamento adequado entre as casas. Têm acesso limitado e baixa confiança no sistema de saúde.

"Uma forma de alcançar um foco explícito de equidade em uma estratégia de vacinação é incluir nas prioridades as pessoas que moram em bairros ou cidades com maior número de casos, hospitalizações e mortes pelo coronavírus", escrevem as autoras.

"Para virar a maré na pandemia de covid-19, é necessário seguir o vírus e usar vacinas para interromper interrompê-lo onde ele está causando mais danos. Isso significa levar campanhas de vacinação para as comunidades que foram duramente atingidas por muito tempo".

Seleção por CEP

A escolha do público a ser vacinado de forma prioritária pode ser feita pelo código postal (CEP). Ele é compreendido pelo público e de fácil adoção pelos sistemas de saúde.

Por essa proposta, todos os moradores de um determinado CEP devem ser vacinados - e não apenas os mais velhos. Um idoso de 75 anos e seu cuidador de 40 anos, por exemplo, poderiam receber a vacina na própria comunidade e no mesmo dia.

A lógica é a seguinte: a vacinação de todos os indivíduos elegíveis em áreas com grande número de casos tem o potencial de reduzir as cadeias de transmissão frequentemente associadas a adultos jovens.

"A interrupção da transmissão reduz as sequelas de hospitalizações e mortes - o que melhora a eficácia geral das campanhas de vacinação", escrevem as autoras. Embora as mortes por covid-19 sejam mais frequentes em idosos, a maioria das hospitalizações nos Estados Unidos ocorre entre aqueles com menos de 65 anos.

No Brasil, um dos epidemiologistas que discordam do critério de idade como forma de priorização no acesso à vacina é o professor Paulo Lotufo, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

"Como vimos, vacinamos mulheres brancas que estavam protegidas. O ideal seria priorizar a área da saúde e trabalhadores essenciais", diz ele. "Como não foi essa a escolha, agora é preciso atuar nas áreas mais atingidas", afirma.

É o caso do bairro de Sapopemba, na capital paulista, gravemente afetado pela covid-19. "Essa região, assim como outras, deveria ter uma proporção de vacinados muito maior do que temos hoje", diz Lotufo.

O critério de escolha dos felizardos contemplados com a vacina é discutível e pode ser aprimorado sempre. Seja qual for ele, a melhor estratégia é vacinar o máximo de gente. O mais rápido possível e antes que seja tarde.

O que você achou deste conteúdo? Comentários, críticas e sugestões podem ser enviados pelo email segatto.jornalismo@gmail.com

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL