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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Velhice ameaçada: quando o assunto trabalho é um problema

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

23/05/2022 04h00

"Não existe amor em SP
Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra
Afogada em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro céu."

(Música: Não existe amor em SP. Autor: Criolo)

Sim, faz muito tempo que não consigo emprego aqui nesta cidade grande. Quando cheguei aqui, ainda menina, imaginei que teria a sorte de logo arrumar um bom trabalho. Emprego rápido eu até achei. Tinha medo de passar fome ou de ser obrigada a voltar para onde nasci sem ter conquistado nada do que imaginei. Ainda tenho um sonho de ter minha própria casa para construir uma cozinha bem grande, colocar um belo fogão e uma mesa bem grande para receber a minha família...

O trecho acima, ainda que ficção, pode ser um relato real para muita gente que envelheceu em uma grande cidade do Brasil e não conseguiu alcançar o sonho da casa própria, do terreno grande onde pudesse ter a criação de animais ou canteiros para suas hortaliças. Os empregos que teve nunca foram aqueles tão esperados e com os salários desejados para garantir uma boa velhice.

Nessa última semana, em uma das maiores capitais da América Latina, também conhecida como São Paulo, ocorreu o Mutirão do Emprego, que é mais uma oportunidade para quem está em situação de desemprego e almeja a tal condição da carteira assinada e um salário (iria escrever digno, veja só).

Dentre as milhares de pessoas, estava a senhora Roseli, mulher de 57 anos, que ficou dez horas em busca de uma vaga como faxineira.

Penso aqui que uma pessoa de 57 anos jamais deveria passar tal situação: mais de dez horas em busca de um emprego! Não há qualquer justificativa para isso! Chegar no domingo para pegar um bom lugar na fila, não permanecer descansando no seu sofá ou em algum passeio dominical com seus familiares, e ainda se compadecer com vida de quem mora em situação de rua.

Essa senhora quase sexagenária já viveu de "serviços" que pagavam R$ 50 por 12 horas de trabalho. Sim, um pouco mais de R$ 4 reais por hora. Nos últimos dois anos, o desemprego a colocou ainda em maior vulnerabilidade e dependência de outras pessoas, situação que não lhe agradou.

Há também o grupo das pessoas desalentadas que não compareceram ao mutirão, isto é, aquelas pessoas que já desistiram de procurar emprego, pois a resposta negativa sempre está pronta para elas, causando mais sofrimento, angústia, ansiedade e estresse.

E como pensar a velhice se o presente ainda é incerto? Como esperar que seja possível o acúmulo de bens materiais e investimentos, quando ainda não há as mínimas condições para o cotidiano com arroz, feijão e carne na mesa ou na marmita, ou quando a reforma da moradia nunca é concluída?

São tantas casas já habitadas e mudanças realizadas, muitos aluguéis não pagos, a fama de má pagadora e a ausência de ações do Estado para garantir a proteção digna para tantos idosos e idosas que vão envelhecendo do jeito que dá.

Ainda que se observe a iniciativa de associações e entidades como o Sindicato do Comércio, a situação para quem está próximo aos 60 anos é bastante preocupante. Um dos principais motivos para que idosas e idosos continuem a trabalhar, já aposentados ou não, é o medo da fome, da perda do teto, do retorno com as mãos vazias para a cidade onde nasceu, de não poder comprar uma lembrancinha para cada um dos seus netos ou um vaso de flor que enfeita a única mesa da casa.

Desse grupo de pessoas já desesperançosas com a obtenção do emprego, há muitos jovens e idosos, apontando como a discriminação por idade ainda gera oportunidades desiguais na sociedade. Economistas tentam procurar e disseminar o otimismo entre nós, mas há muito desemprego, muita informalidade. A vida para quem ganha pouco e ainda é velho ficou pior com a pandemia.

"Não precisa morrer pra ver Deus
Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você."

(Música: Não existe amor em SP. Autor: Criolo)

Criolo, importante pensador e cantor brasileiro, está correto em dizer que não é necessário sofrer para saber as nossas necessidades. Quando o assunto é envelhecimento, são necessárias as condições mínimas para sonhar ou para dormir sossegadamente na cama, sem estar com os dentes cerrados para acordar cedo e sair para juntar algum dinheiro para o pagamento de boletos, compra de remédios se a saúde vai mal ou ajudar na formação de uma filha ou neta para que essas passem longe desse padrão de vida imposto para velhas e velhos brasileiros.

Neste mesmo mutirão era possível fazer alguma capacitação como forma de aumentar as chances para a obtenção de um emprego. E essa é uma parte da solução. Para além dessas iniciativas, é urgente que as políticas públicas deixem de invisibilizar a gravidade do problema "desemprego para pessoas idosas".

Ainda que pareça ser uma situação de desesperança para pessoas idosas, quero acreditar que nossa sociedade ainda as "enxerga" nas ruas, nas filas, deitadas no chão, empurrando suas carroças, carregando sua vida em três ou quatro sacolas de plástico ou nas portas dos estabelecimentos à procura do alimento que sobra (e essa última situação vexatória e humilhante já foi aventada como "solução digna" pelo atual ministro da Economia para o enfrentamento à pobreza).

Paulo Guedes quis alegar que precisaríamos ser como alguns países da Europa. Mas lá muitos países enriqueceram e depois envelheceram. Aqui, envelhecemos e estamos longe de enriquecer a ponto de aumentar a renda média de cidadãos e cidadãs.

Pessoas idosas voltam a sentir um cotidiano com maior percepção e influência do aumento da inflação. Dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no contexto da Pandemia da Covid no Brasil apontaram que 18,8% das pessoas entrevistas eram idosas e responsáveis pelas suas famílias, o que gera maior preocupação, pois sem uma boa renda outras pessoas também ficaram vivendo pior.

E mais, algo em torno de 46,7% das pessoas de 65 anos ou mais estavam em situação de insegurança alimentar no Brasil, segundo o inquérito divulgado em 2021.

Ter dinheiro é um dos itens essenciais para se envelhecer bem no Brasil, mas a possibilidade de enriquecer para chegar bem na velhice não é para todas as pessoas. E é justo garantir renda digna para quem trabalhou a vida inteira recebendo míseros salários!

União, Estados e Municípios sabem das suas realidades e responsabilidades, mas ainda não criaram ações ou programas capazes de permitir que esse pilar para o bom envelhecimento seja garantido.

Viagens, almoços em restaurantes, passeios e compras de brinquedos para netos e bisnetos deveriam ser oportunidades garantidas a todas as pessoas idosas. Enquanto isso não existir, estaremos ainda lutando para a redução das desigualdades sociais fortemente associadas à idade.