PUBLICIDADE

Topo

Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Vale a pena ser uma pessoa idosa com vaidade?

iStock
Imagem: iStock
só para assinantes
Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

30/05/2022 04h00

Judith Albright é uma senhora de 70 anos que passa mal durante a celebração do seu aniversário e, a partir de então, sua condição de saúde é questionada. A filha decide colocá-la em uma instituição de longa permanência para pessoas idosas para que os cuidados sejam mais adequados e sem sobrecargas para a família e a própria mãe. E é aí que começam os dramas e as cenas de terror que definem o gênero do filme "A mansão", e que traz reflexões sobre o processo de envelhecimento.

No filme, há um grupo de pessoas idosas que, para frear os eventos marcantes do envelhecer, passa a se nutrir de vitalidade, a partir do sangue ingerido de outras pessoas como uma fonte de rejuvenescimento. E paro aqui os spoilers sobre o filme para destacar um aspecto importante dessa obra: o desejo de ficar jovem para ainda possuir capacidades físicas e mentais presentes nesse período da vida.

Já trouxe em diversos dos meus textos a beleza que pode ser envelhecer e aproveitar o que ocorre de bom: desde a maturidade para as tomadas de decisões, o aumento da família e presença de netos, bisnetos e até tataranetos, as novas oportunidades para aprender, o deixar de ser tão preocupado com o futuro e viver muito mais o presente, o perdão e por aí vão os exemplos e situações.

Mas, como disse uma grande amiga, ver o corpo mudando nem sempre traz alegria e racionalizar que a mudança é um fenômeno inevitável, muitas vezes é necessário para aceitar a chegada dos 50 ou 60 anos. E errada ela não está. As mudanças que o envelhecer promove nem sempre são agradáveis, principalmente quando essas comprometem atividades prazerosas para quem as executa.

No filme, a protagonista, interpretada pela atriz Barbara Hershey, é uma dançarina que lamenta a sua incapacidade em manter essa prática com a excelência que deseja. E na vida real é comum os relatos, lamentos e reclamações de muitas pessoas, agora com 60 anos ou mais, que não conseguem mais subir em uma árvore como faziam quando mais jovens, o pular já não alcança a altura de antes e ainda traz o risco de cair, a flexibilidade que gerava "inveja" para qualquer pessoa que as vissem praticar seus alongamentos antes do início da partida de vôlei já não é da mesma forma. Até jogar vôlei não dá mais.

Também há os relatos de pedreiros mais velhos que agora acham que trabalhar com um auxiliar é essencial. Foi o marceneiro que tinha três obras para realizar em uma mesma semana e agora não conclui uma no mesmo intervalo de tempo.

A dona de casa que limpava a casa toda em único dia, agora faz a grande faxina uma vez por mês. Veja que os exemplos são inúmeros e você já deve ter se lembrado de alguém que se encaixe em uma dessas situações e quais as frases são usadas por essa pessoa para "xingar ou reclamar" da atual situação.

O envelhecimento não pode ser associado a uma cascata de perdas físicas e mentais, gerando mudanças funcionais irreparáveis.

Há mudanças decorrentes dos diversos sistemas fisiológicos que reduzem nossas capacidades para fazer atividades do cotidiano. Mas é necessário colocar nessa balança das perdas e ganhos tudo que não foi feito antes de a velhice chegar para permitir uma boa reserva funcional desses mesmos sistemas fisiológicos.

Pode ter faltado tempo, planejamento, conhecimento, vontade ou dinheiro e agora há uma pessoa idosa comprometida nas suas funções físicas e mentais que limitam sua autonomia para realizar seus desejos.

Seria então a vaidade uma condição que impulsionaria muitas pessoas a não descuidar do corpo e sempre buscar mantê-lo próximo daquilo que deseja ou que é possível? Nessa perspectiva, haveria diferença entre autocuidado e vaidade? Não seria o autocuidado uma reserva "mínima" das nossas reservas e a vaidade aquele pouco mais que nos traz a satisfação esperada ainda para trabalhar, para praticar algum esporte, viajar ou fazer o sexo da maneira que ainda dá tesão?

Fico aqui construindo uma reflexão a respeito do "peso" dos discursos de que o envelhecimento é o momento de muitas perdas e desistências de prazeres, e se uma pessoa idosa vaidosa não estaria transgredindo um comportamento padronizado na sociedade e, com isso, garantindo uma maior satisfação com a sua própria imagem?

Há religiões que são muito duras em torno do assunto vaidade. Seria um excesso desnecessário, a busca por um vazio, algo que não trará qualquer alegria ou satisfação? Seria isso mesmo? E se outras religiões estimulassem essa vaidade, na perspectiva de um autocuidado maior, que dá propulsão para alcançar novos objetivos ou novas conquistas na vida? Isso estaria correto?

No filme, pessoas não vaidosas são retratadas como pessoas sem grandes alegrias, que não saem da rotina, sem muitos propósitos e cheias de pesadelos durante a noite. Por vezes, dá a impressão de que não ter vaidade as aproxima de quadros depressivos ou da tristeza. As vaidosas se alimentam das coisas gostosas, dos hábitos praticados por pessoas mais jovens e com a libido em alta.

Estaria talvez a vaidade associada ou representando uma autoestima elevada, presente em pessoas que pararam de brigar com a sua imagem e fazendo o possível para que os cuidados dados ao corpo estejam atendendo às suas expectativas? A ausência de vaidade pode estar próxima de uma situação de depressão ou da liberdade dos valores sociais que cultuam o corpo sempre jovem e com suas capacidades físicas e mentais?

Então? Qual seria a sua conclusão? Vaidade é boa para uma velhice mais saudável ou é um tipo de pecado?

O espelho ou as câmeras frontais dos celulares ainda podem gerar algum estranhamento para quem se vê por meio deles. Nossa beleza pode estar na nossa singularidade. O que hoje não conseguimos mais fazer pode ser a oportunidade para a entrada de outros hábitos.

E, se for da vontade de cada pessoa, vale a pena buscar os meios para voltar a fazer aquilo que dá prazer, mesmo que seja de uma forma adaptada.