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Cristiane Segatto

Sete lições da pandemia para o Brasil: falta liderança e muito mais

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Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do VivaBem

19/08/2020 04h00

O que determina o sucesso de um país na resposta à covid-19? Há vários fatores envolvidos nisso, mas um dos principais é a capacidade dos governos de conquistar a confiança da população. Se os cidadãos não se convencem da necessidade de adotar comportamentos que reduzem a disseminação do vírus, já era.

"A pandemia do coronavírus ensina que liderança é crucial", afirma Lawrence O. Gostin, professor de direito da saúde pública na Universidade Georgetown em um artigo publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA).

Dar o exemplo; falar obsessivamente sobre a importância de lavar as mãos, usar máscara corretamente e manter distanciamento social; transmitir mensagens claras, valorizar a ciência; não disseminar fake news ou teorias da conspiração é o mínimo que um governante pode fazer para zelar pela vida da população.

Atitudes racionais incompatíveis com a postura dos presidentes do Brasil e dos Estados Unidos - não por acaso países recordistas mundiais no vergonhoso ranking de mortes por covid-19. Falta liderança e muito mais.

Goslin elenca as sete grandes lições da pandemia. Destaco os pontos principais levantados por ele no artigo porque todos fazem muito sentido ao Brasil. Se queremos ter uma saúde melhor, que tal valorizar líderes que comecem por aqui?

Construa sistemas de saúde resilientes

De todos os elementos relacionados à capacidade de resposta à pandemia, o mais importante é ter um sistema de saúde resiliente, com capacidade e agilidade para detectar, avaliar, reportar e responder a novos surtos.

O Regulamento Sanitário Internacional (RSI), que rege a resposta à pandemia, exige que todos os países tenham capacidades básicas de sistema de saúde, incluindo vigilância, laboratórios, recursos humanos e comunicação de risco. Os sistemas de saúde também precisam de capacidade para testar, diagnosticar e tratar doenças infecciosas.

Embora os países de alta renda tenham sistemas de saúde robustos, muitos não tiveram capacidade suficiente para tratar um grande número de pacientes com covid-19 ou para proteger os profissionais de saúde. Nos EUA, hospitais e governadores tiveram que competir pelo acesso a ventiladores e equipamentos de proteção individual.

Tenha líderes que inspirem confiança

A pandemia do coronavírus ensina que liderança é crucial. Talvez o maior indicador de sucesso na resposta à pandemia tenha sido a capacidade de ganhar a confiança do público. Comportamentos de saúde adotados pela população (lavar as mãos, usar máscara corretamente, cuidar da higiene pessoal e manter distanciamento físico) podem reduzir significativamente a disseminação do vírus pela comunidade.

Defenda a integridade da ciência e das agências de saúde pública

A ciência permitiu que as sociedades compreendessem o vírus, seus modos de transmissão e as intervenções de saúde pública eficazes. Poucas semanas após relatos de um grupo de casos de pneumonia atípica em Wuhan, China, os cientistas sequenciaram o vírus. Rapidamente, os laboratórios de pesquisa desenvolveram testes de detecção do vírus e de anticorpos. Em seis meses, há seis candidatas a vacina em fase 3 de ensaios clínicos.

Apesar da descoberta científica notável, embora incompleta, líderes políticos populistas semearam a dúvida sobre o valor da ciência e minaram as agências de saúde pública. No Brasil e nos Estados Unidos, por exemplo, os líderes políticos recomendaram publicamente tratamentos sem eficácia comprovada.

Se eles falham na adoção de políticas baseadas em evidências científicas ou na transmissão de mensagens consistentes com base na ciência, a resposta à covid-19 sempre ficará abaixo do ideal.

Invista em pesquisa e desenvolvimento biomédico

Os governos devem investir de forma sustentável em pesquisa e desenvolvimento biomédico, não apenas durante uma crise de saúde, mas também durante os períodos entre uma pandemia e outra. O plano de pesquisa e desenvolvimento para covid-19, uma iniciativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostra que há uma grande necessidade de investimento para desenvolver vacinas e tratamentos seguros e eficazes.

Trabalhe para reduzir iniquidades

A pandemia evidenciou as desigualdades sociais, econômicas e de saúde. As infecções e mortes pelo novo coronavírus afetaram desproporcionalmente os cidadãos de baixa renda. Enquanto a classe média e alta pode trabalhar em casa, de forma segura, os mais pobres perderam renda, empregos e moradias. Não é surpreendente que os protestos Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) tenham coincidido com a pandemia. Em todos os lugares, as populações expressam raiva contra antigas injustiças econômicas, sociais e de saúde.

Proteja o Estado de direito

Leis autorizam os poderes de saúde pública a testar, rastrear, isolar e colocar em quarentena. Esses poderes tradicionais podem ser expandidos em emergências declaradas. A resposta à covid-19 foi além de qualquer coisa vista desde a pandemia de influenza de 1918-1919. Antes, era inimaginável que o governo pudesse bloquear uma cidade inteira do tamanho de Nova York ou Los Angeles.

Em resposta à expansão do poder político em países como Rússia, Turquia e Hungria, as Nações Unidas lançaram um projeto de Estado de direito na pandemia. Os poderes de saúde emergencial devem ser baseados em evidências e usados apenas quando não houver alternativas menos restritivas. A usurpação do poder sob o pretexto de uma crise de saúde ameaça erodir as liberdades democráticas, que podem perdurar mesmo após o fim da crise.

Financie e apoie instituições globais: estamos juntos nessa

Uma ameaça compartilhada pelo mundo inteiro, como a covid-19, deveria unir pessoas e nações. No entanto, ela prejudicou as relações internacionais. Em meio a uma pandemia histórica, duas superpotências - China e Estados Unidos - culparam uma à outra e até a Assembleia Mundial da Saúde. Em julho, o presidente Trump notificou o secretário-geral da ONU de que os EUA se retirariam da OMS.

Por outro lado, também há sinais promissores de cooperação internacional. Parceiros públicos e privados uniram-se à OMS em torno de uma colaboração global para acelerar a pesquisa, o desenvolvimento, a produção e o acesso equitativo aos testes, tratamentos e vacinas.

Os governos e as instituições internacionais têm escolhas claras a fazer sobre a melhor forma de responder à covid-19 e se preparar para futuras pandemias. Escolher a ciência, o Estado de direito e a equidade como valores essenciais seria transformador.

A construção de sistemas universais de saúde não apenas prepararia os países para a resposta à epidemia, mas também melhoraria muito a saúde e o bem-estar de todas as pessoas. Em todo o espectro de ameaças à saúde enfrentadas pela humanidade.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL