PUBLICIDADE

Topo

Cristiane Segatto

Como aconteceu com Boulos, a covid manda e quem é esperto obedece

Marcelo Justo/UOL
Imagem: Marcelo Justo/UOL
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do VivaBem

02/12/2020 04h01

O elemento surpresa que deu as cartas finais na disputa pela prefeitura de São Paulo chegou chegando mais uma vez. Ele, o SARS-CoV-2, subverte planos e interrompe trajetórias.

Era de esperar que a covid ocupasse um lugar de destaque no embate entre Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (PSOL), mas imaginei que a candidatura do atual prefeito seria a mais atingida pelo rastro do vírus.

Covas é a vidraça, o responsável por tudo o que o município fez e deixou de fazer no enfrentamento da pandemia. Se milhares de pessoas perderam a vida ou vivem em luto por parentes e amigos na capital paulista, o prefeito poderia ser punido pelas urnas. Se a pandemia voltou a crescer nas últimas semanas, idem.

Essa não foi, porém, a percepção da maioria. Mais de três milhões de eleitores decidiram que ele deveria ser mantido no cargo, com ou sem pandemia.

No meio do caminho tinha a covid

Ao longo da disputa, temi pela saúde dos candidatos em vários momentos. Vivemos um ano atípico, cheio de inovações e adaptações feitas na marra, mas o corpo a corpo das campanhas eleitorais continua o mesmo.

Os dois candidatos e suas equipes se meteram em aglomerações de rua e elevadores cheios, cumprimentaram inúmeras pessoas e participaram de reuniões presenciais como se não houvesse amanhã.

Apesar de Covas ter contraído o vírus em junho, raros casos de reinfecção têm sido reportados pelos cientistas. Todo cuidado é pouco, principalmente na situação dele, que segue em tratamento imunoterápico contra o câncer.

Na reta final da campanha, no momento decisivo, quem pegou covid foi Guilherme Boulos, dois anos mais jovem que o oponente e sem histórico conhecido de doença grave.

O diagnóstico confirmado da infecção, poucas horas antes do aguardado debate da Globo, tirou boa parte da esperança da campanha que a representava.

Para Boulos, aquela seria a última oportunidade de confrontar o adversário, esclarecer fake news e apresentar suas ideias a milhões de cidadãos que ainda não o conhecem.

Não há elementos para acreditar que o debate alteraria o resultado da eleição, mas a covid tirou de Boulos o sabor do gran finale de uma campanha memorável. E, de boa parte dos eleitores, a chance de um voto bem informado.

Respeito ao vírus

Ao isolar Boulos em casa, sem debate e sem direito ao voto, a covid deu mais uma demonstração de que vai seguir sapateando sobre nossos planos. Aglomerou, descuidou, pegou. Após a infecção, o jeito é respeitar o poder do vírus, cumprir a quarentena e seguir as recomendações médicas.

Antes disso, é fundamental abrir a mente e o coração para os inúmeros apelos que os profissionais de saúde têm feito à sociedade. Alguns no limite do desespero.

Em entrevista à Globonews na semana passada, a pneumologista Margareth Dalcomo, da Fiocruz, se emocionou ao relatar o aumento de internações por covid no Rio.

São crianças, pais, famílias inteiras. Gente jovem exposta às sequelas de uma doença que pode comprometer a expectativa de um futuro saudável.

As informações científicas e as histórias pessoais reportadas incansavelmente pela imprensa deixam claro que a covid cobra caro pela imprudência. Ainda assim, as praias seguem lotadas no Rio. Em São Paulo, as aglomerações em bares e ruas revoltam quem entende a importância da máscara, do distanciamento social, da água com sabão e do álcool gel.

De volta à fase amarela

Um dia depois da reeleição de Covas, o governador João Doria anunciou que todo o Estado voltaria à fase amarela do Plano São Paulo, que coordena as medidas de reabertura da economia. As novas regras entram em vigor hoje.

Com a decisão, a ocupação máxima permitida em estabelecimentos do setor de comércio e serviços passa de 60% para 40%. Isso vale também para bares e restaurantes. O consumo no local será permitido somente até as 22 horas.

São medidas necessárias, diante do crescimento das internações. Em quase duas semanas, a taxa de ocupação dos leitos de UTI por pacientes de covid-19 em hospitais privados paulistas passou de 55% para 84%, segundo reportagem da Folha de S. Paulo.

Percepção de risco

Por mais contundentes que sejam as evidências de recrudescimento da pandemia, nem todas as pessoas têm a mesma percepção de risco. Por alguma razão, boa parte da população acha que o vírus não vai alcançá-la. Segue planejando festas, viagens e encontros "com toda a segurança".

Os hospitais estão cheios de otimistas que se deram mal e de vítimas do descuido alheio. Ninguém gosta de tantas normas, de restrições de horário e de circulação. Por enquanto, é o que podemos fazer por nós mesmos e pelos outros. Do contrário, a covid se impõe. Ela manda e quem é esperto obedece.

Boa e plena recuperação, Boulos.

O que você achou deste conteúdo? Comentários, críticas e sugestões podem ser enviados pelo email segatto.jornalismo@gmail.com. Obrigada pelo interesse.