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Cristiane Segatto

NOTÍCIA

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

"A covid longa é o preço que muitos pacientes pagam pela sobrevivência"

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do VivaBem

19/02/2021 04h00

O médico intensivista Regis Goulart Rosa, do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, acompanha de perto os sintomas persistentes e as sequelas da covid-19 em pessoas que precisaram de internação.

Membro do comitê executivo da Coalizão Covid Brasil, ele é um dos líderes de um estudo que avalia a qualidade de vida após a alta hospitalar em mais de 1,2 mil pacientes de instituições públicas e privadas de todas as regiões do Brasil.

Recentemente, esse esforço foi integrado à estratégia da OMS (Organização Mundial da Saúde) para estabelecer formas de combate à chamada covid longa, covid prolongada ou long covid.

Em entrevista à coluna, Rosa critica a crônica falta de acesso a serviços de reabilitação no país e diz que o Brasil precisa se preparar para a próxima pandemia: a de incapacidade.

Quais são os sintomas prolongados mais comuns em pessoas que tiveram covid?

A OMS reconheceu que a covid pode causar efeitos de longo prazo. E, por isso, quis ver os estudos que estamos fazendo no Brasil. Existem dois grandes grupos de consequências da covid. O primeiro envolve tanto pacientes com formas leves quanto com formas graves da doença. Nesses casos, acredita-se que a causa dos problemas seja a interação do vírus com o organismo. As pessoas têm sintomas prolongados de fraqueza, fadiga, cansaço, dificuldade de concentração, insônia e ansiedade. São sintomas mais leves, mas com impacto na qualidade de vida.

E o segundo grupo?

Nele estão os pacientes que precisaram de ventilação mecânica. Nesses casos, as sequelas ocorrem principalmente pela interação entre a doença grave com os tratamentos adotados para salvar a vida. O doente sobrevive, mas existe um preço a pagar. Essas sequelas são mais graves, persistentes e com impacto importante na qualidade de vida. Uma grande proporção desses pacientes tem fraqueza muscular, redução da capacidade funcional, estresse pós-traumático, ansiedade, depressão e disfunção cognitiva em graus moderados. Ou seja, há dois espectros da síndrome. Um grupo tem sintomas prolongados (como fadiga e cansaço) especificamente causados pelo vírus. Já os doentes que precisaram de ventilação mecânica apresentam sequelas de doença crítica, como fraqueza muscular, depressão, ansiedade e estresse pós-traumático.

O que os dados preliminares do estudo indicam?

Seis meses após a alta hospitalar, 7% dos pacientes haviam morrido. No grupo que precisou de ventilação mecânica, esse índice de mortalidade chegou a 24%. Seis meses após ter deixado o hospital, muitos pacientes sofriam de ansiedade (22%), depressão (19%) e estresse pós-traumático (11%), Os danos em pessoas que precisaram de internação são muito semelhantes aos que ocorrem em outras doenças graves que exigem tratamento intensivo. Nas formas mais pesadas de covid, disfunções orgânicas como insuficiência respiratória, renal ou hepática contribuem para a diminuição da capacidade física e para as sequelas de longo prazo. Além disso, a própria ventilação mecânica (em pacientes com ou sem covid) pode causar fraqueza muscular, atrofia da musculatura respiratória, infecção, pneumonia etc. Os sedativos que usamos na UTI para melhorar o conforto também estão associados ao estresse pós-traumático e à disfunção cognitiva. Tudo isso pode acontecer, mas os recursos são um mal necessário.

Em relação aos sintomas relacionados ao vírus (e não às sequelas decorrentes da ventilação mecânica), o que vocês têm observado nos pacientes que fazem parte do estudo?

O sintoma mais comum é a fadiga. Em alguns pacientes, ela pode perdurar até seis meses. O mais interessante é que essa síndrome de sintomas prolongados pós-covid, pode acometer também os pacientes que não tiveram formas graves da doença. Eles também se queixam de fraqueza muscular, dificuldade de concentração, ansiedade e insônia. Esses são os principais sintomas de uma covid prolongada. Eles ocorrem até mesmo em pessoas que não estiveram hospitalizadas.

É uma fraqueza leve que, com o tempo, passa ou esses pacientes vão precisar de reabilitação?

Em muitos casos, os pacientes podem necessitar de reabilitação. Daí a importância de rastrear esses indivíduos que apresentaram sintomas persistentes pós-covid para saber quem precisa de reabilitação. Mesmo nos quadros mais leves de sintomas prolongados, o paciente pode apresentar uma fraqueza ou fadiga muscular importante. É preciso garantir acesso à fisioterapia para que ele possa retornar ao trabalho ou aos estudos.

E nos casos de ansiedade?

Quando esses pacientes sofrem de ansiedade e têm dificuldade de atenção, por exemplo, é preciso garantir que eles possam ter acesso a uma reabilitação com psicólogo ou psiquiatra. E, também, estimulação cognitiva por meio de terapia ocupacional, por exemplo. Isso tem o potencial de melhorar a qualidade de vida e ajudar essas pessoas a voltar a contribuir para o mercado de trabalho e para a sociedade.

O acesso à reabilitação sempre foi um problema no Brasil, mesmo antes da covid. O país tem estrutura para enfrentar a pandemia de incapacidade?

A reabilitação é um problema crônico no Brasil. Em países de alta renda, como os Estados Unidos, há clínicas e hospitais específicos para reabilitação de pessoas que tiveram doenças que prejudicam a capacidade física e cognitiva ou a saúde mental. O paciente recebe um tratamento específico para a necessidade dele. No Brasil, a gente nunca se preocupou com as sequelas ou com a necessidade de novas internações após a alta do paciente. Existem programas de reabilitação desenvolvidos pelo Ministério da Saúde, mas não há cobertura e número de funcionários suficientes para atender à alta demanda. Vamos ter outra pandemia: a das pessoas com incapacidades.

Quais serão as consequências?

Se o Brasil não fizer um plano de reabilitação adequada para essas pessoas, teremos um aumento exorbitante de custos para o sistema de saúde. Além de perder muitas pessoas que poderiam continuar contribuindo para a sociedade. Os problemas sociais vão aumentar porque o impacto dessa síndrome transcende o paciente.

Na experiência diária com doentes graves de covid, o que mais chama sua atenção?

Era esperado que esses pacientes tivessem uma redução de sua capacidade física após a doença grave causada pela covid, principalmente se eles precisaram de ventilação mecânica. O que tem me surpreendido no dia a dia é a grande ocorrência de sintomas de saúde mental, como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático. Talvez isso tenha muito a ver com a forma como tratamos esses pacientes na fase aguda da doença.

Como assim?

Esses doentes passaram por um dos momentos mais difíceis de suas vidas sem a proximidade de um rosto conhecido. Muitos hospitais, por exemplo, impediram as visitas das famílias. Os pacientes iam para a UTI e, por questões sanitárias, não podiam ter contato com os familiares. Imagine o que é enfrentar uma doença dessas sem o apoio das pessoas próximas. Estamos vendo uma grande ocorrência de problemas de saúde mental também nos familiares dos mortos. Pessoas que perderam seus entes queridos em uma UTI sem a possibilidade de dizer adeus. Fora a culpa dos assintomáticos que transmitiram a doença para um parente que veio a falecer.

Os problemas de saúde mental não são causados diretamente pelo vírus e sim pelo contexto que as pessoas tiveram que enfrentar para sobreviver a ele?

Ainda não sabemos muito bem porque as pesquisas estão em andamento. Acredita-se que o vírus possa contribuir, pelo menos em parte, para esses sintomas de saúde mental. Alguns estudos mostram que esses pacientes têm uma grande inflamação no cérebro. Está claro que o vírus é só a ponta do iceberg. Muitos desses pacientes precisaram de ventilação mecânica prolongada e de sedativos. Esses medicamentos também estão muito associados ao acometimento de saúde mental. Imagine um paciente de 30 anos que era totalmente independente e sai do hospital com fraqueza muscular e dependente de um cuidador para sua higiene. Esse impacto da saúde física também prejudica a saúde mental. A pessoa se lembra da UTI, da dor, do desconforto e do medo que viveu. Além disso, muitos pacientes acham que eles são um fardo para a própria família porque se tornaram totalmente dependentes.

O que o Brasil precisa fazer para enfrentar a pandemia de incapacidade?

O Brasil (assim como o mundo inteiro) precisa dar conta da reabilitação desses pacientes. Isso tem que ser reconhecido como prioridade. Uma proporção significativa da população terá sequelas duradouras. Elas são subdiagnosticadas, mas têm impacto na qualidade de vida. Precisamos nos preparar para enfrentar as sequelas e poder devolver nossos pacientes da forma mais saudável possível à sociedade.

O que você acha da forma como a divulgação das taxas de recuperação pós-covid é feita?

No Rio Grande do Sul, por exemplo, o estado se orgulha muito de ter uma taxa de recuperação em torno de 95%. A verdade é que não dá para dizer que todos esses pacientes estão recuperados. Se alguém sobrevive à covid, mas fica com um quadro de disfunção cognitiva semelhante à de um paciente com demência, é correto dizer que ele foi recuperado? Não, ele é sequelado. Ao olhar esse dado de 95%, é preciso ter noção de que grande parte vai precisar passar por reabilitação. Essa chave as pessoas ainda não giraram. É muito cedo para dizer que as pessoas estão recuperadas. Muita gente vai apresentar sequelas tardias (meses após a internação) e duradouras e precisará de um longo período de reabilitação para que voltem a ser a mesma pessoa.

Isso tem aparecido nas entrevistas do estudo?

Sim, temos visto bastante. Durante a internação, os sintomas de saúde mental, por exemplo, podem ser confundidos com efeitos do estresse. Todo mundo tem um estresse emocional agudo quando algo importante acontece na vida - principalmente em uma situação de quase morte. É comum a pessoa ter crises de ansiedade durante a hospitalização e todo mundo achar que é normal. Dali a três ou seis meses, a pessoa está com um diagnóstico de ansiedade generalizada, depressão maior, algo grave o suficiente para demandar internação psiquiátrica ou causar um suicídio.

É preciso relativizar o significado da alta hospitalar?

Esses índices indicam apenas que as pessoas receberam alta hospitalar. Não quer dizer que elas não possam morrer em seis meses por causa de complicações que exigiram uma reospitalização, por exemplo. Uma dessas causas pode ser a reinfecção bacteriana. Essa doença causa uma redução da imunidade desses pacientes e eles podem voltar a ser hospitalizados por causa disso. Outra causa muito recorrente são os distúrbios de deglutição. Metade dos pacientes que precisam de ventilação mecânica fica com essa sequela. Em vez de ir para o esôfago, o conteúdo da saliva pode ir para o pulmão e causar uma pneumonia aspirativa. É preciso parar de achar que está tudo bem só porque o paciente teve alta hospitalar. Precisamos seguir monitorando e reabilitando essas pessoas para evitar a deterioração da saúde. Não dá para baixar a guarda.

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