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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A feminização da velhice ainda não supera o machismo no Brasil

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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

14/03/2022 04h00

Ser do gênero feminino no Brasil é pertencer a um grupo social no qual o reconhecimento da sua importância, seja na família, na sociedade ou em qualquer parte da história pode chegar tarde demais. Talvez essa possa ser a frase resumo do texto de hoje.

Na última semana celebrou-se mais um Dia da Mulher. A sociedade ainda fica perdida sobre o que fazer: se celebra, se reivindica, se fica reflexiva, se convida uma mulher para sair, se manda flores ou se mantém a neutralidade diante de tudo que está acontecendo (essa última, na minha opinião, pode ser a pior das alternativas a se escolher).

Segundo a doutora Conceição Evaristo, escritora reconhecida nacional e internacionalmente, temos as nossas escrevivências, ou seja, nossa vida é marcada fortemente por tudo que passamos ao longo dela. E cada pessoa do gênero feminino sabe bem o que se passa, o que não passa e o que atravessa suas vidas e os seus corpos.

Mulheres do século 21 ainda podem não ser donas de seus corpos e gozar da liberdade que homens já usufruem há muito tempo, para não dizer desde o começo de uma era que procurou inferiorizar a mulher e tudo que se associa ao feminino.

Sou um grande defensor e admirador de qualquer tipo de relacionamento intergeracional, desses no qual as pessoas estão gostando uma da outra, desejando uma a outra, mas vejamos essas duas situações abaixo para pensar como o machismo pode superar a feminização da velhice:

Nas praias brasileiras, um homem idoso sem camisa ou com trajes pequenos não causa qualquer espanto para a sociedade, pois se trata de um modo de vestir e que é aceito em uma região litorânea que é muito quente e causa suores em qualquer pessoa.

Não importa a idade dele, ainda mais se for um mais velho com um corpo ainda com músculos à vista, mesmo que com alguma flacidez e cabelos e pelos brancos distribuídos no corpo todo. Se estiver ao lado de uma mulher mais nova, passa a ser até um desejo a longo prazo para os homens mais jovens e fortemente influenciados pelos valores vigentes na sociedade atual.

No imaginário de parte da sociedade, um homem velho acompanhado e desejado por uma mulher mais nova que ele nem tão velho parecer ser! Na perspectiva de parte da sociedade, ocorre um tipo de rejuvenescimento dele, refletindo a marca do machismo praticado em terras brasileiras. A nossa sociedade consente, respeita e até almeja, muito mais pela parte masculina, que mais relacionamentos assim ocorram.

Mas o que dizer de uma mulher idosa sem camisa e de trajes pequenos, e que ainda se perceba nela seus músculos abdominais e pouca flacidez? Ainda que esteja usando a parte de cima do seu biquíni, como de costume no litoral brasileiro, o que se pensa dela? E se estiver acompanhada de um homem mais novo que ela? Quais seriam as reações dos outros homens e até de outras mulheres, sejam jovens ou velhas? É a mesma situação vivenciada pelo homem idoso? Provavelmente não.

Qual deles é mais reconhecido e autorizado a ser um sujeito com suas vontades e autonomia respeitadas?

Qual deles pode ter passado boa parte da sua vida na condição de um objeto que se deseja, que se ambiciona, que se quer simplesmente usar e não criar qualquer tipo de vínculo? E não estou falando de casamento, falo de vínculos respeitosos, afetivos ou cordiais.

Pensando agora em outras situações, qual deles teve mais oportunidades para acertar a atividade ocupacional que lhe trouxesse dinheiro e satisfação pessoal?

Qual deles pôde circular livremente pelas cidades onde morou, em qualquer horário do dia, sem ter qualquer importunação?

Quem deles já foi chamado de "gostosa" ou "delícia" em plena área pública, na frente de filhos e netas, ou até pelo seu chefe?

Qual deles, historicamente, é quem fica com os cuidados de filhas e filhos após uma separação?

E quem posterga ou anula os sonhos de estudar?

Quem costuma cuidar do neto cuja filha adolescente decidiu assumir sozinha a criação da criança, sem a presença do pai dessa até na certidão de nascimento, pois, na visão de parte da sociedade, esse "menino", ainda jovem, poderia estragar sua possível trajetória profissional e acadêmica se já assumisse cuidar de um filho?

Mulheres hoje de cabelos mais grisalhos que se recusam a pintar os mesmos simplesmente para "esconder" a idade ainda são mal vistas por parte da família. Aquela que já cansou de tentar perder um pouco do seu peso corporal e agora veste a roupa que gosta, já foi até chamada de "louca" ou de "safada" por alguém do seu círculo de amizade mais próximo.

Pessoas do gênero feminino que ousam envelhecer ao lado de uma pessoa mais nova parecem inaugurar a nova lista dos pecados contemporâneos! Abuso, "fogo", indecência dela, muitas pessoas costumam e se autorizam a dizer, deixando explícito o seu preconceito, o machismo que ainda machuca tanto mais da metade da população brasileira, incluindo homens que defendem as pessoas do gênero feminino e aprenderam a pensar diferente da lógica do macho.

É ainda necessário explicar os dados demográficos atuais que mostram que mulheres vivem mais e se cuidam mais? Não seria algo esperado que elas passassem a se relacionar com pessoas mais jovens que elas? E mais: que pudessem desfrutar de bons momentos que, em relacionamentos anteriores, muitos marcados pelo machismo, não foram possíveis?

Mulheres idosas podem colecionar histórias de violência nas suas vidas, desde o antigo companheiro, o filho machista e a filha que, sem perceber, reproduz diversas situações que as fragiliza diante dos homens da família. Agora, deu até do neto xingar as duas de "lerdas" porque não sabem manusear adequadamente seus aparelhos celulares!

Há mulheres que carregaram traumas de xingamentos ou abusos desde a infância. Para muitas delas, nem na lua de mel a violência deixou de a perturbar.

Avós negras, muitas vezes, querem que suas netas cresçam com cabelos menos crespos para não reviverem as dores que ainda hoje as incomodam sempre que uma das suas mais novas reclama do cabelo que não é liso. É mais um peso que a sociedade impõe às mulheres para que sempre se enquadrem em um padrão estético, único e não brasileiro!

Mas mulheres idosas aprenderam, desde muito cedo, que ultrapassar as dificuldades seria necessário, assim como desconstruir mitos, valores e crenças. E foi assim que as mulheres no nosso país começaram a estudar mais, enquanto outras mulheres ajudaram suas filhas a serem engenheiras, médicas, advogadas e até juízas!

Outras vestiram sua roupa de super poderes e construíram verdadeiros "palácios" para seus filhos, desses que ficam secos quando há muita chuva lá fora e que não deixam ratos entrarem sem permissão e onde há fogão, geladeira e mesa para refeições decentes e em família!

Essas mulheres envelheceram e agora também são identificadas como avós, bisa, mãe ou tia. São detentoras da vontade de viver, negam ficar invisibilizadas e ainda, quando necessário, assumem levar uma família nas suas costas, incluindo genro e cunhado.

As mulheres continuam a demonstrar melhor conhecimento para a compreensão do país. Em duas pesquisas realizadas pelo Datafolha, elas em maioria são contra o atual governo e estão muito preocupadas com a situação da democracia brasileira.

Muitas das mães e avós desconfiam do governo que vetava até o ano passado, período de maior pico da pandemia, a distribuição gratuita de absorventes para meninas de baixa renda.

Reconhecimento, respeito e vida com propósito. Quando pensarmos nessas palavras para nos referir ao que significa o Dia das Mulheres, aí estaremos avançando na busca por equidade e direitos iguais, sem distinção.