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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

No controle do próprio corpo: a velhice e as mudanças ali presentes

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Imagem: iStock
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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

02/05/2022 04h00

Um dos aspectos mais importantes quando se estuda gerontologia, que é o campo do saber que aborda o estudo sobre o envelhecimento e as pessoas idosas, é pensar em como manter a autonomia das pessoas idosas durante toda uma vida ou na maior parte dela.

Muito do que se espera dos diversos profissionais é que suas atividades reflitam em maiores possibilidades de autonomia para a pessoa que envelhece. Sem isso, qualquer outra demanda que se faça para uma pessoa idosa não repercutirá tão diretamente na liberdade da sua cidadania e na busca da realização do seu propósito.

Entende-se por autonomia a maneira como tomamos decisões sobre nossas vidas e livres de qualquer coesão, ainda que exista a influência de pessoas importantes nas nossas vidas e também dos fatores socioambientais.

Culturalmente podemos ser influenciados a ter mais autonomia ou até acreditar que temos quando, na verdade, só estamos reproduzindo comportamentos e pensamentos para sermos aceitos em um grupo social do qual queremos fazer parte.

E esse assunto é muito importante e me parece que não tem sido levado a sério em diversas situações. E uma dessas constatações diz respeito ao corpo de pessoas que envelhecem e o quanto são desrespeitadas as suas mudanças.

É diário ouvirmos em alguma rede social, programa televisivo ou rádio alguém abordando o assunto envelhecimento e, ao se referir ao próprio corpo ou de outra pessoa, alegar que algo não vai bem e atribuir essa causa à chegada da velhice. Pode ser a barriga mais saliente que não reduz tão facilmente com os exercícios físicos ou é a pele da mão que está mais enrugada e já desperta um olhar de reprovação da própria pessoa.

Também são os cabelos que, agora mais brancos, demandam cuidados de pintá-los em intervalos de dias cada vez menores para quem os quer escondidos. É o rosto que apresenta uma saliência a mais ou uma pequena, quase que discreta, manchinha que capturam o olhar de quem as viu surgirem no seu próprio rosto.

São mudanças fisiologicamente esperadas e, muitas vezes, são reflexos de hábitos certos, errados ou possíveis que adotamos durante toda uma vida. A barriga não mais no formato "tanquinho" pode ser a consequência da maternidade bem vivida, daquela cujos filhos e filhas se lembrarão eternamente do quanto a mãe ou pai foram presentes e, para que isso acontecesse, precisaram abdicar daquele plano da academia que poderia facilmente eliminar os quilos a mais acumulados nas suas regiões abdominais.

Das mãos deveriam existir mais motivos de alegria e quase nenhum de tristeza. Foram essas mãos, agora envelhecidas, que lavaram milhões de louças, de roupas para que toda uma família pudesse estudar, sair para o trabalho e até aproveitar bem a viagem quando a grana estava curta para ficar em um hotel e serem todos e todas bem servidas, com tudo incluído no pacote.

Foi também o resultado da não efetivação do rodízio na família de quem deveria lavar a louça. Ou, mais uma vez, a doação de uma mãe ou pai para que filhos e filhas se dedicassem exclusivamente aos estudos, algo que não puderam fazer na sua adolescência ou fase adulta.

Há também as mãos daquelas pessoas que a cada cliente que atendia, ou carro que consertava, ou prato finalizado no restaurante eram lavadas como sinal da atividade concluída. Muitas e muitos que leem essa coluna irão se lembrar das mãos aparentemente mais grossas e com sinais de graxa, de tinta, com cheiro de alho que, todo final de tarde, vinham nos acariciar e nos abraçar de uma forma intensa e sincera.

Os cabelos talvez precisassem de um texto exclusivo para eles, pois na nossa cultura eles têm uma importância capaz de potencializar ou suprimir a força de quem os têm ou não. Ao longo da vida da pessoa que envelhece o cabelo pode ter sido causa de constrangimentos, ora porque era muito crespo, ora porque era muito longo, ora muito curto, ora muito colorido e agora porque está muito branco.

Há pessoas insensíveis e com medo do próprio envelhecer que consideram aquelas que assumem seus cabelos grisalhos como desleixadas porque não fazem a manutenção de pintá-los na cor que tinham quando eram crianças, adolescentes ou adultas.

Quem agora convive com sua calvície pode ter se submetido a códigos de vestimentas quando mais jovens que nunca permitiram a adoção dos cabelos compridos, semelhante a seus ídolos da adolescência ou da vontade que teve dessa liberdade dos fios voando e acariciando o seu rosto ou de quem os quisesse também em seu rosto. Aquela foto da filha brincando de ter o cabelo comprido do pai, jovem na época, agora seja um sonho que não mais se realizará.

Por que esse julgamento constante a pessoas que estão, felizmente, envelhecendo? Seus corpos não são respeitados da forma que mereciam. Suas marcas no rosto também são marcas do descaso de muita gente que deixou de fazer sua parte no combinado de vivermos em democracia e em um mundo globalizado.

É o alto preço dos protetores solares e que não estão à disposição da grande maioria da população, foi não assumirmos o compromisso de manter a natureza mais intacta quando comparamos os estragos de hoje e que permitiram que os raios solares nos castigassem a ponto nos adoecer. Foram também as condições do trabalho que jamais tiveram do empregador um investimento decente para oferecer um repouso justo ou os equipamentos de proteção individual necessários.

Um corpo que envelhece merece ser visto na beleza que o tempo o forjou, na alegria de quem o tem e celebra mais um ano vivido após superar uma doença que poderia ter gerado o seu fim. Corpos que envelhecem não são casas sem serventia, ao contrário, são moradias repletas de sentimentos e histórias que nenhuma outra casa mais nova e até maior seja capaz de abrigar.

Há muitas mansões hoje que só se sustentam pela história construída ao longo de décadas por aquele mais velho, o ancião da família que já anda curvado. Na arquitetura da construção dessa mansão houve um erro em não finalizar todas as escadas em direção ao trono que deveria ser dessa mais velha ou mais velho da família.

Pessoas idosas sofrem a velhofobia, essa aversão que outras pessoas têm ao ver ou conviver com pessoas idosas, e isso contribui para a redução ou aniquilamento da autoestima que mais velhas e mais velhos sentem por estarem envelhecendo com seus corpos e mentes operantes e, muitas vezes, gozando de uma liberdade jamais vivenciada em outra fase da vida.

O mundo precisa se educar a olhar com admiração e sem preconceito, na perspectiva de que, em breve, outras pessoas, cada vez em quantidades maiores, também irão envelhecer. O mundo será grisalho e ainda tem gente que duvida, o que é uma pena, mas já duvidamos do aquecimento global, do movimento ultradireita que cresce no mundo cada vez mais e repele quem envelheceu. Há quem duvide até de que o mundo seja redondo...

Esteja preparada ou preparado para abraçar e receber com afeto o seu corpo envelhecido! A comparação das fotos deste ano e do ano passado não me deixam mentir. Viva a inauguração desse "novo" corpo. Cuide dele da melhor forma e faça de tudo para que ele fique cada vez mais liberto!