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Cristiane Segatto

Fingindo que a covid não existe? No pós-feriado, pistas do que está por vir

Vista da praia de Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro, na tarde do último domingo (6) - Wilton Junior /Estadão Conteúdo
Vista da praia de Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro, na tarde do último domingo (6) Imagem: Wilton Junior /Estadão Conteúdo
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do UOL

09/09/2020 04h00

No primeiro feriadão desde o início do relaxamento da quarentena, muitos brasileiros caíram na vida como era antes. Ignoraram a pandemia e suas restrições para encontrar um pouco de sol, gente, diversão, ar respirável.

Dá para entender esse "tô nem aí" coletivo. Seis meses de isolamento não são seis horas. As autoridades e os pesquisadores sabiam que chegaria o momento em que o instinto gregário falaria mais alto. Principalmente quando o sol começasse a brilhar.

Dá para entender, mas não dá para aceitar. Tanta gente aglomerada e sem máscara nas ruas, nos parques e nas praias é imediatismo, ignorância, desrespeito. O preço a pagar por essas e outras imprudências pode ser alto.

Perdas e danos

"As pessoas estão tranquilas e agem como se a pandemia já estivesse passando. É um erro que pode ter graves consequências", diz Antonio Vaz de Macedo, chefe da clínica de hematologia do Hospital da Polícia Militar, em Belo Horizonte.

"As taxas de infecção caíram no Brasil, mas isso não pode ser visto como um controle absoluto da pandemia. Essa queda só se manterá se as restrições forem respeitadas pela população e afrouxadas de forma gradual", afirma.

Médico militar e assistente de ensino da Harvard T.H. Chan School of Public Health, Macedo publicou na semana passada um artigo sobre a pandemia no Brasil no fórum do Journal of the American Medical Association (JAMA).

No texto, o médico faz um resumo das perdas e danos ocorridos até aqui e procura oferecer pistas do que está por vir.

Testagem em massa

Um dos pontos importantes levantados por ele em relação ao afrouxamento das medidas de restrição é a necessidade de manter uma forte vigilância epidemiológica por meio de testagem em massa e rastreamento dos contatos - algo para o qual o Brasil ainda está mal preparado.

"Uma coisa não pode estar dissociada da outra. Só assim será possível ter noção do comportamento da pandemia e perceber se há risco de uma segunda onda", afirma Macedo.

Desinformação oficial

Ao avaliar o desempenho do Brasil no enfrentamento da covid, o autor ressalta que o sistema de saúde não conseguiu acompanhar a demanda crescente. Apesar dos esforços contínuos para contornar a falta de recursos, como a construção de hospitais de campanha em uma "velocidade sem precedentes" e a dispensa dos exames de final de curso das escolas de medicina para permitir que os recém-formados trabalhassem na linha de frente.

"Para piorar as coisas, o país está mergulhado em uma turbulência política cada vez pior. O governo federal deve navegar por um delicado equilíbrio civil-militar em meio à pandemia e à sobrecarga do sistema de saúde, enquanto a população está confusa com opiniões opostas mantidas pelo governo. A inquietação não é bem-vinda em um momento em que esforços unidos são essenciais", escreve Macedo.

Em conversa com a coluna, ele destaca que o acúmulo de informações dissonantes do governo federal e as divergências entre ele e as administrações estaduais e municipais desorienta a população e contribui para que ela subestime os riscos de infecção.

"As consequências dessa confusão podem ser graves, principalmente na população mais desfavorecida e com menos acesso à informação de qualidade", diz ele.

O que está por vir

É perda de tempo esperar demonstrações de sensatez do presidente Bolsonaro, um triste caso de negacionismo por motivações políticas. Enquanto ele desfilava em carro aberto com crianças sem máscara no 7 de Setembro, o país somava mais de 127 mil mortes por covid.

"O número de notificações e óbitos ainda é alto no Brasil", diz Macedo "Não existe antiviral eficaz e a vacina vai demorar. Se as pessoas continuarem com a imprudência das aglomerações, os novos casos voltarão a crescer. Podemos ter uma segunda onda de infecções pelo mesmo vírus ou reinfecções provocadas por novas cepas, como já ocorreu na China", diz.

Chega de banalizar as mortes e negar a realidade. Mais de 127 mil pessoas perderam a vida. Seus familiares perderam o rumo. Muitas outras perdas virão. Máscara, distanciamento social e algum bom senso é o que temos para hoje.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL