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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pessoas velhas e as crianças: o direito de dizer 'não'

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Imagem: iStock
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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

04/04/2022 04h00

"Não, pai! Agora você tem que me ouvir e saber que o senhor também erra!"

Foi assim que minha filha me indagou essa semana, durante uma conversa sobre o quanto ela e sua irmã comiam doce e queriam mais. Para ela, eu deveria relativizar os fatos e momentos para então equilibrar a recomendação sobre a inclusão de mais frutas nas suas refeições ao longo do dia e permitir que os doces que gostam estivessem presentes também.

Se certo ou errado, o fato é que conversamos, houve diálogo, houve a escuta dos nossos pontos de vista e, segundo ela: "Você é meu pai e quero muito que esteja sempre assim nos orientando."

Uma situação bastante recorrente para quem convive com pessoas idosas ou trabalha na área da gerontologia é a constatação do quanto essas não conseguem falar "não". São pessoas que se submetem às vontades e disponibilidades de familiares e amigos e, dessa forma, deixam de escolher seu programa de TV ou prato favoritos, de decidir para onde desejam viajar ou afirmar que falta motivação para receber ou visitar alguém.

Por outro lado, há pessoas mais velhas que exercitam muito bem o direito de pronunciar e experimentar a liberdade em dizer "não" para o pedido, o desejo, a expectativa ou o preconceito que vem de outra pessoa e, desta forma, sentem-se mais vivas, praticando o seu direito de ser na vida, ainda que algumas pessoas as considerem como arrogantes, de temperamento difícil e até egoístas.

Como se não bastasse, muitas crianças já aprendem, desde muito cedo, que falar "não" pode ser algo que as tornem não tão bem recebidas em alguns espaços, como parquinhos, pátios das escolas, na sala de aula ou nas quadras poliesportivas.

E por que será que isso acontece (ainda)?

Acredito que o etarismo (ou idadismo), essa discriminação em razão da pouca ou muita idade que uma pessoa tem, seja uma das explicações para que essas "armadilhas dos bons costumes" aprisionem as crianças e as pessoas mais velhas, restringindo o uso prazeroso e também necessário do "não": não vou, não faço, não quero, não agora, não com você.

Acreditam que, na adoção do uso do "sim" para a maioria das situações que participam, sejam rotuladas como boazinhas ou as que topam tudo e, desta forma, alcancem o perfil o esperado pela sociedade.

E por que esse convite só para quem fala "sim" e aceita a submissão imposta pelo idadismo praticado pelas instituições, por diversos grupos sociais e até por alguns familiares e amigos? Como entender essa dimensão do próprio "eu" quando, seja na infância ou na velhice, há um cerceamento dessa possibilidade?

E tudo isso pode doer, pode afetar sua subjetividade, seu amor-próprio e, direta ou indiretamente, sua identidade. E, por isso, considero que impedir que pessoas muito novas e muito velhas digam "não" seja um ato violento, um desrespeito constitucional de um direito que também é delas.

Acrescentemos que, condições socioeconômicas, principalmente aquelas que envolvem o pertencimento a uma certa classe social ou residir em uma determinada região nobre do nosso país, ofereça maior permissão para que algumas pessoas velhas e novas exercitem o "não" e que tal prática seja traduzida como algo positivo, de pessoas com "personalidade", com "opinião própria" e até com "boa formação".

Estamos diante da consolidação da cidadania parcial, da qualidade de vida parcial, da não escuta, da pressa em fazer o que precisa, da pouca empatia, seja para sobrar mais tempo para o trabalho ou para fazer aquela foto sempre "perfeita" para as redes sociais. Para isso, é necessário falar "não" ao convívio mais próximo com as crianças, pais ou avós mais velhos que residem na mesma moradia de jovens e adultos.

E esse "não" das pessoas jovens ou adultas precisa ser muito bem aceito pelas crianças e idosos! Essas podem sentir que estão atrapalhando a rotina das outras e, mesmo com essa impressão que as afeta negativamente, quanto mais em silêncio suportarem esse constrangimento, melhor a sociedade as deixa estar entre nós, afastando a possibilidade da terceirização dos seus cuidados.

Quando uma pessoa idosa deveria ter dito "não" e parar de realizar o trabalho que tanto lhe desagrada, seja pela atividade que pratica, como pelo salário que recebe? E isso vai se estendendo por décadas e, sob argumentos de que é necessário pagar escola, casa, carro e viagens.

Nunca disse o que sempre quis e, agora, velho como está, nega ainda em pronunciar o "não", ainda que mais argumentos surjam a cada ano. Por vezes, mais religiosos do que no tempo da juventude, disfarçam uma frustração de toda uma vida não vivida com satisfação e plenitude.

Acrescentemos à discussão que grupos sociais com poucos poderes políticos e econômicos, como pessoas idosas negras, pessoas idosas pobres e pessoas idosas LGBTQIA+, sabem que seu "não" pode refletir em menos oportunidades de trabalho, de educação e até de saúde. São exemplos de frases que geram barreiras e fecham portas:

"Não estou entendendo o que diz!",

"Não gostaria que fosse tratado assim" ou

"Não acho justo esperar tanto a minha vez chegar".

Muito pelo contrário, a essas pessoas se responde frequentemente:

"Já falei mais de uma vez!",

"Trato todo mundo da mesma forma" e

"Tem que respeitar a vez de todo mundo".

E, com isso, silencia-se a indignação por um tratamento desrespeitoso e discriminatório sofrido desde antes de a velhice chegar.

Como vamos pensar em diversidade, se nas diferenças existentes entre os grupos sociais, é onde se escondem as permissões para se pronunciar o "não" libertador de costumes e normas que não condizem com os praticados por aquele grupo de pessoas velhas, privadas da liberdade, ainda que residindo fora de uma cadeia?

Muitos personagens da história do mundo sonharam com a liberdade. E é assim que finalizo essas reflexões, citando Nelson Mandela que, durante a sua posse do governo da África do Sul, em 1994, disse:

"Nosso medo mais profundo

não é o de sermos inadequados.

Nosso medo mais profundo

é que somos poderosos além de qualquer medida.

Na realidade

Quem é você para não ser?"