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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Meus avós têm uma vida sexual mais ativa que a minha! E agora?

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Imagem: iStock
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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

24/01/2022 04h00

Nessa coluna, é a primeira vez que abordarei esse assunto. Das vezes que pensava em escrever sobre isso, considerava começar de forma bem introdutória, falando mais da sexualidade e suas diversas formas de expressão ou da permissão a uma vida sexual que nem sempre existe na vida de muitas idosas e idosos.

Iria escrever que há pessoas idosas que se satisfazem em ficar de mãos dadas, trocar carícias ou saírem, vez ou outra, para um almoço ou jantar mais romântico. Só o casal, como nos velhos tempos, nada de família. Seria assim: da forma como a sociedade aceita e não estranha a abordagem da sexualidade de pessoas mais velhas.

Com 60 e alguns anos a sexualidade e, em específico, a prática sexual, ainda é "compreendida, liberada e discutida" para e entre pessoas idosas, mas dos 70 em diante a estranheza só aumenta. E o que falar de quem pensa isso aos 80 ou 90 anos?

O sexo é uma das melhores coisas da vida. Tem muita gente que diz isso: praticantes, estudiosos e curiosos. Quem lê essa coluna e já fez ou faz pode confirmar essa informação, certo? Fica ainda melhor quando as duas pessoas permitem a conexão de corpos e de vontades. Se a moralidade puder não comparecer nessa hora, fica ainda melhor.

Nos tempos atuais, repletos de velocidade para se alcançar objetivos pessoais, profissionais e institucionais, para sobrar mais tempo para se fazer mais do mesmo e, ao final de um ano ou fase adulta da vida, constatar de que não valeu tanto a pena ter sido rápida ou o mais esperto, deixando de usufruir o presente, a presença e o tempo com alguém, pessoas mais velhas podem ter uma vida sexual mais ativa que filhas e netos, ou filhos e netas. Já pensou nisso?

Sim, as novas gerações parecem não ter evoluído o quanto se imaginava na entrega ao momento do ato sexual em si. Não falo da quantidade de práticas sexuais, nem da quantidade de parceiros ou parceiras. E também não vou falar de amor aqui.

Talvez a cama, sofá ou cadeira só tenha espaço para duas pessoas e não para valores que são construídos ao longo do tempo, como o amor. O parágrafo fala de tesão, do desejo de uma pessoa por outra. Como dizia uma senhora que conheci: aquela pessoa que te faz ter arrepios em diversas partes do corpo e que te faz abrir mais que um sorriso. Tem pessoas que ficam excitadas só por ouvir a voz de quem deseja.

Não é um texto obsceno, leitora ou leitor. É um texto transparente e um pouco mais explícito sobre sensações presentes no encontro de duas pessoas que querem corpos juntos, nas posições possíveis, considerando a artrose do joelho, a doença pulmonar do outro, o lado do corpo que já não mexe tanto, as mamas mais avantajadas e os braços não tão viris como do tempo da juventude. Mas ambas as pessoas estão ali, não querendo ser importunadas por ninguém!

E ninguém envolve neta recém-nascida, bisneto que chegou de viagem, filho que iria sair com a nova namorada, filha que iria trazer a noiva para casa. Essas pessoas mais velhas querem o momento íntimo delas, ou seja, só querem transar em paz.

E quando se fala de vida sexual ativa, é necessário considerar as questões físicas, mentais e emocionais. É para parecer normal quando pessoas idosas conseguem manter algum tipo de relacionamento sem uso de medicamentos criados para viabilizar essa finalidade, deixando de ser tratado um caso patológico, uma aberração perante boa parte da sociedade.

Há velhos e velhas com muitas habilidades treinadas e aprimoradas ao longo das décadas! Os mais jovens chamam isso de "ter a manha", o jeito certo de fazer. Ter uma boa saúde, no sentido mais amplo, é um fator importante para essa possibilidade.

E saúde não é a ausência de doenças. Pode ser o cuidado adequado e a busca em manter ou aumentar hábitos salutares para o corpo, para a mente e para o emocional.

Nessa perspectiva da sexualidade de quem envelhece, a gerontofobia limita a libido, já que corpos velhos, historicamente, não foram pensados para ter prazer, gozar, beijar e, quem dirá, fazer ou ter penetrações.

O convívio intergeracional propicia encontros e desperta desejos entre as pessoas. E se minha avó está saindo com um "novinho", digo, uma pessoa mais jovem que ela? Estaria aquela família pronta para um almoço de domingo e, ao chegar na casa da mais velha da família, se deparar com uma pessoa, talvez sem cabelos grisalhos, saindo do banho, com toalha na cabeça e uma bermuda exibindo parte de seu corpo?

E quando uma mais velha se satisfaz sozinha? Com um brinquedo recentemente comprado ela teve sensações nunca antes pensadas. Está adorando e pensa em recomendar para algumas amigas. Agora só precisa saber qual delas terá liberdade para experimentar a masturbação que, para muitas, possa ser uma novidade.

Estamos no ano de 2022 e não são todas as pessoas que conhecem o seu órgão genital e como ele funciona. Daí, quando se pensa nesse prazer individual e nessa fase da vida, muitos tabus e pensamentos preconceituosos vêm à tona e podem limitar novas descobertas.

Muitas mulheres idosas querem prazer e não um companheiro, já que sua vida foi marcada por diversas situações de violência, desrespeito e até não valorização dela enquanto mulher por este homem que viveu décadas ao seu lado.

Ela sempre foi bonita e também interessada pelo prazer. Mas esse homem nunca viu ou fingiu não enxergar. Há muitas idosas que aprimoraram ou inauguraram uma fase da vida com mais autocuidado, valorização da sua estética e troca de lingeries velhas por algumas novas, menores e bem coloridas (algumas até com brilhantes e outros enfeites!).

casal idosos sexo - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

E quando somente uma pessoa tem interesse em manter uma vida sexual e a outra não faz a menor importância ou esforço em relação a isso? Seria a perda da libido? O descuido com a aparência ou em fazer o que excita a outra pessoa? Seriam os problemas financeiros ou os problemas de saúde? Seria a idade ou o sedentarismo?

Pode ainda existir a cobrança dessa pessoa para com ela mesma para comportamentos sexuais e vigor físico semelhantes ao tempo da fase adulta onde não apenas os corpos eram diferentes?

E também é normal a pessoa mais velha não querer mais transar. Essa foi uma das falas de cantora Rita Lee, na época com 72 anos. Mas penso que até para assuntos de sexualidade as questões socioeconômicas influenciam, para o bem ou para o mal.

Vejamos: um idoso preocupado com suas finanças, esperando o dinheiro chegar para comprar aquele medicamento essencial para a sua saúde, que passou a ter sua filha morando com ele em razão do desemprego e que deixou de fazer atividades físicas depois que passou a morar em um bairro que não oferece espaços adequados para saúde, como terá cabeça, corpo e disposição para uma vida sexual?

Só o tesão resolve? Já um homem rico e que tem à disposição recursos e acesso a bens e informações para manter sua vida sexual terá mais facilidades para tal.

A inclusão digital de mais pessoas que estão próximas dos 60 anos ou já passaram poderá abrir novas possibilidades para conhecer outras pessoas com quem poderão ter prazeres, presenciais ou virtuais e, de uma forma ou de outra, ficarem satisfeitas com o gozo alcançado.

Estranhamento, piadas, constrangimentos e preconceitos são as piores atitudes que uma sociedade que envelhece a cada ano mais pode ter quando o assunto é vida sexual de pessoas velhas.

Idoso, idosa, velha e velho, a terceira idade, a quarta idade, enfim, nomeie como quiser, mas saiba e permita e, quando possível, contribua de forma positiva e segura, para que continuem a usufruir essa prática em suas vidas! Envelhecer nunca deveria ser sinônimo de se tornar uma pessoa assexuada.