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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dia dos Namorados, relacionamentos duradouros e o envelhecimento

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

13/06/2022 04h00

No Brasil, comemorou-se mais um Dia dos Namorados. Lojas, motéis, floriculturas e restaurantes celebraram tanto quanto as pessoas que estão envolvidas em relacionamentos e que se consideram enamorados e enamoradas. É um mês de muita fartura para o comércio ligado aos bens materiais comumente consumidos nessa data.

Mas o que se pode refletir sobre relacionamentos que duram anos? Como pessoas conseguem se envolver e, algumas vezes, separar o amor do tesão? Como considerar o sexo parte da sexualidade para quem está em um relacionamento de longa data? Como equilibrar formas de amar quando há inúmeras demandas do cotidiano acontecendo simultaneamente, desde os cuidados com filhos e filhas, netas e bisnetos, o autocuidado, o planejamento financeiro para curto, médio e longo prazos, o crescimento pessoal, e os relacionamentos afetivos com outros membros da família e amigos?

Será que ainda vale apostar na ideia da nossa "cara metade" e de que só estamos felizes quando a essas duas metades se encontram? Estatisticamente não poderiam existir "outras metades"?

O que se presencia nesses últimos anos, de forma mais aberta e aceita por parte da sociedade, são as novas formas de relacionamentos, presenciais, à distância e híbridos, com uma ou mais pessoas envolvidas. E para que relacionamentos se mantenham saudáveis e "calorosos", a ponto de sentir prazer e soltar sorrisos durante um beijo ou um abraço dado ou recebido, é preciso, para além da dedicação e da vontade, a desconstrução de valores impostos que envolvem a vida a dois e do estereótipo negativo que busca tornar a pessoa assexuada na medida que envelhece.

Outras vezes é necessária a aceitação das mudanças físicas e fisiológicas quando, principalmente, ela ou ele não se dispõe a manter uma condição de saúde ou de vida que garanta as mínimas condições para desfrutar os prazeres de corpos, mentes e espíritos que se atraem e não apenas cumprem os contratos sociais de esposo, esposa, companheiros ou companheiras.

Viver em um momento histórico que nos oferece uma maior expectativa de vida é também considerar que há milhões de casais que estão em união com uma outra pessoa mais da metade do tempo de vida de um deles. E esse aumento da vida conjugal não era tão comum nas gerações dos nossos pais, avós e bisavós. Muitos deles passavam décadas mantendo relacionamentos nos quais se poderia ter amor, o que considero ser um dos sentimentos mais frequentes, mais a atração sexual e a libido em alta, esses nem sempre estavam envolvidos naquele relacionamento.

Como manter uma vida sexual ativa quando corpos envelhecidos são publicamente "autorizados" a trocar apenas singelos beijos e abraços? Se estamos aceitando socialmente o consumo de produtos e serviços fortemente relacionados ao consumo do Dia dos Namorados, por que não presentear os avós com um "vale motel", já com o táxi pago, pois seria estranho levá-los e buscá-los, quando estes já não conseguem mais dirigir ou não possuem um automóvel próprio?

E se um de seus pais pensasse em resgatar um relacionamento antigo, com uma pessoa importante, querida e sexualmente interessante na vida de um deles? Se jovens e adultos começam a questionar esse modelo vigente, desse relacionamento não acordado, mas mais que aceito, quase que imposto de um com outro e para sempre, como não permitir que pessoas mais velhas possam também questionar esses modelos mais tradicionais de relacionamento?

E quando só uma das pessoas desse relacionamento quer "comemorar" o tal Dia dos Namorados? A outra, desinteressada, cansada da mesmice, desapaixonada ou até adoecida, não quer? O que fazer? Que lugar seria esse em uma relação? Amor? Humilhação? Compreensão? Pacto? Amizade?

Imagino que muitas pessoas que leem esse texto, talvez pensem em interromper a leitura por achar um assunto quase que absurdo. Vou dizer, por meios das palavras escritas, que trago pautas atuais, que podem inspirar boas reflexões. E reforço, mais uma vez, de que nunca deixei de acreditar no amor. O amor é, sem dúvida, um dos maiores sentimentos que um ser humano pode sentir e que envolve cuidado, dedicação e entrega.

O amor de décadas atrás incluía também abdicação de vontades, por vezes descuido com a própria saúde e manutenção de emprego em locais de trabalho já sem qualquer estímulo para crescimento profissional ou financeiro. Tudo era para garantir o bem-estar do casal e da família.

Refletiria até que o amor praticado antigamente envolveria uma situação "estável", sem grandes pulsos de alegria e excitação com a outra pessoa com a qual se dorme junto, ou fica no sofá, ou, para os dias atuais, se compartilha todos os episódios de uma série. Pode existir afinidade e outras formas de expressar essa energia da sexualidade, mas sem grandes trocas do contato físico, tão importante para nós, pessoas com sangue que circula e hormônios que nos regulam.

Para pessoas idosas ou com relacionamentos duradouros, até o reviver vontades antigas é difícil. Já não se pensa ou planeja a viagem para um lugar que marcou suas vidas ou uma semana a dois já que, semanalmente, filhas e netos frequentam a casa e impedem uma aproximação e trocas de carícias mais íntimas ao longo do dia. E no sábado e domingo, quando não vem a família toda para o almoço ou jantar, é um familiar que decide passar todo o final de semana na casa dos seus mais velhos.

E o que mentalmente pessoas idosas ainda imaginam do próprio relacionamento ou de outros nunca vividos? Seria a alegria por estar vivendo este ou tristeza por tudo que se tem vivido? Pode ser que a realidade para muitas pessoas idosas, que já tiveram alguém ao lado para comemorar o Dia dos Namorados ou alguma data com o mesmo significado, é que a vontade de manter a sexualidade com uma outra pessoa ainda existe e, muitas vezes, não é pouca, mas cogitar morar junto e "de novo para sempre" afasta esse desejo, principalmente para as mulheres que se mostram mais saudáveis e com maiores expectativas de vida.

Dia dos Namorados tem cada vez mais representatividade da beleza da diversidade de casais e trisais (sim, três pessoas), por exemplo. A estranheza de realidade de duas ou mais pessoas envolvidas e afetivamente conectadas, que deixou de ser uma situação de imaginação, assusta muita gente ainda.

Mas acredito muito que dá para amar mais de uma pessoa, que dá para ser feliz compartilhando momentos da vida com mais de uma pessoa, e que essa pessoa pode ser outra ou até a mesma de anos atrás, mas agora em um novo acordo, em um novo formato, seja de inclusão de mais amores ou de liberdade para a vontade do outro.

Enquanto essas mudanças de paradigmas nos relacionamentos vão acontecendo e transformando a sociedade, que possamos cuidar, respeitar e, sempre que possível, permitir que a outra pessoa seja feliz nas relações afetivas que queria ter, seja com interesses sexuais ou não exclusivamente.

Nunca conseguiremos ficar bem e integralmente com outro parceiro ou parceira se ainda estranhamos a intimidade em estar consigo mesmo. Amor é para sempre, sexualidade também (ou deveria). O tesão e a libido precisam de situações e pessoas interessadas para cultivá-los (ou resgatá-los)!

E isso vale para todo mundo que se interessar, tá?