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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Velhice não será considerada mais doença! E o que muda a partir de agora?

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Imagem: iStock
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Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

20/12/2021 04h00

O ano de 2021 não é um ano apenas da pandemia. Durante muitos meses, houve uma forte pressão, dos mais diversos setores, para que a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID-11) passasse a incluir o termo velhice (código MG2A) como uma condição patológica.

Se aprovada, uma pessoa velha passaria a não ser mais considerada saudável, aumentando as conotações e impactos negativos na sua vida. Quem tivesse 60 anos, seria considerado "doente" e, por isso, sujeito a intervenções medicamentosas e cirúrgicas, além de outros impactos diretos ou indiretos.

E, para quem quisesse ultrapassar os 60 anos sem ter essa mesma situação, que procurasse meios para que, fisicamente, não aparentasse ter a idade real, criando um portal de oportunidades para negócios do setor antienvelhecimento.

Às pessoas idosas que não pudessem investir no seu rejuvenescimento, caberia mais discriminações e mortes ainda mais precoces a partir de possíveis investigações clínicas superficiais, já que muitos adoecimentos e óbitos poderiam ser decorrentes de uma velhice precoce, e não pela ausência de boas condições de vida desde a infância dessas pessoas.

Foi no dia 14 de dezembro, enquanto participava de uma atividade sobre as condições das ILPIs (Instituições de Longa Permanência para Idosos) no Brasil, que recebemos a notícia de que o termo velhice não passaria a vigorar a partir de janeiro de 2022, e não seria compreendido como um agravo à saúde, simplesmente.

No lugar da palavra velhice passará a vigorar o termo envelhecimento associado ao declínio da capacidade intrínseca, que seria a incapacidade do organismo humano em manter a homeostase, ou seja, o equilíbrio de todas as funções corporais e, com isso, predispor o corpo a uma deterioração e riscos maiores para adoecimentos.

Na opinião de especialistas, outros termos poderiam se encaixar melhor, como o de "fragilidade", que já possui muito estudos e definições conceituais.

Foi uma grande vitória, que contou com a participação de muitas instituições, associações, profissionais da gerontologia e da sociedade civil. Um movimento que teve seu início no Brasil, se alastrou para países da América Latina e Europa. A tarefa foi árdua, com muitas discussões, todas de altíssimo nível, com muitas tensões, medo e angústia. Parabéns a todas as pessoas envolvidas, principalmente àquelas do Movimento @velhicenaoedoenca22, sob a liderança do professor Alexandre Kalache e de tantas outras que não daria para descrever aqui.

Em teoria, velhice volta a ser considerada uma fase natural da vida, assim como infância, adolescência e a fase adulta. Alguns países consideram as pessoas velhas a partir dos 65 anos, outros a partir dos 60 anos, como o Brasil.

E na prática, o que muda?

Avançamos a primeira fase contra o aumento do etarismo, que é a discriminação decorrente da idade. Evitamos uma materialização a partir da codificação dessa discriminação que traria consequências drásticas para toda a sociedade, como dificuldades para um bom diagnóstico clínico, para a formação ampliada de profissionais da área da saúde, além dos altos gastos com plano de saúde e seguros de vida.

Retomando um dos textos já publicados aqui, a pergunta que persiste é: como chegamos a esse ponto, de considerar patológico essa fase da vida? Há uma cultura forte e que ainda cresce rapidamente no mundo todo para que pessoas com cabelos grisalhos continuem sendo preteridas em muitos espaços e convívios intergeracionais.

E isso poderá repercutir nas próximas décadas, seja no mercado de trabalho, no sistema previdenciário já insuficiente, nas ofertas de aprendizagem ao longo da vida, nos relacionamentos, nos espaços de lazer e de cultura, nos arranjos das cidades, nas moradias e nas formas de cuidado.

A população idosa é um dos segmentos populacionais que mais cresce no mundo. Em muitos países, já há mais velhas e velhos se comparados à quantidade de crianças e pré-adolescentes. Mas ainda continuamos a investir maciçamente nas primeiras fases da vida e muito pouco na velhice.

Todos os setores ainda atuam na lógica de garantir um futuro para quem está começando sua trajetória de vida, o que não é errado, mas deixam de pensar em pessoas que, durante essa maior parte da sua vida, jamais puderam pensar livremente, rirem à vontade, fazer o que sempre desejaram, estar onde sempre quiseram, aprender o que sempre tiveram vontade.

As pessoas velhas, por sua vez e por receio de aumentar a sensação de não pertencimento, relutam em assumir essa nova fase de suas vidas. Acreditam que serem chamadas de idosas possa ser menos ruim. E por quê? Porque ainda discriminamos muito quem não é jovem! Porque ainda damos menos oportunidades e menos escuta para quem é velho nesse mundo!

Quem já é velho ou velha e está em diversos espaços de tomadas de decisão ou com poder para gerar mudanças positivas, muito pouco se assumem velhas e continuam a invisibilizar a população idosa brasileira.

Pessoas idosas pobres, negras, LGBTQI+, em situação de rua, privadas da liberdade, indígenas, imigrantes de pele escura, como ficam? Quais direitos e barreiras esses grupos enfrentam para simplesmente envelhecer e usufruir essa fase da vida? Querem ter saúde para levantar da cama, para comer algo mais que arroz e feijão, querem chegar aos 80 anos (que deveria ser uma lei, mais que uma possibilidade apenas).

Como pensar o envelhecimento e as pessoas idosas sem as descobertas decorrentes das pesquisas? São poucas as novas oportunidades para novas e novos pesquisadores do campo da gerontologia. Somos muitos que tentamos pesquisar, escrever nossos artigos nas madrugadas e procurando algum periódico com taxas para submissão que caiba nos nossos bolsos que estão cada vez mais rasos. A vida da pesquisa no Brasil é dificílima para quem aborda os problemas sociais que muitos políticos querem negar e invisibilizar.

Enquanto sociedade, fala-se pouco de saúde, de espaços promotores de boas práticas que garantam um bom envelhecimento. Do outro, são lançados novos produtos, projetos e intervenções para o antienvelhecimento, para não ser grisalho e não ter a pele enrugada! Difícil querer ficar velho nesse país. E veja que somos o país da diversidade! Oi?

Na perspectiva de quem defendia a inclusão de código, penso que poucas mudanças ocorrerão, já que a cultura antienvelhecimento e a discriminação continuarão por muitos anos. Não conseguiremos, a curto ou médio prazo, gerar importantes mudanças capazes de garantir direitos e oportunidades iguais a pessoas velhas e não velhas.

Precisamos pensar nas doenças que, muito lá atrás, afetavam mais pessoas idosas e agora afetam pessoas já com 30 anos, refletindo que nosso estilo de vida, nosso modo de viver não oferece qualidade de vida e garantia de cuidados adequados.

Temos que falar menos de doenças e ofertar possibilidades reais, uma rede de cuidados mais integralizada, menores taxações dos bons alimentos, incentivos fiscais para criação de espaços promotores de saúde, lazer, cultura e ampliação das possibilidades de aprendizagem ao longo da vida e de trabalho.

Velhice não será doença! Agora vamos construir possibilidades para ver mais pessoas velhas sem doenças. Aí ficará tudo melhor!