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Cristiane Segatto

"A população tem uma força que independe do governante de plantão"

Dulce Pereira de Brito, coordenadora médica de saúde populacional do Einstein - Arquivo pessoal
Dulce Pereira de Brito, coordenadora médica de saúde populacional do Einstein Imagem: Arquivo pessoal
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do UOL

16/12/2020 04h00

A maioria dos brasileiros deseja ser vacinada contra a covid-19 e tem a expectativa de que isso aconteça o mais rápido possível. O início da imunização no Reino Unido e nos Estados Unidos, uma grande e aguardada notícia, gerou um raro momento de otimismo que a incompetência das autoridades federais do Brasil tratou de transformar em desolação e revolta.

Em entrevista à coluna, Dulce Pereira de Brito, coordenadora médica de saúde populacional do Hospital Israelita Albert Einstein, fala sobre isso e sobre o papel dos cidadãos no enfrentamento da pandemia.

Responsável pelo programa de promoção da saúde, bem-estar e saúde mental dos colaboradores do Einstein e das empresas que contratam serviços corporativos do hospital, Dulce descreve o estado emocional dos profissionais (em especial, os da saúde) e sugere como podemos nos preparar para 2021.

Qual é o balanço que você faz 2020, a partir da experiência de contato diário com as equipes de saúde?

A pandemia é uma maratona que pode ser dividida em três partes. A primeira fase foi a do medo. Entre os profissionais de saúde, o medo da contaminação era predominante. Agora estamos vivendo a segunda fase, a da pré-vacina. A palavra que a caracteriza é cansaço. Um cansaço físico e mental. A terceira fase será a da pós-vacina. Para alguns, será o momento de administrar as sequelas do que vivemos. Estamos vivendo o maior experimento psicológico a céu aberto, desde as grandes guerras mundiais.

Por um lado, há a expectativa em torno da chegada da vacina. Por outro, há decepção porque as pessoas estão percebendo que ela não estará disponível para toda a população tão cedo. Como lidar com isso?

É possível olhar para o copo meio cheio ou para o copo meio vazio. Fiquei extremamente feliz com a notícia de que o Reino Unido havia liberado a vacinação em massa. O que era só uma hipótese começou a se concretizar, com resultados que parecem bastante confiáveis. O que causa desolação, ou quase revolta, é a falta de olhar técnico e agilidade das autoridades, principalmente federais, para preparar o terreno para que a vacinação aconteça. Acho que a população tem uma força que independe do governante de plantão. Penso que haverá um clamor populacional tão grande quando a vacinação começar a acontecer em outros países que aí não vai ter jeito. Vamos ter que começar a viabilizar a nossa também.

Qual é a situação física e emocional dos profissionais de saúde diante do aumento expressivo das internações por covid-19?

A maioria está exausta. Não é por falta de suficiência. São nove meses de trabalho intenso e exposição ao risco. Avaliamos os profissionais de saúde em quatro domínios: energia física, mental, social e espiritual. A energia física está lá embaixo. Está todo mundo esgotado. O que atinge a maior pontuação é a energia espiritual (propósito, sentido de vida, valores). É incrível ver que, mesmo com exposição ao vírus e correndo o risco de levá-lo para a família, o propósito (a consciência da razão de estar ali) dos nossos profissionais de saúde é mais forte que tudo. Sabe aquele corredor que formam em volta da UTI? Aquilo é tão revigorante. É uma injeção de energia na gente. É o que nos faz pensar: "Vamos em frente porque vale a pena". Isso nos alimenta.

O que vocês sentem ao ver a população relaxando nas medidas de prevenção?

Isso aumenta a chance de adoecimento mental dos profissionais de saúde. A população precisa estar junto conosco nesta batalha. Um jeito de nos aplaudir é respeitar as recomendações sanitárias. Esse é o verdadeiro aplauso. Imagine o que sente um profissional de saúde que está trabalhando nove meses sem parar quando ele vê as praias lotadas, mesmo com os hospitais lotados? Sabemos que o isolamento é antifisiológico. O ser humano é social. Para a população entender que o controle da pandemia exige esse esforço é preciso haver uma boa dose de autocontrole e de empatia. Infelizmente, nem sempre é isso o que a gente vê.

Você costuma dizer que as emoções são mais contagiosas do que o vírus nas equipes de saúde. Como os profissionais, as instituições e os governos devem lidar com isso?

É fundamental que a pessoa reconheça o que está sentindo. A pior coisa que existe é fingir que nada está acontecendo. É preciso olhar para dentro, perceber de onde vem a irritação, a insônia. Qual é o nome disso? A pessoa deve reconhecer e validar aquilo, em vez de minimizar. Se o medo existe porque a ameaça é real, precisamos trabalhar para que esse medo não nos paralise. Para que a gente use o lado bom do medo. Qual é o lado bom do medo? Fazer com que a gente consiga se proteger. Para que o medo não se torne irracional, precisamos ter acesso à informação sobre como nos proteger.

O que o Einstein tem feito?

O hospital e outras empresas têm feito o que chamamos de descompressão. São rodas de conversa com especialistas. Momentos em que os nossos profissionais possam desabafar. Se não houver um momento com um especialista, que seja um amigo. Alguém com quem você possa falar todos os dias, até mesmo em um tempo predeterminado. Trocar mensagens, telefonar. Simplesmente para que a pessoa possa dizer como está se sentindo. É uma pausa regenerativa. Temos feito muito treinamento com a liderança porque a empatia é algo que precisa ser aprendido.

Como interromper o contágio das emoções negativas?

Vamos pensar em um comportamento contagioso como a raiva ou uma fala violenta. Quando alguém nos agride estamos vendo apenas a ponta do iceberg. Por baixo dessa comunicação violenta, existe uma necessidade daquela pessoa que não foi atendida. Para interromper a escalada da violência, é preciso tentar entender de que aquela pessoa precisa. Para não se contaminar com aquilo, é preciso tentar observar a cena, como se saísse dela.

Basta observar?

Observar com certo distanciamento para enxergar o que está por trás daquilo. Isso nos coloca em uma posição consciente. É como estar presente sem se misturar com o sentimento do outro. Sem beber daquele veneno. Fazer perguntas abertas para aquela pessoa sobre o que ela precisa vai desarmando a bomba. Você vira um repórter e não uma vítima daquele sentimento. Quando alguém lhe dá um presente, ele só é seu se você aceitar. Da mesma forma, quando alguém quiser lhe passar uma emoção negativa, ela só vai contaminá-lo se você aceitá-la. É uma questão de treino.

As empresas estão sabendo cuidar da saúde mental de seus colaboradores?

As pesquisas mostram que as taxas de pessoas felizes com seus trabalhos é baixíssima. A depressão e a ansiedade são as principais causas de afastamento nas empresas de qualquer segmento. Os cuidados de saúde mental já eram uma necessidade, mas as empresas não estavam se preocupando com isso como poderiam. Com a pandemia, o problema explodiu. As empresas estão procurando fazer algo, mas são iniciativas pontuais, como sessões de meditação. Não é o suficiente.

Não falar sobre saúde mental nas empresas só piora o problema?

É como não falar de educação sexual com os filhos. Não resolve. De forma ainda tímida, as empresas estão começando a se mexer. Não adianta achar que basta oferecer uma palestra. Sabemos que 70% do clima emocional de uma área é determinado pelo perfil do líder. É preciso educar esse líder. Em alguns lugares, enxergamos os quatro elementos da tempestade perfeita: alta demanda em pouco tempo; baixa autonomia; alto esforço (grande gasto de energia mental por longos períodos) e baixa recompensa.

Quais são as consequências?

Quando os colaboradores alcançam os limites superiores nesses quatro elementos, eles têm alta probabilidade de adoecer, tanto física quanto mentalmente. Tudo isso aconteceu na pandemia. Pense em uma pessoa que precisou criar um e-commerce de repente. Isso aconteceu, por exemplo, com funcionários de uma empresa de chocolates na Páscoa. Em três dias, eles tiveram que botar uma plataforma de vendas para funcionar. Fizeram um esforço mental absurdo, sem autonomia e com baixa recompensa. É óbvio que essas pessoas vão se encontrar, no mínimo, em uma situação de exaustão mental. O mesmo aconteceu com os professores e com várias outras áreas.

O que precisa ser feito?

Em uma situação de tempestade perfeita, é preciso garantir, no mínimo, o reconhecimento. Por que é tão importante para nós, profissionais de saúde, receber aplausos sinceros da população? Estamos trabalhando com alta demanda, com muito esforço e baixo controle. Quem trabalha na UTI não pode dizer "não quero mais tratar esse doente". Se, pelo menos, a recompensa for muito alta, se ela puder continuar enxergando propósito naquele trabalho, ela pode seguir.

Como pode ser feito esse reconhecimento?

Um estudo investigou quais são os pedidos mais frequentes que os profissionais de saúde fazem aos chefes e aos donos dos hospitais. Basicamente, são seis coisas: proteja-me (ou seja: garanta condições de proteção para que eu execute o meu trabalho); prepare-me (ofereça treinamentos para aumentar a resiliência e as habilidades socioemocionais); apoie-me (quando eu estiver caindo, me ajude. Isso pode significar flexibilizar os horários ou não telefonar na hora do almoço); cuide de mim (caso eu adoeça), me honre (reconhecimento). É fundamental reconhecer tudo o que os funcionários fizeram neste ano tão difícil. Cada empresa precisa encontrar uma forma de fazer isso.

É comum ver empresas que vivem em tempestade perfeita o ano inteiro, sem oferecer nenhum programa consistente de saúde mental. Quando chega dezembro, elas enviam um brinde aos funcionários. Qual é o melhor panetone que elas podem dar neste Natal?

Contar as boas histórias é o melhor panetone que elas podem dar. É importante contar as vitórias e superações vividas em 2020. Foi um ano muito difícil, mas com tanta história boa para contar. Compartilhar essas histórias é muito potente.

Tudo indica que 2021 também não será um ano fácil. Como podemos nos preparar?

Entramos na pandemia sem nenhum preparo. Nossa bateria foi lá embaixo. Em 2021, no pós-vacina, vamos precisar encontrar uma forma de recarregar essa bateria. Uma das coisas mais importantes que vamos precisar fazer será a nossa reconexão social. Vamos precisar nos reconectar com as pessoas que nos fazem bem. Famílias, amigos etc. A conexão com as pessoas é uma proteção para a nossa saúde mental. Acho que o próximo ano também será difícil, mas podemos fazer diferente. Podemos usar tudo o que aprendemos em 2020. Como trabalho na linha de frente da saúde, fiquei meses sem ver familiares. Quando isso acabar, nunca mais vou perder a chance de dar um abraço apertado neles. Nunca mais vou deixar de valorizar a minha conexão com a natureza. Vamos começar a nos realimentar dessas conexões.

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