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"Na guerra política dentro da pandemia, o SUS precisa sair fortalecido"

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do VivaBem

03/06/2020 04h00

A cearense Ilda Angelica Correia nasceu, mora e trabalha no bairro Boa Esperança, em Maracanaú, região metropolitana de Fortaleza, uma das capitais com maior número de mortes por covid-19. Em entrevista ao VivaBem, a presidente da Confederação Nacional dos Agentes Comunitários de Saúde e de Controle de Endemias (Conacs), fala sobre a realidade enfrentada por esses profissionais na linha de frente de combate ao novo coronavírus. Os agentes de saúde são uma força de trabalho essencial no Sistema Único de Saúde (SUS). Cerca de 400 mil profissionais atuam em todos os municípios do Brasil e cultivam um importante patrimônio: a confiança da população.

VivaBem: Qual é a importância dos agentes comunitários de saúde (ACS) e dos agentes de controle de endemias (ACE) na pandemia?

Ilda Correia: Nossa principal atividade é a educação em saúde. Fazemos promoção de saúde e prevenção de doenças. Nossa arma é a informação. Conhecemos todas as famílias em determinado território e temos a confiança delas. A população recebe uma enxurrada de informação pela mídia e pelas redes sociais. No meio disso, há fake news e histórias fantasiosas. Nós levamos a informação real e procuramos acalmar as pessoas.

VivaBem: Como acalmá-las se a realidade é, de fato, assustadora?

Ilda Correia: O povo está apavorado e nós também, mas a nossa responsabilidade fala mais alto. Mudamos muito os hábitos das nossas visitas. Hoje ficamos da porta da casa para fora e mantemos dois metros de distância de cada pessoa. Explicamos que elas precisam lavar as mãos, ficar em casa, sair apenas se for realmente necessário, usar álcool gel.

VivaBem: Qual é o estado emocional da população atendida por vocês?

Ilda Correia: O povo está adoecendo psicologicamente. Muita gente precisando de remédio para dormir, entrando em depressão, procurando consulta nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Pessoas que eram ditas sadias antes da pandemia agora precisam de medicação – inclusive agentes comunitários. Os idosos estão depressivos. Eles se sentem abandonados e discriminados. Vizinhos não querem passar perto da casa de quem testou positivo para covid-19. Todo mundo se afasta, aponta o dedo. Isso tudo abala o psicológico. Temos grupos de Whatsapp para acompanhar nosso público prioritário (hipertensos, diabéticos, etc). Procuramos conversar todos os dias. Temos a lista de transmissão de covid-19 e fazemos o monitoramento, até por videochamadas. Usamos todos os meios possíveis para fazer nosso trabalho.

VivaBem: Qual é sua avaliação sobre a forma como o governo federal lida com a pandemia?

Ilda Correia: É de uma irresponsabilidade sem precedentes. Chega a ser vergonhoso. É lamentável que a gente tenha um governo como esse em meio a uma crise sanitária tão grave. Estamos tentando transmitir as informações corretas aos cidadãos e o presidente, que deveria dar o exemplo, toma atitudes e diz coisas na contramão de tudo. Isso atrapalha demais quem está trabalhando. Somos indagados pela população se é preciso mesmo tomar tantos cuidados, já que o presidente diz que não precisa. VivaBem:

Como vocês respondem a quem pergunta?

Ilda Correia: Procuramos explicar que o presidente não tem a informação verdadeira. O objetivo dele é outro. Não é zelar pela vida e pela saúde. Ele está colocando o lado econômico, do dinheiro, acima da vida. Ele tem ainda muitos seguidores. Há pessoas fanáticas. Por outro lado, vemos que um grande número de cidadãos está percebendo que existe uma guerra política dentro dessa pandemia. Os políticos, em sua grande maioria, querem tirar proveito da situação. Um desses políticos, infelizmente, é o presidente da república. Ele deveria ser o exemplo para todos nós. Deveria dizer “fique em casa”, “lave as mãos com água e sabão”, “use máscara”.

VivaBem: Quais outras preocupações ele deveria ter?

Ilda Correia: O presidente deveria estar preocupado com as comunidades que não tem acesso à água para lavar as mãos. Deveria estar preocupado em saber como as pessoas vão fazer isolamento em comunidades onde seis pessoas dividem casas de um cômodo. Onde os banheiros não têm a menor condição. Em vez de se preocupar com isso, ele faz oba-oba no meio do povo. Vai contra a saúde, os estudiosos, a ciência, a justiça. Isso tudo é mais um motivo para os agentes comunitários irem às ruas fazer seu trabalho. Não somos simplesmente profissionais de saúde. Somos formadores de opinião.

VivaBem: A falta de equipamentos de proteção individual (EPI) para os agentes de saúde é generalizada no Brasil?

Ilda Correia: Para os governos, os profissionais de saúde são apenas os médicos e o pessoal de enfermagem. Nós também estamos no front. Antes de o paciente chegar à unidade básica de saúde (UBS) ou ao hospital, o agente já esteve na casa dele. Estamos em risco constante. Precisamos de máscara, avental, álcool gel, óculos, gorro. Há prefeituras entregando apenas máscaras de tecido aos agentes. Logo no início da pandemia, pedimos ao Ministério da Saúde máscaras N95 para todos os ACS e ACE do país. Nossas solicitações não foram respondidas. Estamos trabalhando no peito e na raça.

Ilda Angelica Correia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

VivaBem: Como vocês se sentem com isso?

Ilda Correia: Tristes. Somos discurso de político. Dizem que somos essenciais, a raiz do SUS etc. Cadê a nossa importância em uma hora como essa? Cadê a preocupação em proteger esses profissionais? Não temos EPI e não recebemos capacitação. O que sabemos sobre a doença é o que conseguimos acompanhar na grande mídia ou pesquisamos por conta própria.

VivaBem: O Brasil é recordista em mortes de médicos e pessoal de enfermagem por covid-19. Quantos agentes de saúde perderam a vida nesta pandemia?

Ilda Correia: Todos os dias nós estamos perdendo companheiros. Não temos números oficiais, mas fizemos um levantamento por meio das nossas lideranças nacionais. Estamos inaugurando um painel em homenagem aos colegas que se foram. Temos registros de mortes no Ceará (10 profissionais), na Bahia (6), em Pernambuco (4), no Rio (6), em São Paulo (4), no Amazonas (9), no Pará (5), no Maranhão (2) e em Roraima (1). São números subestimados. A realidade deve ser bem pior.

VivaBem: Em que situações a confiança que a população deposita nos agentes comunitários se torna evidente?

Ilda Correia: Somos parte da própria comunidade. Estamos à disposição dela 24 horas por dia. Por lei, são oito horas de trabalho, mas estamos dentro do território em tempo integral. As pessoas depositam uma enorme confiança na figura do agente comunitário. O hipertenso vai à UBS e o médico decide trocar o remédio. A enfermeira e o técnico não questionam. O paciente volta para casa com a receita e o medicamento, mas não toma antes de ouvir o agente de saúde. Eles perguntam: “Minha filha, isso está certo mesmo?” Esse exemplo vale para todos os assuntos.

VivaBem: Alguns exemplos?

Ilda Correia: Sabemos de coisas profundas da vida das nossas famílias. Se há maus tratos em uma família ou violência contra a criança e a mulher, somos os primeiros a tomar conhecimento. Sabemos quem usa drogas e quantos desempregados há em cada casa. Se a adolescente engravida, é comum que a gente saiba antes da mãe. Temos conhecimento do marido que trai a mulher, da mulher que trai o marido e de tantas outras coisas.

VivaBem: Além das questões de saúde, conversam sobre outros assuntos?

Ilda Correia: Em época de eleição, o agente de saúde é consultado. As pessoas perguntam: “E aí, quem é o nosso candidato?” Esse não é o nosso papel, mas acaba sendo porque a política interfere diretamente no nosso trabalho e no desenvolvimento das políticas públicas. O ACS é muito completo. Ele é psicólogo, médico, enfermeiro, assistente social, advogado, padre. Precisamos ser valorizados.

VivaBem: Essa força de trabalho está sendo bem utilizada nesta pandemia?

Ilda Correia: Muitos municípios usam essa mão de obra de forma indevida. Em vez de manter esses profissionais nas áreas, levando informação e acompanhando as famílias, há locais que colocam os agentes de saúde para organizar fila de banco. O auxílio de R$ 600 foi terrível porque aumentou a propagação do vírus. O povo precisa desse dinheiro, mas o governo tinha que ter criado outra forma de dar acesso a ele, sem obrigar as pessoas a ficar em fila de banco. Nosso foco não é esse. Nosso foco é a informação para a prevenção. Prevenir é mais barato que tentar a cura de uma doença que não tem remédio. Os agentes comunitários de saúde têm ideias. É lamentável que não participem dos comitês de enfrentamento da covid-19.

VivaBem: O trauma dessa pandemia levará à valorização do SUS?

Ilda Correia: O coronavírus é muito negativo para todos, mas se existe algo positivo é a visibilidade que o SUS está recebendo neste momento. Passamos anos lutando para mantê-lo vivo e vendo governos querendo aniquilá-lo. Hoje o SUS é o grande herói dessa história toda. Todo mundo fala da importância dos hospitais públicos. Ninguém está falando muito dos profissionais da rede particular. Na guerra política dentro da pandemia, o SUS precisa sair fortalecido. Espero ver também várias mudanças de hábito da população. Essas são as coisas boas que devem ficar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL