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Taise Spolti

Qual a relação entre saúde intestinal e mental, comportamento e peso?

Yunmai/Unsplash
Imagem: Yunmai/Unsplash
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Taise Spolti

Formada em educação e em nutrição, Taise Spolti é ex-fisiculturista e participou do programa Masterchef, da Band. Em sua coluna, traz receitas que aliam ingredientes saudáveis à gastronomia, além de mostrar como a alimentação equilibrada, a prática de exercícios e outros bons hábitos são essenciais para trilhar o caminho da saúde e do bem-estar físico e mental.

Colunista do UOL

05/06/2022 04h00

Se tem um assunto que sempre está no "top list" da nutrição, dos profissionais da saúde e da população no geral, que busca por saúde e qualidade de vida, é a microbiota intestinal.

Como em outras matérias que escrevi aqui na minha coluna do VivaBem, eu gosto de lembrar que microbiota não existe apenas no intestino, mas também na pele, na língua e em outras áreas do nosso corpo. Microbiota é o termo usado para denominar uma determinada colonização de microrganismos que convivem naquela área e que desempenham papeis fundamentais.

No caso da microbiota intestinal, já sabemos que sua manutenção e equilíbrio afeta toda a nossa saúde, seja na resposta alérgica e imunológica, seja no humor, na absorção de nutrientes, nas defesas do nosso corpo, na metabolização dos nutrientes essenciais ao nosso organismo, e também no peso (ganho, perda e reganho do peso perdido em pacientes com obesidade ou sobrepeso). A relação entre microbiota intestinal e todo o restante do nosso organismo já é um fato confirmado pela classe científica, e diariamente temos novas descobertas.

No mês de maio aconteceu um grande evento que uniu pesquisadores, professores, profissionais da saúde, envolvendo o assunto da minha abordagem de hoje, o eixo intestino-cérebro: o Gutbrain, congresso internacional especializado na relação cérebro e intestino, no Centro de Exposições Frei Caneca, em um evento hibrido.

Alguns assuntos extremamente importantes fizeram parte do evento, como as questões comportamentais da nossa sociedade, que enfrenta uma busca pelo controle da obesidade, ao passo que enfrenta as dificuldades no sucesso da perda de peso, visto que algumas práticas —nada saudáveis— fazem parte da rotina de quem está nessa jornada: uso de medicamentos anorexígenos sem prescrição ou de forma descontrolada, alimentação desequilibrada, restrições excessivas, dietas realizadas sem acompanhamento, e outras condições que afetam mais ainda o estado clinico do paciente, ao invés de ajudar na perda de peso, especificamente.

Conversei então com uma das organizadoras do evento, a Lais Murta, nutricionista, e com Daniela Seixas, também nutricionista, que abordou a crononutrição e prescrição magistral na prática clinica.

Para contextualizar, disbiose e síndrome do intestino irritável são as duas maiores batalhas na área clinica nutricional. Um número grande de pacientes com diversas queixas e sintomas clínicos são acometidos pela desregulação da microbiota intestinal, causando-lhes efeitos adversos em toda sua saúde, e que também se acumulam durante anos, tendo como suspeita outras patologias, erroneamente. A disbiose é uma condição que vai afetar ao longo dos anos os pacientes.

Segundo Lais (CRN329040), os principais erros cometidos na suplementação magistral em indivíduos com disbiose, ou que procuram o profissional para melhorar sua saúde intestinal, são:

1. Consumo excessivo de proteínas, incluindo suplementos proteicos: o excesso de proteína pode gerar disbiose, aumentando as espécies de bactérias proteolíticas que estão associadas à inflamação crônica de baixo grau;

2. Baixa ingestão de carboidratos: os carboidratos complexos (presentes em grãos integrais, vegetais) são fundamentais para a produção de ácidos graxos de cadeia curta, que são fundamentais para a saúde intestinal, imunidade e saúde mental;

3. Suplementação de probióticos sem orientação: muitos dos suplementos de probióticos não possuem comprovação de eficiência e podem estar associados à disbiose intestinal, em especial a SIBO (Super Crescimento Bacteriano no Intestino Delgado).

Além disso, as cepas mais utilizadas nestes suplementos são grandes produtoras de D-lactato, substância associada com problemas neurológicos, dor crônica e depressão.

Outro ponto a ser debatido é quanto ao uso de medicamentos para emagrecer, que vira e mexe entram na moda dentro de clinicas famosas e nas clandestinas também. Medicamentos devem ser apenas prescritos por médicos, já a suplementação de outros ativos pode ser facilmente encontrada inclusive na internet, o que leva a uma facilidade de compra por quem procura. Ambos afetam nossa saúde intestinal, e não somente ela, mas todo nosso organismo. Com o uso indicado e controlado, de forma profissional, os benefícios estão em uma lista grande.

"Quando pensamos em suplementação, de forma geral, precisamos de muita cautela. O ideal sempre é buscar uma individualização. Todo suplemento usado sem necessidade ou de forma errada pode causar danos à saúde. No caso dos suplementos associados à estética, os principais prejuízos geralmente estão associados ao aumento do dado oxidativo (aumento da produção de radicais livres), sobrecarga do sistema de detox (o que inclui o sistema gastrointestinal). Não necessariamente à disbiose. Mas vale lembrar que os suplementos são importantes em muitos casos, só precisam ser utilizados da forma adequada às necessidades individuais", diz Lais Murta, nutricionista.

Na rotina diária, que vemos inclusive nas redes sociais, a busca por aceleradores de resultados estéticos é uma realidade (hormônios anabólicos, anorexígenos, inibidores de apetite etc.), tanto para praticantes assíduos de atividades físicas que se inspiram em modelos fitness e atletas, como em sedentários e pessoas que se enquadram no perfil "já tentaram de tudo", seja por meio da indicação médica ou por meio de internet, indicação e compra irregular.

Isso se dá pelo perfil social que estamos vivendo, pessoas estressadas, aceleradas, sofrendo com estresse crônico, alterações de humor, sono e apetite, e que acabam causando implicações em toda a saúde, por isso observamos comportamentos comuns: baixo rendimento, muitas reclamações de insônia, cansaço, apetite alto, busca por alimentos cada vez mais industrializados e de fácil consumo, alto consumo de medicamentos para dormir, para ansiedade, e também alto consumo de medicamentos para dor crônica.

Segundo Lais e Daniela, "a síndrome do intestino irritável (SII) é um distúrbio clínico comum e o desenvolvimento dos seus sintomas está fortemente relacionado ao estresse, ansiedade e depressão. O estresse crônico provoca uma alteração no funcionamento do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) e do sistema nervoso simpático, o que contribui para a alteração da composição da microbiota intestinal, redução da produção de enzimas digestivas e ácidos biliares e alterações na permeabilidade intestinal. Com isso, podemos ter prejuízos digestivos, má absorção de nutrientes, levando às deficiências, alterações emocionais e alterações do funcionamento gastrointestinal como um todo".

E já sabemos, mas nunca é demais relembrar: levar um estilo de vida em equilíbrio é o principal, e não estamos apenas falando em alimentação natural e atividade física, mas priorização do sono de qualidade, descanso, lazer e atividades de controle do estresse.

Levando em consideração essa realidade acelerada e estressada da nossa sociedade, e que quando há uma busca pela melhora dos hábitos, e da saúde, para consequentemente melhora da composição corporal, os indivíduos podem recorrer a meios nada saudáveis, como dietas da moda extremamente restritivas em nutrientes, substituições de alimentos por produtos, uso inadequado de medicamentos, fitoterápicos e suplementos.

Perguntei a Lais se ela acha que o somatório desses hábitos pode estar afetando a saúde mental dos indivíduos, ou é a saúde mental que está afetando os hábitos.

"Com certeza! Vivemos uma era da produtividade, por isso temos que ser multitarefas, queremos fazer várias coisas ao mesmo tempo. Somos bombardeados por muita informação ao mesmo tempo e as redes sociais são idealizadas para gerar desejo e comparações, fixando nossa atenção e nos fazendo querer cada vez mais coisas —o que fará com que tenhamos que trabalhar/ treinar cada vez mais, comer cada vez menos, buscar medicamento milagrosos", disse.

Ela continuou: "Alto rendimento não significa eficiência e, na maioria das vezes, exigimos do nosso corpo um esforço além do que fomos preparados fisiologicamente para aguentar. Observamos um aumento da incidência da síndrome de burnout, transtorno de ansiedade, SII e depressão. Precisamos desacelerar e entender que nosso corpo não é uma máquina, que precisa de uma pausa e cuidados para aguentar a rotina de forma eficiente. Por isso a necessidade de buscar profissionais sérios que auxiliem neste processo."

Lais Murta: nutricionista clínica, mestranda em ciências da saúde no IEP Sírio Libanês, pós-graduada em fisiologia do exercício pela EPM/Unifesp (Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo) e em nutrição clínica funcional na VP Consultoria; membra da ISNPR (International Society of Nutritional Psychiatry Research).

Daniela Seixas: nutricionista graduada pela UFPR (Universidade Federal do Paraná), mestrado e doutorado em ciências bioquímica pela UFPR, pós-doutorado pela EEFE-USP (Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela FCF-USP (Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo), pós-doutorado pelo Scripps Research Institute - SD - California (EUA), autora do livro "Compostos Bioativos dos Alimentos".