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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Hábitos salutares e envelhecimento: uma parceria complicada de existir

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Imagem: iStock
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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

16/05/2022 04h00

Quando o simples se torna complexo,
Quando o fácil se torna difícil ou quando o óbvio já não e mais tão óbvio, o que fazer?
Eu não sei, você sabe? (Autor Desconhecido)

Mais um pesquisador, agora da área da neurologia, no seu livro "Mente Afiada", que trata de assuntos sobre memória, perdas cognitivas e demência, apontou a importância da prática de hábitos salutares na vida das pessoas e da influência desses na prevenção ou retardo das perdas cognitivas e na instalação de quadros demenciais em pessoas idosas.

Sanjay Gupta traz algumas constatações que, mais uma vez, precisam continuar nos nossos campos visuais. A primeira é a necessidade de manter o corpo em movimento. Historicamente, desde lá nos nossos primórdios anos enquanto Homo sapiens, somos do movimento.

E com a chegada à velhice e a abundância de facilidades tecnológicas, como controles remotos e aplicativos, é cada vez mais fácil comprar, trabalhar, se relacionar, estudar e se divertir sem colocar um pé para fora de casa e, com isso, ficamos cada vez mais parados enquanto envelhecemos, ano após ano.

A falta de atividade física dificulta um bom funcionamento cerebral. E este pesquisador recomenda que façamos os exercícios físicos não de modo extenuante, pois pode ocorrer produções hormonais que não favoreçam tanto a boa atividade cerebral.

Os exercícios físicos precisam ser feitos na medida, sem exageros. E isso não deveria ser dificuldade para qualquer pessoa que deseja viver e envelhecer bem. E assim temos mais um pesquisador defendendo que a prática de atividade física faz bem para o corpo e a mente.

Olhando para os cuidados e para a rotina de muitos povos indígenas, de pessoas que vieram décadas atrás do Japão para o Brasil, muitas pessoas que moram na área rural ou que moram em regiões urbanas e conseguem ocupar os espaços para a prática de atividade física ou de socialização, o movimentar-se sempre está presente.

O problema é a enorme parcela de pessoas idosas que, a cada dia que passa, se movimenta menos, fica esperando alguém para sair de casa, mesmo que consiga sair sozinha. Infelizmente, muitos idosos e idosas desconsideram suas necessidades de manter corpos bem ativos.

A memória sofre muito com os efeitos do sedentarismo. E aqui, muitos profissionais da saúde, da assistência social e alguns profissionais da gerontologia misturam as mudanças decorrentes de um corpo envelhecido com aqueles decorrentes do sedentarismo.

Muitas dificuldades para a realização das atividades cotidianas que se instalam na pessoa idosa podem ser difíceis de serem resolvidas, e as práticas salutares ajudariam na prevenção ou na gravidade das mesmas.

E se não fossem suficientes as causas intrinsicamente relacionadas ao corpo de uma pessoa sedentária, ainda temos muitos ambientes que dificultam ou restringem nossos exercícios. Há violência nas ruas, falta de iluminação, muitos carros, poucas quadras, pistas de corrida, áreas verdes ou espaços multiusos onde se pode praticar dança, ginástica ou jogos.

Somos da geração da cadeira e do banco. Ficamos horas sentados, nas mais diversas posições e situações e, dessa forma, observamos a velhice chegar, aceitando um processo de adoecimento cerebral que afeta as funções cognitivas. Podemos ficar horas nas redes sociais, vendo programas televisivos e deixando de ler um livro que estimula a atenção, o foco e a reflexão.

Nessas redes sociais, passamos a nos deixar ser invadidos pelas boas e péssimas notícias. São informações sobre catástrofes, mortes ou outra violência, mais a luminosidade dos celulares que nos trazem a insônia ou as horas incompletas de sono. Se pessoas mais velhas tendem a dormir menos, como ainda dormir com tanta precariedade da nossa "higiene do sono"?

O excesso de açúcar também parece ser um outro inimigo para a boa memória. E, bem diferente do adocicado de uma fruta bem madura que cai de uma árvore frutífera, com o próprio Sanjay descreve, hoje temos o acesso facilitado a alimentos ricos em açúcar, seja pelo seu valor ou facilidade em encontrá-los. Além disso, costumam ser de baixa qualidade nutricional.

Veja que não apontei nenhum fator "novo" para a busca de uma boa saúde mental e também física. Então por que temos tanta dificuldade em incluir esses hábitos nas nossas vidas, de nossos familiares ou como recomendações essenciais para toda uma sociedade?

Penso que vivemos em uma sociedade que tenta desvalorizar a simplicidade que traz uma boa longevidade. Andar pelas ruas livremente, visitar amigos durante o dia e não uma vez por ano, trabalhar de forma digna e não quase escravizada pelo tempo ou pelo dinheiro e alimentar-se de comida natural e não aquela quase que toda industrializada e excessivamente manipulada no seu sabor, textura e consistência.

Enquanto tudo isso permanece acontecendo nas nossas vidas e passa a ser o "nosso normal, o nosso natural", presenciamos um envelhecimento marcado pelas escolhas erradas ou opções limitadas que existem para uma vida saudável.

Espera-se o lançamento ou a descoberta da pílula revolucionária ou o tratamento inovador que possa estar em algum aplicativo gratuito, de preferência. Queremos que os profissionais da gerontologia e pesquisadores encontrem o elixir para a boa velhice. Mas o que se observa é que a grande complexidade para uma boa longevidade está na redescoberta ou reincorporação das boas práticas de antigamente.

Nossas idosas e idosos ainda detêm o conhecimento do cotidiano com significado, desses que a gente precisa ter, vivenciar e perceber o quanto faz bem. Tentamos apertar, ajustar mil atividades em 24 horas de um dia. E, como se não bastasse, terminamos o dia com a sensação de incompetência. Faltou meditar, faltou exercitar-se no tempo recomendado por aquela revista renomada e postar a foto perfeita para rede social.

Faltou viver o próprio dia e deixar de viver o dia repleto dos hábitos atuais que, quando comparamos a vida atual de jovens e de pessoas adultas, nem sempre há associação da felicidade com o tempo livre e bem aproveitado.

Muitas velhas e velhos mostram que em um único dia dá para incluir as atividades necessárias e sobrar tempo para se fazer algo ou nada (que é uma delícia quando vem sem o "peso" de uma culpa por estar desocupada ou desocupado).

Outro jargão muito usado nos dias de hoje é de que "menos é mais". Menos tecnologia é mais saúde, menos uso do celular é mais livro lido. E por aí vão os exemplos.

Que possamos aceitar e rir das nossas imperfeições, dos nossos dias incompletos e da nossa incompleta satisfação com um outro tanto de coisas. Talvez aí, nessa prática repetida diariamente, possamos estar em busca da boa longevidade, mas agora com a inclusão das boas práticas salutares.