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"É libertador", diz soropositivo que teve filho sem reprodução assistida

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do VivaBem

29/07/2020 04h00

Na semana passada, minha coluna questionava por que médicos ainda encaminham casais sorodiscordantes (ou sorodiferentes) para HIV à reprodução assistida.

Nos últimos anos, vários estudos de grande relevância científica comprovaram que pessoas com carga viral indetectável não transmitem o vírus da aids por via sexual. Ou seja: indetectável é igual à intransmissível (I=I).

Sendo assim, soropositivos com carga viral indetectável podem ter filhos naturalmente (sem risco de transmitir o HIV à parceira ou ao bebê). Na prática, porém, mais de 60% dos profissionais de saúde participantes de uma pesquisa brasileira disseram que encaminhariam esses casais à reprodução assistida (detalhes no link acima). Uma prática que, nesses casos, acarreta riscos e gastos financeiros desnecessários.

É preciso falar sobre isso

Decidi continuar a abordar o tema depois de ouvir a história do publicitário L.M. e da fotógrafa J.B. Ele é soropositivo, ela não. Recém-separado, o casal que pede para não ser identificado viveu uma relação de quatro anos. E teve um filho, de 2 anos e quatro meses, de forma natural.

"Quando começamos a namorar, uma das primeiras coisas que ele me contou foi sobre o HIV", afirma a fotógrafa J.B. "Para mim, tudo foi sempre muito tranquilo. Sabia que ele tomava os remédios e que indetectável é igual a intransmissível", diz.

Ela lamenta que médicos ainda insistam em recomendar reprodução assistida a casais sorodiscordantes. "É uma ignorância profunda. Acho triste que os profissionais tenham essa postura em 2020 e os casais não a questionem", diz J.B. "Eles precisam se informar melhor".

Aos 36 anos, L.M. recebeu o diagnóstico em 2010 e mantém a carga viral indetectável desde o início do tratamento. No depoimento a seguir, ele descreve a sensação de descobrir que não transmitia o HIV e poderia ter filhos naturalmente: "É libertador", diz.

"A gravidez foi no susto"

Estávamos morando em Portugal porque fui trabalhar na produção de uma série em Lisboa. Transávamos sem camisinha desde o início do nosso relacionamento. Falamos sobre HIV apenas uma vez, logo que nos conhecemos. O conhecimento de que indetectável equivale a intransmissível sempre esteve cristalizado entre nós. Fazíamos a tabelinha. Um dia esquecemos disso e ela engravidou. Não planejamos. A gravidez foi no susto, mas deu tudo certo. Na volta ao Brasil, ela fez os testes de HIV que toda mulher deve fazer na gestação. Nosso filho, com 2 anos e 4 meses, está entrando na escola.

"É libertador"

O maior medo da maioria das pessoas que tem o HIV é o de transmitir o vírus. É um fardo que você carrega. Descobrir que não transmite é libertador. Quando recebi meu diagnóstico, há quase 10 anos, tinha uma namorada. O pânico que senti enquanto o resultado do teste dela não saía foi uma das coisas mais horríveis que experimentei na vida. Ninguém quer transmitir uma doença a alguém. Existem os loucos que andam sem máscara por aí, mas, em geral, quem tem um vírus tende a se auto-isolar por medo da transmissão. Quando você tem uma doença que é socialmente percebida como grave, isso fica ainda mais forte.

"O início foi terrível"

Quando recebi o diagnóstico, em 2010, fui parar em um médico que me deu um coquetel desatualizado. Os efeitos colaterais eram terríveis. No primeiro dia, já tive vômitos e diarreia a cada refeição. Chegava ao ponto de tomar água e vomitá-la em seguida. Defecava na rua, passava humilhação. Emagreci 15 quilos. Minha família chorava, associava a minha magreza à evolução da doença. No meu caso, o problema não era a doença. Eram os efeitos colaterais dos remédios.

"Fiz de tudo para aguentar"

Fui ao gastroenterologista e à nutricionista. Mudei os alimentos. Fiz de tudo para aguentar, mas continuava magro e fraco. Achei que havia alguma coisa errada e decidi procurar outro infectologista. Ele olhou para mim e disse que a primeira coisa que faria seria trocar o coquetel de medicamentos. Melhorei em 24 horas. A primeira coisa que eu fiz foi comer um prato enorme de salada (algo que passei meses sem conseguir comer) e algumas outras coisas gordurosas. Não tive mais diarreia. Minha vida mudou. Fiquei chocado e me perguntando por que o primeiro médico me fez passar por todo aquele sofrimento sem necessidade.

"Não sabia que não transmitia"

Minha carga viral tornou-se indetectável no primeiro mês após o diagnóstico, mas até ali não havia todos os estudos que, nos últimos anos, comprovaram que indetectável é igual à intransmissível (I=I). É interessante notar que quase nada na ciência foi tão comprovado e "recomprovado" quanto o I=I. Há uma necessidade social e médica de reafirmar isso de todas as maneiras. Àquela altura, a recomendação do meu médico ainda era transar de camisinha. Ele dizia: "se não incomodar, transe de camisinha". Eu não questionava nada. Não sabia que não transmitia. Para mim, o uso da camisinha era natural.

"O grande dilema: contar ou não contar?"

Sempre há o dilema sobre contar ou não contar que tem o HIV. Tem gente que opta por não contar. O médico sugeria que eu contasse apenas para a mulher da minha vida. Dizia que poderia haver preconceito e sofrimento desnecessário. Eu achava que devia contar. Em geral, houve boa receptividade quando contei às namoradas que tive. Uma menina me rejeitou completamente. Disse que era uma coisa horrível. Outra, depois de transar de camisinha, entrou em pânico. Todas as que vieram depois aceitaram numa boa.

"Fiquei desesperado"

Para uma delas, decidi não contar. No meio do sexo, ela tirou minha camisinha. Fiquei desesperado. Até ali eu não sabia que indetectável era intransmissível. No dia seguinte, marquei uma consulta. Perguntei como eu deveria contar e se ela deveria começar a tomar a profilaxia. O médico virou para outra infectologista que estava na sala e perguntou: "E aí? Contamos para ele agora?". Então ele me contou que eu não havia transmitido nada a ninguém. Que eu poderia ter transado o tempo todo sem camisinha e, ainda assim, não transmitiria. Não entendi nada. Foi quando ele mostrou os exames e explicou os estudos mais recentes. Para mim, foi uma mudança de paradigma.

"Por que não falam sobre isso?"

Perguntei por que ninguém falava sobre isso abertamente. Na imprensa e em todos os lugares. Ele disse que sair falando naquele momento poderia não ser moralmente aceito. As pessoas não entenderiam, iriam criticar. Havia aquele entendimento científico, mas era algo que ainda estava caminhando. Isso faz uns 7 anos.

"Falta muita informação"

Os estudos já acompanharam mais de 80 mil pessoas. As evidências são sólidas. Está provado que pessoas com carga viral indetectável não transmitem o HIV por via sexual. É preciso falar sobre isso de maneira natural. Falta informação. Hoje é quase impossível que uma pessoa que faça o tratamento de maneira consciente não fique com a carga viral indetectável. Se não fizer o tratamento direito é outra história. Aí pode transmitir o vírus e ainda favorecer a geração de resistência do HIV ao remédio.

"Tem muito médico ruim"

Existem médicos que têm medo de transmitir esse conhecimento aos pacientes. Na verdade, tem muito médico ruim. Profissionais que não sabem ler estudos científicos e não conseguem tirar as conclusões corretas. Não sabem diferenciar a qualidade dos estudos científicos. Como encontrar um bom médico é algo que todos nós deveríamos aprender na escola. Por que será que todo mundo pede aos amigos a indicação de um bom médico? Qual é a origem disso? O fato é que a gente aprendeu que não dá para confiar em todos os médicos.

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