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Cristiane Segatto

"Depois de ver meu bebê nascer com asfixia, melhorei como enfermeira"

Ailda dos Santos Nascimento - Arquivo pessoal
Ailda dos Santos Nascimento Imagem: Arquivo pessoal
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do VivaBem

28/10/2020 04h00

Nos últimos três anos, a enfermeira Ailda dos Santos Nascimento cuida de bebês que nascem com falta de oxigenação no cérebro e precisam de atenção especial na UTI Neonatal do Hospital Regional de Itanhaém, no litoral sul de São Paulo.

A asfixia ocorre antes do nascimento (em 90% dos casos) ou logo depois. Ela é a terceira causa de óbito neonatal (atrás da prematuridade e das infecções) e pode causar sequelas permanentes.

Para reduzir o risco de comprometimento cerebral, os médicos adotam medidas de resfriamento corporal dos bebês (hipotermia terapêutica) durante as primeiras 72 horas de vida.

Ailda é uma das profissionais que cuidam dos bebês submetidos ao resfriamento de 33,5 graus. Colhe sangue para os exames, observa os níveis de oxigênio, auxilia o processo de reaqueciamento dos recém-nascidos, tenta aliviar o sofrimento das mães.

Um parto complicado

Em agosto, a vida tratou de inverter os papéis. Ailda se viu na posição de mãe de UTI no próprio hospital em que trabalha. Uma experiência transformadora, segundo ela. "Depois de ver meu bebê nascer com asfixia, melhorei como enfermeira", diz.

O trabalho de parto durou metade de um dia. "Nicolas ficou preso no canal da vagina durante mais de duas horas. Nasceu pálido e não chorou. Olhei para os pediatras, meus colegas de hospital, e percebi que ele seria intubado e levado para a UTI", conta.

Ailda logo pensou que o filho precisaria da hipotermia terapêutica. "Como enfermeira, esse é um dos protocolos que amo fazer. Trabalhamos com muita dedicação, procuramos fazer tudo certinho porque vemos que as crianças, lá na frente, não desenvolvem qualquer tipo de sequela", diz.

Cérebro monitorado

Desde o início do processo de hipotermia, o cérebro de Nicolas foi monitorado por videoencefalograma, 24 horas por dia - um cuidado oferecido pelo hospital público estadual a todos os bebês submetidos ao resfriamento. A análise ininterrupta das ondas cerebrais é importante para detectar convulsões que não podem ser observadas a olho nu.

"Se não forem tratadas, as convulsões podem provocar sequelas como surdez, cegueira e algum grau de paralisia cerebral. Quando isso acontece, o bebê pode apresentar déficit motor, de inteligência, de sucção ou de respiração", diz a médica Marilene Kiskissian Martins, coordenadora da UTI Neonatal e Pediatria do Hospital Regional de Itanhaém.

Graças ao videomonitoramento, os médicos notaram quando Nicolas teve uma crise convulsiva. Em cerca de 20 minutos, ele já estava recebendo anticonvulsivantes.

"Fiquei dividida. Como enfermeira, sabia da importância da hipotermia e do videomonitoramento. Como mãe, queria tirar meu filho dali e aquecê-lo no meu colo", diz Ailda.

Uma enfermeira melhor

O final do processo é inesquecível para Ailda. Quando ela pôde, finalmente, colocar Nicolas no colo, ele procurou o seio e sugou sem dificuldade. "Foi muito emocionante. Estava abatida, com medo de ter depressão pós-parto, mas o acolhimento da equipe me levantou. Precisava ficar bem para o meu filho ficar bem".

A convivência, de igual para igual, com as outras mães na UTI, estimulou mudanças. "Aprendi com elas a ter um olhar de mais ternura para as mães. Muitas chegam estressadas e explosivas, mas precisamos entender o momento e tentar acolhê-las da melhor forma. Minha visão como enfermeira mudou depois de ter estado do outro lado", afirma.

Nicolas completou dois meses no último sábado. Está em casa com a mãe e a irmã Nicole. Seguirá em acompanhamento neuropsicomotor até os dois anos, mas os médicos acreditam que ele não terá sequelas decorrentes da asfixia.

"Ele está muito esperto. É um leãozinho, mama bastante e está começando a balbuciar. Isso me deixa cada vez mais animada", diz ela.

Hipotermia não é para todos

Nem todos os bebês que nascem com falta de oxigenação devem ser submetidos ao resfriamento. "As melhores evidências científicas indicam que a hipotermia deve ser feita nos casos de asfixia moderada ou grave", diz a médica Marilene.

"O objetivo não é reverter a morte neuronal que, infelizmente, é irreversível. O que a hipotermia faz é interromper a cascata inflamatória decorrente da asfixia. Com isso, conseguimos reduzir a mortalidade e a morbidade", afirma,

Desde 2013, ela estuda e aplica o protocolo. "Decidimos fazer isso por achar que os bebês não podiam mais sair sequelados das UTI's brasileiras. Infelizmente, até hoje menos de 5% dos centros fazem o tratamento.

No Hospital Regional de Itanhaém, cerca de 350 bebês passaram pela videomonitorização e 118 pela hipotermia. "As sequelas diminuíram muito", diz Marilene. "Até mesmo os que nascem em estado gravíssimo têm grandes chances de melhorar. Até hoje não tivemos nenhum bebê que teve alta do hospital precisando respirar com aparelho. Isso é um ganho muito grande para essas crianças".

Queda na mortalidade

O foco principal do hospital geral que atende pacientes de cinco municípios litorâneos é a maternidade de alta complexidade. "A Baixada Santista tem os maiores índices de mortalidade materna e infantil do estado de São Paulo", diz o pediatra Cézar Kabbach, diretor técnico do Hospital Regional de Itanhaém.

"Vários fatores contribuem para isso: pré-natal de baixa qualidade, falta de assistência ao parto e de uniformização de condutas entre os serviços etc", afirma Kabbach. "Após três anos de adoção da hipotermia no hospital, a taxa de mortalidade infantil na região caiu de 23 a cada mil nascidos vivos para menos de um dígito por mil nascidos vivos em Itanhaém e Peruíbe".

Em junho, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicou um documento sobre o resfriamento em caso de asfixia. Segundo ele, o procedimento pode ser realizado na maioria das unidades de cuidado intensivo neonatal porque não depende de arsenal sofisticado.

A entidade salienta que "diante das evidências encontradas na literatura há mais de uma década, pode-se considerar omissão não instituir a hipotermia terapêutica a pacientes asfixiados".

Que a história da enfermeira Ailda e seu bebê sirva de estímulo ao fim da omissão.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL