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Taise Spolti

Sentir, pensar e agir: o que fazer em um ataque de compulsão alimentar

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Taise Spolti é formada em educação física e, atualmente, estuda nutrição. Já foi fisiculturista profissional e hoje tem interesse em aliar sua rotina alimentar à gastronomia. Costuma dizer que não se satisfaz com pratos pequenos ou sabores comuns. Participou do programa ?Masterchef?, da Band, onde pode mostrar em rede nacional suas receitas.

Taise Spolti

Colunista do UOL

03/10/2021 10h57

A compulsão alimentar é uma condição do transtorno alimentar que afeta, infelizmente, cerca de 5% da população brasileira, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). Entre os adolescentes e jovens, esse número pode aumentar para até 10%.

Sabemos que a rede social tem grande peso em cima desse comportamento. Ela pode ter origem multifatorial, incluindo social, genético, trauma, cultural, psicológico, e está diretamente relacionado a ansiedade e depressão.

Dito isso, podemos ver a interação entre o que chamamos de 'comer emocional', quando um indivíduo come compulsivamente apenas para saciar uma necessidade ou anseio emocional e psicológico. Infelizmente, um dado alarmante que nós, profissionais da saúde, observamos é que o maior gatilho da compulsão alimentar é exatamente a restrição prolongada com fins estéticos, isto é, dietas restritivas para perda de peso.

A compulsão pode ou não ser precedente para atos compensatórios, ou seja, o que vem depois do momento da compulsão: geralmente bulimia. Em muitos casos a bulimia não está presente, porém o ciclo da compulsão se faz de tal forma que atrapalha, inclusive, a vida social do indivíduo.

Um gatilho gera a resposta imediata a compulsão. O indivíduo come sem pensar ou sequer mastigar, além do possível, e o corpo dá sinais de excesso de ingestão. Com isso, inicia-se o mal-estar pela quantidade de comida somado ao mal-estar pelo ocorrido. Neste momento dá-se inicio a frustração, culpa, dor física (nos casos de maior excesso de consumo), sentimentos negativos e sensação de fracasso.

Falar em compulsão alimentar pode ir muito além da discussão de como começou, quando começou, quais são o gatilho, mas algo que é importante falarmos é de como agir no momento em que ocorre, ou seja, o instante exato que se inicia um ataque compulsivo. Nesta matéria, é exatamente isso que eu gostaria de discutir.

Primeiro passo: sinta

Você já notou que desaprendemos sobre o "sentir"? Na verdade, aprendemos que não devemos sentir, que sentir é fraqueza, que sentir algo pode ser um atraso e que em determinado momento da vida precisamos parar de sentir e deixar para depois. Nos foi ensinado que o sentimento atrapalha na decisões. Eu te digo (e não só eu, mas toda classe cientifica): sinta.

Constantemente, fugimos do sentimento que nos assola e, por não saber sentir e compreender o próprio sentimento, viciamos nosso corpo pela busca de resoluções externas para afagar a emoção. Nosso corpo sente, e ao sentir, fugimos imediatamente até encontrar algo que acalme determinado sentimento, é assim que é.

Muitas pessoas que possuem TCA (Transtorno da Compulsão Alimentar) relatam que tristeza e frustração são seus principais gatilhos para buscar na comida um afago.

Então aprenda a sentir. Sinta as emoções, entenda o que está acontecendo, permita-se parar, sentir e, então, tomar uma decisão baseada naquilo que você tem em mãos no momento que se dá o ataque, antevendo a ingestão exacerbada de alimentos fáceis e acessíveis.

Segundo passo: pense

"Pense no que está sentindo". Parece estranho? E é mesmo. Se não soubermos o motivo pelo qual aquele sentimento apareceu e se instalou, não saberemos do que se trata —muito menos distinguir qual ação gerou a reação no seu organismo e sistemas.

Muitas ações estão no nosso controle, podemos controlar nossa rotina e eventos que se baseiam na nossa vida, mas eventos externos não estão ao nosso alcance, e são eles que nos causam sentimentos frustrantes que podem servir de gatilho. Então, entender o que está passando já é meio caminho andado.

Ao pensar, você cria um tempo entre o sentir e o atacar que pode ser crucial na escolha do alimento ou na escolha daquilo que servirá de afago para o que se sente. Dois minutos bastam para fazer com que seu anseio diminua e, nesse tempo, que pode ser o tempo de esquentar uma comida ou de abrir o aplicativo de delivery, você consegue visualizar outra opção que pode se tornar mais prática e mais saudável para si mesmo.

Terceiro passo: aja

Após sentir, entender e compreender seu sentimento, parar para pensar sobre o que lhe fez sentir determinado sentimento, e o que aquilo está lhe causando, o ultimo passo é realmente agir.

Digamos que você esteja sentindo tristeza pela da perda de um animal de estimação, por exemplo, e você já conseguiu sentir e pensar sobre isso durante alguns minutos. Enquanto distingue a sua real necessidade, o último passo é agir perante sua dor e sua tristeza com base na sua própria análise do ultimo minuto.

Ao chegar nesse ponto, você pode, inclusive, descobrir que não está com fome, não está com sede, e que precisa apenas de silêncio, um abraço, falar pelo telefone com alguém que ama ou, então, escrever alguma coisa na sua agenda ou planejador semanal. Isso já pode ser suficiente para amenizar sua dor.

Colocar sentimentos para fora é o mais eficiente. É nesta etapa, ao desabafar, seja conversando ou chorando ou escrevendo, que você ameniza um episódio de compulsão alimentar —diminuindo também a chance de causar um dano físico, uma frustração, uma má digestão ou outro efeito colateral do ataque.

Esteja atento e repita: sentir, pensar e agir.

Repita novamente: sentir - pensar - agir.