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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Territórios e pessoas idosas: o cotidiano em transformação constante

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Imagem: iStock
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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

09/05/2022 04h00

Você já deve ter percebido que há muitos bairros ou grandes áreas onde é visível a presença de muitas pessoas idosas e outros territórios repletos de pessoas mais jovens e outros de crianças e de adolescentes.

São espaços que se modificam de acordo com o ritmo definido por essas pessoas. Onde há crianças, as brincadeiras com brinquedos baratos, a agitação nas ruas, as brincadeiras repletas de imaginação definem o que ali é mais valorizado. Há até quadras desenhadas com giz ou pedaço de tijolo, portões que viram gols imaginários, e mães e pais que tomam conta de seus filhos e dos filhos dos outros.

Nos espaços com muitos adolescentes e jovens, a preocupação aumenta com os horários de saída e de chegada das escolas, da faculdade, da balada, do shopping center e da casa do novo "ficante", recentemente conhecido em uma das redes sociais.

A "briga" é para desfazer as rodas nas quais o que predomina são dedos ágeis manipulando celulares. Há muito cheiro de desejos e de violência no ar. Sim, nessa fase os territórios podem deixar de ser amigáveis para algumas pessoas. Muitas pessoas morrem antes de contemplar outras fases da vida, outras começam a morrer socialmente, pois um desses amigos está ascendendo socialmente e o outro só vai parando de fazer o que gosta para, cada vez mais, ajudar nas despesas da família.

E quando os territórios são ocupados por muitas pessoas velhas? Como ficam as relações e o ritmo das coisas?

Fico aqui lembrando de muitos bairros ou cidades ocupadas por muitas pessoas idosas. O ritmo das coisas parece ter outra velocidade, outra direção na busca pelo bem-estar. Nesses espaços até quem foi escolhido para entrar no mundo do crime pede a benção para a sua mais velha.

A quantidade de pessoas mais velhas e religiosas também transmite serenidade e eleva a espiritualidade de todos que ali residem. As crianças encontram uma "avó benzedeira" que mora na mesma casa há anos cujo portão nem fica com o cadeado trancado.

Nesses territórios ocupados por pessoas mais velhas sempre há um grupo de homens fazendo sua jogatina em alguma praça. Fala-se de tudo ali: família, remédios, doença que tem que ser tratada, contas, netos, conquistas de familiares, política e futebol. E também continua a reprodução do machismo, já que não se observam praças repletas de mulheres mais velhas conversando sobre os mais diversos assuntos.

Nesses territórios podem existir grandes sentimentos de lealdade entre as pessoas idosas. Amigos e amigas estão presentes em todas as situações da vida um do outro: festas de aniversário, batizado, casamento e bodas de alguma coisa. Mas também estão apoiando nos momentos de maior tristeza como o adoecimento de algum familiar, enterro, compartilhamento de comida, gás, varal e cesta básica.

Mas o conflito está presente também. Desde a bola que bate no portão e incomoda quem está assistindo seu programa televisivo favorito após o almoço, até a música alta que atrapalha a pessoa mais velha que já dorme poucas horas ou aquela com um quadro demencial e que agora precisa ter uma rotina de atividades em razão da disponibilidade de quem cuida e da severidade da doença.

Do comércio ali existente, há mais boa vontade de quem é dona da farmácia, do mercadinho, da feirinha ou pet shop e menos calçadas rebaixadas, largas e sem buracos. Ali o cachorro anda sem coleira e pode ameaçar o equilíbrio de quem usa bengala ou ser o seu acompanhante até a porta da casa onde reside.

Falta presenciar mais as manifestações culturais que fizeram sempre parte da vida de pessoas idosas, como comidas típicas de onde nasceram, danças, rituais religiosos e valores ancestrais que enaltecem que envelheceu e o torna também pertencente àquele espaço cuja dinâmica o envolve e reconhece o seu protagonismo.

A boa notícia é que todo o território é vivo e, por isso, sempre haverá possibilidades de transformação. Cabe a todas as pessoas que habitam ou transitam por esses espaços o comprometimento em torná-lo mais convidativo às pessoas mais velhas.

Não se trata apenas da acessibilidade, como colocação de barras de apoio, rampas e sinalizações. Esse território precisa não discriminar a pessoa idosa e não permitir que estabelecimentos públicos e comerciais também o façam. Deve estimular o convívio intergeracional, com trocas de saberes e maior introdução dos hábitos e conhecimentos das pessoas mais velhas.

Oportunidades para o lazer, para a prática da atividade física, aprendizagem ao longo da vida e de trabalho também precisarão estar abundantes nesses territórios. Até possibilidade para quem quiser namorar precisa ter!

Saibamos incorporar pessoas idosas nos territórios nos quais já estamos inseridos! Ninguém perde e, futuramente, quando já mais velhas e velhos, saberemos reconhecer o quanto é bom viver onde pessoas velhas são reconhecidas e respeitadas!