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Cristiane Segatto

Gente sem máscara por aí? Cinco estratégias para mudança de comportamento

Cumprimento, pandemia, saudação - iStock
Cumprimento, pandemia, saudação Imagem: iStock
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do VivaBem

23/09/2020 04h02

Antes de março, era preciso manter alguns minutos de conversa com um desconhecido para formar uma primeira impressão sobre ele. A pandemia escancarou tudo. Basta ver um cidadão sem máscara em um espaço público para perceber que ali vem um "sem noção". Atravesso a rua sem pensar duas vezes. Quero distância.

Essa é uma reação instintiva, de quem busca proteção, mas talvez não seja a mais construtiva. Às vezes, penso se não é possível contribuir para que essa pessoa reavalie e mude o seu comportamento. Talvez ela não seja um caso perdido. Pode ser mais uma vítima da desinformação sobre os riscos da covid-19, disseminada dia e noite por gente mal-intencionada.

Na semana passada, uma entrevista com a professora de comunicação Dominique Brossard, publicada no Journal of the American Medical Association (JAMA) trouxe boas reflexões sobre isso.

Professora da Universidade de Wisconsin-Madison, Dominique é uma das autoras de um relatório, que reúne uma seleção de estratégias para estimular a adoção de mudanças de comportamento necessárias enquanto a vacina não chega.

"Sempre há os extremistas, mas a grande maioria da população está em algum ponto entre um extremo e outro", disse Dominique em entrevista a Jennifer Abbasi, do JAMA. "Pessoas extremamente fixadas na ideia de não usar máscara são uma minoria. Essas não vão mudar de opinião, mas todas as outras podem mudar. Nossas pesquisas têm mostrado que o uso de máscara está aumentando. Ainda há esperança".

Valorizar o bom comportamento

Segundo Dominique, dar destaque excessivo às pessoas que não usam máscara ou que lotam as praias pode ser contraproducente. É preciso lembrar que, felizmente, elas são minoria. "Quando se fala muito sobre isso, a população começa a achar que esse comportamento é mais prevalente do que, de fato, é. Ou a lamentar por não estar na praia também. É preciso valorizar o bom comportamento e mostrar que ele é a norma socialmente aceitável", diz ela.

A seguir, uma seleção de algumas das estratégias sugeridas por Dominique e colegas para estimular a adesão ao uso de máscara, ao distanciamento social e a outras medidas de proteção. E, também, para comunicar a necessidade de mudanças. Essas sugestões são válidas para os governos e os administradores de espaços públicos e privados, mas também para cidadãos interessados em contribuir para a conscientização de quem ignora os riscos da pandemia.

1 - Facilite a adoção e a repetição do comportamento

Não adianta apenas recomendar a lavagem de mãos, se as pessoas não encontram pias, sabão ou álcool gel em áreas públicas. Facilitar o acesso a esses materiais é uma forma de comunicar que usá-los é a norma.

2 - Transforme o comportamento em algo gratificante

Repetimos comportamentos e criamos hábitos se eles trouxerem alguma forma de recompensa. É o que acontece quando encontramos uma atividade física prazerosa. Uma forma de estimular o uso de máscara, por exemplo, é promover produtos com apelo fashion, com o distintivo de times de futebol ou logomarcas de universidades. Outro exemplo sugerido por Dominique é oferecer uma recompensa simbólica a cada centésima pessoa que apertar um suporte de sabão.

3 - Relacione o novo comportamento a algo já existente

Para sair de casa, sabemos que é preciso pegar as chaves que ficam penduradas perto da porta. Manter as máscaras no mesmo lugar pode ser uma forma de incorporar o hábito de usá-las sempre.

4- Alerte as pessoas sobre comportamentos inadequados e forneça alternativas

As pessoas devem ser avisadas, por exemplo, de que é preciso evitar os apertos de mão em reuniões de trabalho. Sugerir formas alternativas de cumprimento (acenar, curvar-se, encostar os cotovelos etc) de cumprimento é uma boa solução.

5- Adote mensagens claras, consistentes e transparentes

Evite dar excessivo destaque aos comportamentos socialmente indesejáveis. Destaque a mudança de comportamento sempre que ela ocorrer e for positiva. Frequentemente, as pessoas adaptam seus comportamentos e crenças para se encaixar a normas sociais. Comunicar uma tendência positiva pode influenciar a mudança de comportamento de outras pessoas.

Será mesmo? De bom exemplo em bom exemplo, sigamos tentando convencer mais gente a se proteger e a proteger quem quer que cruze o seu caminho.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL