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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cada vez mais as cidades viram inimigas da pessoa idosa

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Imagem: iStock
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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

17/01/2022 04h00

Recentemente, o padre Júlio Lancelotti tem promovido um movimento para denunciar práticas de algumas cidades do país que criaram uma arquitetura que dificulta a vida de quem está em situação de rua. Na sua rede social, há diversas imagens retratando bancos de praça onde não se consegue mais deitar e calçadas que, em dias de chuva, mesmo com uma proteção acima, ficam constantemente molhadas em razão da direção do cano para escoamento de água.

Outras imagens são de degraus com a presença de grades no meio deles. Sob algumas marquises há todo um solo irregular e, muitas vezes, pontiagudo, que limita até a locomoção e, quem dirá, uma noite de sono.

Não bastasse as mudanças climáticas que geram temperaturas extremas em um mesmo dia, ou chuvas torrenciais em poucas horas, agora vivemos uma fase de aporofobia, que é a aversão a pessoas pobres, o que dificulta ainda mais a vida de quem não tem um outro lugar para morar. Esse termo, muito utilizado pelo padre Júlio, foi criado em 2017 pela filósofa e escritora Adela Cortina.

Em sintonia com esse aumento da aversão a pessoas pobres, nota-se o aumento das pessoas em situação de rua em diversos municípios do país. Queda da renda familiar e perda do emprego e da moradia são alguns dos motivos. Dentro desse contingente, há milhares de pessoas idosas.

Penso que há uma mistura de duas aversões ocorrendo no Brasil: pobres e velhos, ou seja, aporofobia e gerontofobia. E essa última acometerá todas e todos, inegavelmente. E o medo de envelhecer ficando pobre já existe para boa parte da população brasileira.

E essa sensação fica ainda maior quando se percebe que as oportunidades não são as mesmas para quem começou a grisalhar, ou para quem que já é considerada "sênior" em alguma profissão que realiza, ou quem já recebeu nos ambientes não familiares, sem pedir, um pronome de "tio" ou "tia".

A pergunta que faço é: onde vamos parar? Ainda estamos em pandemia e já sentimos os impactos econômicos e sociais decorrentes desses meses de um ciclo de contaminação-confinamento-retorno e é perceptível o aumento de pessoas pobres nos bairros onde residimos, nos centros urbanos que frequentamos e na frente dos estabelecimentos comerciais que utilizamos. E, ainda assim, conseguimos criar mais aversão a pessoas pobres? Como pensar a vida de pessoas idosas pobres nesses espaços?

Não é de hoje que grande parte da população idosa vive com um salário mínimo ou menos, muitas vezes decorrente de uma aposentadoria ou pensão. E que idosas e idosos conseguem um estilo de vida um pouco melhor quando estão em família e passam a gozar da renda familiar que, pelo impacto da pandemia, foi duramente comprometida ou extinta.

E mesmo diante de um 2022 de poucas expectativas, não criamos uma mentalidade ou um sentimento de união para tirar a sociedade brasileira do fundo do poço. Preferimos a filosofia de pisar em quem está lá embaixo, ainda mais se pobre e velho, a não estender a mão, não garantir o mínimo necessário para que se sintam pessoas.

Duvido errar quando penso que, enquanto o ramo de petshops cresce mesmo em tempo de pandemia, podemos constatar que muitos cachorros e gatos vivem em melhores condições de vida se comparados a pessoas velhas em situação de rua. O crescimento das lojas e serviços foi de 13,5% em plena pandemia.

Não deveria sangrar (e doer) uma sociedade que discrimina pessoas porque são pobres e velhas e constrói mais barreiras para impedir ou limitar sua presença em alguns espaços?

Quando pensamos em celebrar medidas que garantem mais acessibilidade a pessoas com deficiência e que também podem ser idosas, notamos um consentimento silencioso para a construção de obras de restrição de circulação e de permanência para as mesmas.

Como vibramos e nos alegramos com notícias de mais pessoas milionárias e bilionárias e não nos sensibilizamos com a nação de novos pobres e novos velhos nas ruas de muitas cidades do nosso país?

Estamos perpetuando um mundo irreal, onde somente as pessoas ricas acham que podem viver, já que estas procuram afastar pessoas pobres do seu campo visual. A presença da desigualdade já está nos portões de nossas moradias. Se há o aprimoramento dos sistemas de vigilância não só é porque queremos afastar quem rouba, certo?

Assim como se fez com a criação de conjuntos habitacionais para pessoas pobres sempre afastados dos grandes centros urbanos, cria-se outra forma de segregar quem não tem dinheiro e moradia, dificultando ainda mais a obtenção de algum dinheiro, comida, cuidados adequados para a saúde, segurança e até contato social.

Alegar que medidas arquitetônicas como essas reduzem a violência é um equívoco ou uma forma de explicitar um preconceito com quem está em situação de rua e atribuir características negativas a elas, como serem pessoas violentas.

Ainda convivemos com práticas higienistas no nosso país, infelizmente. Como pensar na riqueza decorrente de um convívio intergeracional, com a presença de diversos grupos étnicos, com uma discussão franca e sincera sobre gênero, se parece que aprendemos mais a discriminar?

E também não há o interesse em dividir espaços coletivos, como praças, ruas e estabelecimentos comerciais. Tem gente rica que iria detestar ter como vizinho um abrigo para pessoas pobres.

Seria um exagero meu pensar que estamos falando de um processo de gentrificação que, resumidamente, refere-se a mudanças de centros urbanos a partir da saída (expulsão) de pessoas pobres, por meio de leis ou novos e caros estilos de vida, e no lugar vem pessoas com maior poder aquisitivo? Sentem-se as pessoas ricas encarceradas em seus prédios, casas ou condomínios fechados?

E pessoas velhas e pobres? Sentem-se encarceradas nos seus corpos velhos e roupas velhas, sem dinheiro novo para atuar no mercado de consumo que legitima a vida de quem gasta, não importa o quê e como? Onde brotará o senso de coletividade e de compartilhamento? Foi apenas no começo da pandemia que existiu? Não podemos acreditar que nosso país voltará a crescer com tamanha desigualdade.

Os espaços públicos são reflexos de políticas públicas adotadas em um território. Logo, foram definidas por políticos eleitos por todas as pessoas. Dessa forma, temos participação nas decisões tomadas pelos nossos representantes. Cobrar deles uma resposta seria um primeiro passo. O passo seguinte seria medir as consequências dessas novas obras no Brasil e em outros países. Sim, a aporofobia também está globalizada.

Já passou da hora de discutirmos formas de inclusão pautadas na diversidade etária, social, étnico racial e de gênero. Dar oportunidades de aprimoramento e de trabalho a quem é pobre, velho, de pele escura e não cisgênero é diminuir o abismo da desigualdade presente no Brasil e, acredite, melhorar a condição de vida de todo mundo.